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Cultura 04 Apr 2006 23:22

V for Vendetta

Hoje fui ao cinema assistir “V for Vendetta” (“V de Vingança” em português); terça-feira é o dia do ingresso barato aqui. Filme excelente; recomendo, especialmente aos ocasionais leitores que estejam nos EUA.

A história de Guy Fawkes, inspiração do personagem principal do filme, não é muito conhecida no Brasil. Ele foi um soldado inglês, católico, que (junto com vários outros conspiradores) pretendia destruir o prédio do Parlamento britânico em revolta contra o governo protestante da época; ele foi preso em 5 de novembro de 1605 e enforcado alguns meses depois. Essa história é contada rapidamente no início do filme; a noite de 5 de novembro é comemorada até hoje na Inglaterra com fogos, fogueiras e com a destruição de bonecos de Guy Fawkes (mal comparando, mais ou menos como a nossa “malhação do Judas”).

O filme se passa na Inglaterra em um futuro não muito distante (na década de 2020), onde um governo absolutista controlado por um ditador e um pequeno grupo de conselheiros domina a população, as empresas e a imprensa; o personagem principal, V, usa uma máscara de Guy Fawkes o tempo todo e pretende fazer o que o Guy original não conseguiu.

Antes de ver o filme, eu li a crítica da Veja sobre ele; está online, mas só para assinantes ou para quem comprou a revista (para quem não comprou, o código esta semana é “RIO BRANCO”). Uma coisa precisa ser dita: Isabela Boscov, que é a jornalista que escreveu a crítica, não viu o filme; ou, se viu, não entendeu. (quem não viu o filme pode não querer ler o texto abaixo)

Ela tem razão em um monte de coisas que escreveu no texto. A visão do sistema capitalista que é mostrada em filmes e livros, geralmente, é muito distorcida e tenta passar a idéia de que esse é um sistema que não funciona, ou que funciona à base de corrupção, ou que é responsável por todos os males do mundo. Ela inclusive menciona outros exemplos, como “Wall Street” e até “O Jardineiro Fiel”. Mas “V for Vendetta” é um filme completamente diferente.

O ponto do texto dela onde fica mais clara a falta de entendimento é aqui:

Quatrocentos anos atrás, o edifício do Parlamento era um símbolo do absolutismo. Hoje, ao contrário, ele representa outro tipo de “sistema” – o constitucionalismo, e numa de suas versões mais bem-sucedidas.

Verdade. Tudo verdade. Mas o filme não se passa hoje; no filme, o Parlamento representa um governo completamente absolutista, e a destruição do prédio simboliza a esperança do país e o fim da passividade condenada pelo próprio V no seu discurso (“quem procura os culpados pelo país que temos hoje não precisa fazer nada além de olhar no espelho”). O filme não sugere que o sistema atual seja absolutista, ou que seja válido destruir o prédio de um parlamento legitimamente eleito e democrático. O filme, ao invés, é um aviso; ele nos diz “esse é o ponto a que pode chegar um governo com muita autoridade”. Existem dois tipos de ficção futurista: um tenta prever como vai ser o futuro, outro tenta evitar um futuro possível; este filme é do segundo tipo.

A jornalista optou por ignorar os paralelos entre o governo absolutista do filme e alguns atos dos governos democráticos de hoje em dia; não só o britânico, que é o retratado no filme, como também (principalmente) o americano e até o brasileiro e o australiano: sob a desculpa de “nos proteger”, os governos ampliam seu poder de intervenção na vida dos seus cidadão graças ao medo de um inimigo comum (terrorismo, epidemias, FMI, inflação…), medo este incitado (em parte) pelo próprio governo. Liberdades são lentamente corroídas por causa, por exemplo, de uma “guerra contra o terror”, sem se levar em conta o fato de que a corrosão da liberdade do cidadão comum não aumenta a segurança de ninguém; só o que aumenta é o poder do governo. O que o filme nos mostra é até onde isso pode ir.

Verdade, Guy Fawkes não é exatamente uma figura simpática, e seria menos ainda se tivesse conseguido o seu objetivo. Mas a mensagem do filme pode ser resumida ao “sound bite” mais interessante do trailer e, talvez, do filme: “people shouldn’t be afraid of their governments; governments should be afraid of their people” (traduzindo livremente, “cidadãos não deveriam ter medo dos seus governos; governos deveriam ter medo dos seus cidadãos”). Ou seja, quem manda no governo é o povo, e não vice-versa. A mensagem do filme não é contra o sistema atual, ou contra um sistema democrático e de liberdades e direitos individuais; o filme está justamente defendendo este sistema.

Sugiro fortemente que a jornalista veja o filme de novo. É impossível achar que atacar o governo exibido no filme é atacar o capitalismo e a democracia.

Cultura 03 Aug 2004 09:08

Ônibus 174

Todos os sábados, os críticos de cinema do The Age (o maior jornal daqui) publicam uma lista dos dez melhores filmes em cartaz em Melbourne no momento. Nesse último sábado, o número 1 da lista era “Bus 174″. Sim, o documentário sobre aquele incidente no Rio de Janeiro, alguns anos atrás, em que um cara seqüestrou um ônibus, passou horas em frente às câmeras de TV, e na hora da rendição um policial acabou matando a refém e os outros, aparentemente, mataram o bandido no camburão. Para comparação, o número 4 da lista era o documentário do Michael Moore, e o número 5 era o Spider-Man 2.

Não pretendo assistir, até porque provavelmente não assistiria se estivesse no Brasil, mas me chamou a atenção os vários elogios feitos ao filme. Será que o filme foi tão bem feito assim, mesmo, ou chamou a atenção aqui pelo “choque”?

Cultura 28 Sep 2003 22:07

Matriz Quântica

O lançamento do último filme da série Matrix está chegando, e eu estava pensando em algo… será que várias das coisas mais “estranhas” da física quântica não fariam bem mais sentido se nós estivéssemos, de fato, vivendo dentro de uma Matrix ?

Por exemplo, a idéia de que coisas que não estão sendo observadas podem temporariamente deixar de existir. Bom, obviamente, quando se vai fazer uma simulação em computador de qualquer coisa, não se gasta tempo desenhando o que não está visível. É bom senso, puro e simples. Inclusive, isso explica aquele experimento do gato de Schroedinger: o resultado realmente só é definido quando a caixa é aberta e alguém olha para dentro. Antes disso, o resultado não havia sido gerado e, portanto, não existia. E, aliás, o gato podia nem estar lá.

Ou aquele problema com a randomicidade dos eventos quânticos (Deus jogando dados, como disse Einstein). Em algum ponto, no limite da resolução da simulação, o programa precisa decidir o que fazer com as unidades mínimas simuladas, e um gerador de números randômicos provavelmente deixaria o universo mais interessante do que um conjunto de regras fixas. E, se alguém está observando o universo de fora, certamente esse alguém preferiria que o universo fosse interessante.

Outras coisas estranhas podem ser o resultado de bugs na simulação, ou mesmo de features que não se esperava que ninguém usasse e que acabam tendo comportamentos inesperados. Qual é o programador que nunca teve uma surpresa assim ?

Bom, só alguma coisa para pensar antes de ir dormir…

Cultura 01 Sep 2003 21:56

Turing

Neste fim de semana, assisti a peça “Quebrando Códigos”, sobre a vida de Alan Turing. O título da peça se refere ao trabalho do qual Turing participou durante a Segunda Guerra, “quebrando” os códigos secretos dos alemães, mas também aos códigos morais da época em que viveu (1912-1954), contra os quais batalhou e por causa dos quais sofreu muito. Homossexual, Turing se suicidou aos 42 anos, comendo uma maçã envenenada.

A peça começa pouco antes do seu suicídio, e conta a sua vida em retrospectiva, através das suas lembranças. Vemos desde a sua juventude, quando foi muito marcado pela perda e um querido amigo (supostamente a grande paixão de sua vida), passando pelo período em que trabalhou no serviço secreto até os últimos anos de sua vida, em que teve problemas com a justiça por causa de sua opção sexual, chegando a ser preso e condenado por má conduta moral. A peça se passa em um palco muito simples, com poucos elementos, e transmite convincentemente a idéia de estarmos “na mente” de Turing, acompanhando as recordações de momentos que marcaram sua vida.

Seria uma história triste com qualquer personagem, mas se torna mais triste ainda devido à genialidade de Turing. O computador em que eu estou escrevendo esse texto, assim como o que você está usando para ler, deriva de idéias que esse homem teve; ambos são, no fundo, Máquinas de Turing. Essas máquinas, inventadas por ele muito antes que fosse possível criar um computador de verdade, são idéias matemáticas criadas e descritas por Turing e que se tornaram fundamentais para a ciência da computação.

No fim, é uma história de uma pessoa genial, que trouxe muitas idéias novas para a matemática e para o campo então nascente da computação, mas que acabou tendo sua vida destruída por um código moral rígido e um estilo de vida visto, na época, como inaceitável. A quem tiver a chance, recomendo assistir a peça; a quem não tiver, recomendo ler e conhecer um pouco mais um dos homem que possibilitou o mundo digital em que vivemos.