Monthly ArchiveJanuary 2007



Austrália &Pessoal 30 Jan 2007 15:05

Agora somos australianos

Na sexta-feira passada, dia 26, foi feriado na Austrália. Nessa data é celebrado o Australia Day, que marca a chegada da primeira frota oficial a Sydney e a fundação da colônia de Nova Gales do Sul (New South Wales), no século 18.

Nesse dia ocorrem eventos pelo país todo, como shows, premiação dos australianos do ano pelo primeiro-ministro, queima de fogos, desfiles, etc. Ocorrem também cerimônias de cidadania, em que estrangeiros recebem um certificado do governo federal que os oficializam como cidadãos australianos. Eu e a Cris participamos da cerimônia organizada pela Prefeitura de Melbourne. Ou seja, desde sexta-feira, somos australianos.

Resolvemos esperar para compartilhar a notícia até ter o documento nas mãos, o famoso “ver para crer”. Porque, como o processo de imigração, o de cidadania também foi longo.

Até o ano passado, imigrantes com visto permanente poderiam solicitar cidadania após dois anos de residência no país (as leis estão mudando e os novos imigrantes precisam esperar quatro anos e passar por teste de inglês e sobre a história e os valores australianos). Em junho fizemos o pedido.

Só no fim de agosto fomos chamados para a entrevista. Na entrevista é preciso apresentar documentos e responder a perguntas sobre direitos e deveres de um cidadão australiano. Depois recebemos uma carta do governo federal dizendo que havíamos sido aprovados na entrevista e, em aproximadamente três meses, seríamos convocados para uma cerimônia.

Três meses depois, nada. Ligamos para o “departamento responsável” e o atendente disse para esperar um pouco mais, pois deveríamos ser chamados para a cerimônia do Australia Day, em janeiro.

Vale ressaltar que as cerimônias são geralmente realizadas em datas especiais, como feriados (diz-se que o país ganha mais novos cidadãos no Australia Day do que em qualquer outra data).

Em dezembro finalmente recebemos outra carta, desta vez sobre a cerimônia, na Prefeitura de Melbourne (porque moramos no centro) – a cerca de 15 minutos a pé de casa.

Chegamos ao local por volta das 8h40. Após a identificação, os candidatos receberam o programa do evento e foram encaminhados aos respectivos assentos (no total, 95 pessoas; uns cinco ausentes, acho).

Em cada assento também havia uma cópia do juramento – há dois tipos; um que inclui a palavra Deus e outro que a exclui.

Os candidatos podem convidar parentes e amigos, filmar, tirar fotos, etc. Os convidados ficam na parte de trás do salão (como em um tribunal). Há também repórteres de rádio e TV (que privilegiam candidatos que parecem “típicos”; um com vestimenta africana, que parecia um pai-de-santo, e um com saia escocesa fizeram o maior sucesso). Eu devia ter ido de bombacha. Mas é estranho ir com vestimenta típica a uma cerimônia em que se obtém uma nova cidadania.

O mestre de cerimônias, um francês que passou pelo mesmo processo, explicou como seria o evento – que foi ótimo: curto (cerca de uma hora), objetivo e bem organizado. Começou oficialmente com a chegada do prefeito John So (chinês naturalizado australiano), que fez um breve discurso e anunciou um coral de jovens, que apresentou a mais famosa canção do país, “Waltzing Matilda”.

Depois os candidatos de cada fila de assentos (mais ou menos dez pessoas por fila) foram chamados até a frente do salão, onde fizeram o juramento. A leitura é feita em pequenos grupos para garantir que as pessoas realmente façam o juramento. Funciona mais ou menos como padre em casamento. O prefeito começou com “repitam comigo” e foi falando cada verso:

“A partir deste momento, (sob Deus)
eu prometo minha lealdade a Austrália e a seu povo
cujos preceitos democráticos eu compartilho, cujos direitos
e liberdades eu respeito, e cujas leis eu apoiarei e obedecerei.”

Pobre do prefeito, que deve ter repetido o mesmo juramento umas oito vezes (só naquela cerimônia). Inicialmente são chamados os que optaram pelo juramento com a palavra Deus, depois os que escolheram o outro juramento.

Aí o mestre de cerimônias foi citando cada nome da respectiva fila (como em formatura), enquanto o prefeito entregava o certificado, dando os parabéns e aperto de mão. Depois cada um ganhava uma muda de planta nativa e retornava ao assento (doamos as mudas para um conhecido que tem uma casa fora da cidade, porque não podemos ter planta no apartamento). Vale ressaltar que o mestre de cerimônias contou com a ajuda de uma pessoa com características asiáticas na leitura de nomes orientais. O francês ficou com os demais nomes (especialmente os que pareciam indianos, muçulmanos e africanos); ele leu os nossos. Cerca de 90% dos candidatos eram asiáticos.

A cerimônia se encerra com um aplauso coletivo e o coral cantando o hino nacional. A seguir, todos (novos cidadãos e seus convidados) se confraternizam em outra área do salão, onde há café, chá e suco à disposição, além de pães doces e bolos (uma empresa de bufê é responsável por todos os eventos que ocorrem na prefeitura, então o serviço foi excelente). E, na saída, era preciso entregar os documentos para obter o título eleitoral (como no Brasil o voto é obrigatório).

Agora já é possível solicitar o passaporte australiano, que não invalida o brasileiro. Ou seja, vamos manter as duas cidadanias. Também podemos ser candidatos a empregos que exigem cidadania.

Faz quase três anos que chegamos aqui. Como o tempo voa. Ainda acredito que passar um tempo no exterior é fundamental antes de uma mudança definitiva. Claro que não há aquele deslumbramento inicial e muitos até pensam que há falta de entusiasmo com o novo país. Por isso não esperem de nós comentários exaltando a vida no exterior, elogios sobre como o país aqui funciona e coisas do gênero. Como sempre dizemos, o mundo é todo igual. E aqui também há problemas!

Viver no exterior é uma experiência enriquecedora, um imenso aprendizado, mas não é fácil, porque recomeçar exige um grande esforço e a vida apresenta muitos desafios inerentes a essa mudança. Mas enquanto estivermos bem e felizes aqui, vamos continuar na Austrália.

Acaso 29 Jan 2007 16:50

Dia de Milton Friedman

29 de janeiro é Dia de Milton Friedman. Algumas citações para comemorar:

Uma grande fonte de objeções a uma economia livre é precisamente o fato de que ela dá às pessoas o que elas querem ao invés do que algum grupo acha que elas deveriam querer. Por trás da maioria dos argumentos contra mercados livres está uma falta de confiança na própria liberdade.

Se uma troca entre duas partes é voluntária, ela não vai ocorrer a não ser que ambas acreditem que estão se beneficiando com o negócio. A maior parte das falácias econômicas decorrem do ato de ignorar esse simples fato, da tendência de assumir que existe um bolo de tamanho fixo, que uma parte só pode ganhar quando outra perde.

Austrália 23 Jan 2007 09:53

Sorria para o Google

Geralmente, pessoas “normais” não ficam sabendo quando são tiradas as fotografias que vão parar no Google Maps e no Google Earth. Mas, se o tempo ajudar, nessa sexta-feira vai ocorrer a primeira sessão anunciada de fotos: Sydney vai ser fotografada por um avião a baixa altitude durante a celebração do Australia Day e, se o tempo estiver bom e as fotos ficarem boas, elas devem ir para o Google Maps cerca de seis semanas depois. As novas fotos devem ser muito mais “próximas” do que as melhores disponíveis até o momento para Sydney.

Com o evento programado, o Google está pedindo que as pessoas “apareçam”: façam cartazes, desenhem na areia, formem imagens com outras pessoas etc. Existe uma página com os horários previstos para o avião passar em cada área de Sydney, e no dia o trajeto vai ser seguido em tempo real.

Dando tudo certo, isso deve se repetir em outras cidades; por exemplo, Paris em 14 de julho, cidades americanas em 4 de julho etc. Por que Sydney é a primeira? Porque o pessoal que desenvolveu o sistema que se tornou o Google Maps (em uma pequena empresa chamada Where 2) mora ali.

Será que alguém consegue convencê-los a pegar Porto Alegre em 20 de setembro?

Acaso 19 Jan 2007 13:55

Gente que o Google traz

Todo mundo faz, por que eu não poderia? Aí vão algumas frases interessantes que pessoas procuram no Google e recebem o meu site como resposta:

  • fotos de patos bonitinhos (patinho feio nem pensar?)
  • vai wilson (uns meses atrás começaram a aparecer pesquisas com “vai wilson, vai” e variações como essa; descobri há pouco tempo que há um vídeo relativamente famoso no YouTube com um cara cantando uma música que tem isso no refrão…)
  • época da mosca na austrália (em Melbourne, no verão; em outras áreas do país dá no ano todo)
  • filmagem sobre a tsunami (é O tsunami!)
  • paul hogan morreu (essa frase e outras similares começaram a aparecer em setembro; Paul Hogan é o ator que fez o Crocodilo Dundee e não, ele não morreu; quem morreu foi o Steve Irwin, o “caçador de crocodilos”)
  • buscar numeracao do meu cpf (hmm… impressa no cartão?)
  • melbourne janeiro temperatura (qualquer coisa entre 10 e 45 graus; sério)
  • como ir de onibus de paris ate londres (passo 1, alugue um ônibus; passo 2, descubra se a barca aceita ônibus; pensando bem, pode ser uma boa idéia inverter a ordem dos passos)
  • passagem de trem de londres para paris (é, essa é uma maneira melhor, mas acho que não dá para trazer o ônibus de volta no trem)
  • louise nao se lembra que clark é superman (o nome dela é Lois; e não, ela não lembra)

Acaso &Brasil 18 Jan 2007 10:11

Brasil para Todos

Uma iniciativa interessante… o site Brasil para Todos divulga uma campanha de defesa da Constituição brasileira, pedindo a remoção de imagens religiosas de órgãos públicos.

Mais detalhes, perguntas e respostas e uma lista de entidades apoiando o projeto estão no site.

Austrália 17 Jan 2007 12:45

Verão

Começou o Australian Open, e com ele a onda de calor que tradicionalmente o acompanha. Ontem tivemos 41 graus no meio da tarde (e 35 às dez da noite), o que acabou fazendo com que todas as partidas de tênis nas quadras abertas fossem canceladas. Mesmo as partidas disputadas em quadras fechadas acabaram atrasando bastante por causa dos intervalos maiores para descanso; a última partida acabou depois da 1 da manhã (quando a temperatura já estava em agradáveis 32 graus).

A situação ontem foi um pouco pior do que o normal porque o estado acabou sendo afetado por cortes de eletricidade a partir do meio da tarde. Não por excesso de demanda, mas porque uma linha de transmissão foi derrubada pelos incêndios florestais, e não era possível consertar o estrago justamente por causa do fogo… aparentemente faltou energia por algumas horas em quase 1/3 do estado, o que acabou parando trens e deixando motoristas presos em engarrafamentos por falta de semáforos.

Como o incêndio continua, o problema de abastecimento continua e o governo está pedindo para que as pessoas reduzam o uso de aparelhos de ar-condicionado hoje (a previsão de temperatura é de 37 graus, mas ao menos o dia está nublado; e vejo pela janela agora que o vento já mudou de direção, então deve começar a refrescar um pouco). Cogita-se até proibir o uso de ar-condicionado residencial até que o problema seja resolvido, mas não consigo imaginar como se fiscalizaria isso.

E, ainda no assunto “verão”, a persistência da seca fez com que as regras para racionamento de água ficassem mais restritivas desde o início do ano: agora é completamente proibido encher piscinas e regar gramados, mesmo em estádios (com algumas exceções), e regar o jardim só é permitido de madrugada ou à noite em dois dias da semana, e só manualmente ou com irrigadores que colocam a água diretamente na raiz; sprinklers não podem ser usados. Também é proibido lavar carros, a não ser com sistemas comerciais; manualmente, só é permitido limpar os vidros com um pano molhado. Com essas regras, todos os parques e canteiros de plantas da cidade estão ficando completamente amarelos…

Se a seca continuar e os reservatórios chegarem a menos de 30% de capacidade antes de abril, as regras apertam mais: fica proibido regar qualquer coisa e lavar carros mesmo em sistemas comerciais. Hoje, os reservatórios estão em 37,6%.

Brasil 13 Jan 2007 10:28

Liberdade de expressão

Não sei por que é que eu ainda leio notícias do Brasil… Deu no Globo e eu vi no Hermenauta:

O juiz substituto da 1ª Vara Federal de Guarulhos, Antônio André Muniz Mascarenhas de Souza, acatou um pedido do Ministério Público Federal e determinou que a União fiscalize o uso de estrangeirismos em promoções e liquidações comerciais. A liminar de alcance nacional foi proferida no dia 8 de janeiro se baseia no Código de Defesa do Consumidor e determina que termos como “off”, “sale” e “summer” venham acompanhados da tradução para o português com o mesmo destaque. A determinação também vale para informações referentes à qualidade, características, quantidade, composição, preço, garantia, validade, origem e riscos dos produtos. [...]os comerciantes que descumprirem a determinação estão sujeitos a multas, apreensão de mercadorias e cassação do registro de funcionamento.

Interessante. Muito interessante. Principalmente porque eu não lembro daquele artigo da Constituição sobre liberdade de expressão ter alguma ressalva tipo “mas só em português, viu?”. Aos meus olhos leigos, eu diria que o Código de Defesa do Consumidor, nesse item, é inconstitucional.

Aliás, isso proíbe que um produto tenha escrito “Made in Brazil” sem tradução do lado, não? “A determinação também vale para [...] origem [...]“.

Some-se isso aos recentes casos do vídeo da modelo e das comunidades do Orkut sobre aquele ex-funcionário da Ferrari, e realmente me parece que uma das leis que não pegou no país foi o artigo 5o. da Constituição.

Acaso 10 Jan 2007 16:49

Notas aleatórias

Preciso começar a pensar em comprar ações da Apple sempre que o Steve Jobs for fazer um pronunciamento importante


Mas será que a tela daquele telefone não vai riscar muito fácil? Os iPods já não tem um bom histórico com isso.. Por outro lado, isso cria um mercado interessante para acessórios.


Parece que esse tal de Alexandre Pato joga futebol mesmo… Agora, “Pato”? Isso é o nome dele?


Sobre o caso da tal modelo na praia… muita gente está falando que o problema que deu origem a todo o bafafá é que o juiz/desembargador responsável não entende de Internet e que o tal “assessor técnico” também não parece entender o suficiente. Eu acho que o problema é outro, e que ele fica bem claro no neste parágrafo do último despacho (o que mandou restabelecer “o sinal” do YouTube):

2. É preciso dispor que a questão não diz respeito mais ao vídeo de Cicarelli, como ficou conhecida a matéria, porque o que está em análise é a respeitabilidade de uma decisão judicial. O Youtube não cumpre a sentença, o que constitui ofensa ao art. 5º, XXXV, da CF, uma ameaça ao sistema jurídico. As sentenças são emitidas para serem executadas.

Considerando que o YouTube fica nos EUA, a “respeitabilidade” de uma decisão judicial brasileira por parte da empresa é absolutamente zero. A nossa Constituição Federal, incluindo todo o art. 5°, tem exatamente o mesmo valor lá: nenhum. O fato de que o desembargador esperava que uma entidade estrangeira obedecesse a uma decisão judicial brasileira mostra que o problema não é falta de entendimento de Internet, mas sim de jurisdição. A história toda é bem mais simples do que parece; não vem ao caso o que a modelo fez ou não fez, se o tal ato era ofensivo ou não, se o seu direito de imagem foi violado ou não ou se é aceitável exigir retirada de conteúdo do ar; todo o caso desaba pela simples questão de jurisdição.

Imaginem o barulho se uma corte americana determinasse algo similar para um site brasileiro. “Imperialismo” e “arrogância” seriam os termos mais suaves usados…