Austrália 20 Nov 2006 11:47

G20

Esse fim de semana foi um pouco mais movimentado que o normal no centro de Melbourne. De sexta a domingo aconteceu aqui o encontro do G20, o grupo que reúne os ministros de economia e os presidentes dos bancos centrais das 19 maiores economias do mundo mais a União Européia (o Brasil faz parte, mas vi muito poucas menções à reunião na imprensa brasileira; não descobri nem sequer quem veio representar o país). E, como acontece em quase todas as reuniões de grupos começando com G hoje em dia, vários grupos em busca de atenção decidiram fazer manifestações e protestos nas redondezas do local da reunião.

Sexta-feira o que mais se percebeu foi o barulho dos helicópteros, filmando tudo do alto, acho que atraídos mais pela confusão no tráfego do que por outros motivos; os principais protestos aconteceram no sábado. Eu andei pelo centro pela manhã, e vi mais policiais pela cidade do que já tinha visto até hoje. A polícia estava esperando protestos e tinha se preparado bem: toda a área nas redondezas do hotel onde aconteceu o encontro estava cercada por barricadas, e ninguém entrava (mesmo a pé) sem um bom motivo. Havia barreiras plásticas cheias d’águas e metálicas (algumas delas fixadas ao chão e às paredes de prédios), veículos bloqueando ruas mais estreitas e um belo contingente de policiais a cavalo.

Foi interessante ver onde os policiais se concentravam. Havia muitos ao redor do principal ponto de concentração de manifestantes, a State Library (eles marcharam de lá até as redondezas do hotel no início da tarde), mas também havia um grupo grande (mais de dez) bloqueando a porta da loja da Nike e pequenos grupos na entrada de cada loja da Starbucks (uma rede americana de cafés); não reparei nos McDonald’s, mas acredito que estivessem protegidos também (e sábado era McDia Feliz aqui).

Os confrontos aconteceram quando os manifestantes tentaram se aproximar do hotel e foram barrados pela polícia; muitos tentaram ultrapassar as barreiras e jogaram objetos contra os policiais (cestas de lixo e pedaços das próprias barreiras), mas não passaram. Um policial quebrou o pulso ao ser atingido por algo, e um repórter de TV foi agredido por um grupo; uma das vans policiais que estava bloqueando uma rua foi bastante danificada, e a polícia montada teve que recuar porque os manifestantes estavam agredindo os cavalos. No fim, dois manifestantes foram presos durante o dia, e mais cinco à noite; espera-se que outros sejam presos com base nas imagens da TV. Também aconteceram outras pequenas “escaramuças” quando os manifestantes tentaram entrar em um McDonald’s e na loja da Nike, sem sucesso.

Já o domingo foi absolutamente quieto, talvez porque o encontro já estivesse terminando, talvez porque os manifestantes não tivessem muito apoio mesmo; das 10.000 pessoas esperadas para o protesto, menos de 2.000 apareceram. E vale dizer que, fora do caminho do protesto e da vizinhança do hotel, a vida no centro da cidade continuava normal: lojas estavam abertas, pessoas faziam compras, nada era muito diferente do esperado. As grandes lojas do centro tiveram movimento normal, de acordo com seus gerentes, e do nosso apartamento só o que se notava era o barulho de helicópteros de vez em quando. Ou seja, diferentemente do que disse a Folha de São Paulo, o centro de Melbourne não estava paralisado.

Em uma linha de protesto um pouco mais civilizada, no sábado também aconteceu um concerto de rock gratuito, da campanha “Make Poverty History” do Bono. Fizeram parte o U2, Pearl Jam e vários outros, e havia muito mais gente no concerto do que nos protestos.

Opinião pessoal: esses protestos “anti-globalização”, que sempre são anunciados como protestos não-violentos e acabam em baderna, são de uma estupidez completa. Quem está ali jogando coisas na polícia (e reclamando de repressão quando ela reage) não está ajudando ninguém, e às vezes fico na dúvida se tem alguma idéia do que está fazendo (e, verdade, a violência parece ser puxada por um pequeno grupo). Não consigo imaginar qual o processo mental que leva alguém a pensar que quebrar um carro policial ou invadir um McDonald’s ajuda a diminuir a pobreza no mundo, ou mesmo a diminuir a “globalização”. E, aliás, diminuir globalização é a melhor receita para aumentar pobreza e desigualdade, não diminuir.

Esse pessoal se beneficiaria muito de uma leitura de algumas citações do recentemente falecido Milton Friedman; podem aprender algo com ele.

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