Brasil 27 Sep 2006 15:22
Sobre voto nulo
Pelo que andei lendo, existem campanhas no Brasil encorajando eleitores a anularem seus votos. Andei pensando sobre isso, e admito que mudei de opinião a respeito com o tempo.
A minha opinião inicial era que votar nulo é jogar um voto fora. Uma eleição é uma oportunidade de participar no processo de decidir o rumo do país, e me parecia que anular propositalmente um voto era mais ou menos como que dizer “não estou nem aí, não me interesso por política, decidam vocês”; indesculpável, portanto. Não penso mais assim.
Há que se dizer que existem argumentos absurdos dos dois lados do debate. O mais absurdo é aquele que diz que, se mais de metade dos votos forem nulos, a eleição é anulada e reconvocada com outros candidatos. Isso é mentira; e, mesmo que fosse verdade, o número de votos nulos nunca vai ser mais da metade do total. Ou seja, se alguém está pensando em votar nulo para tentar anular a eleição toda, pode desistir agora.
Outra alegação é que o voto é algo que tira a liberdade dos eleitores; por se estar escolhendo um representante, você estaria “entregando a sua liberdade” para quem fosse eleito. Besteira; ao votar, você está exercendo a sua liberdade de escolher a direção a ser tomada pelo governo, através da escolha do(s) seu(s) representante(s); você não está abrindo mão de liberdade nenhuma. Uma alegação paralela é a de que, pelo voto ser obrigatório, o eleitor não é realmente livre. Ok, concordo até certo ponto. Mas voto, na prática, não é obrigatório. Quem não quer votar, no fundo, no fundo, não vota. Há voto nulo; há voto em branco; justificar é fácil, tanto no dia quanto mais tarde; e a multa para ausentes é irrisória. No fim, concordo: se você realmente não quer votar, voto nulo é uma possibilidade. Mas você está votando nulo porque não quer votar, não porque não é livre para escolher.
Um argumento absurdo contrário é que votar nulo é votar para o candidato com mais votos. Isso não é verdade; um voto nulo é um voto nulo e não conta para ninguém, ponto. Idem para voto branco. Um detalhe, no entanto: em uma eleição majoritária com dois turnos, cada dois votos nulos (ou brancos, ou abstenções) diminuem em um voto a quantidade necessária para que um candidato ganhe no primeiro turno. Então, para quem definitivamente não quer que um candidato específico ganhe a eleição no primeiro turno, votar nulo não é a melhor estratégia (isso é um efeito colateral do nosso sistema eleitoral; se houvesse a possibilidade de votar contra alguém, ao invés de a favor, isso deixaria de ocorrer — e a eleição seria bem mais interessante).
Outro, mais absurdo, é que quem vota nulo depois não tem direito a reclamar de nenhuma atitude do governo eventualmente eleito, porque “não ajudou a escolher”. Isso é tão imbecil que é difícil saber por onde começar. Todo mundo tem direito a reclamar, independentemente de ter votado ou não, ou de ter votado em quem ganhou ou não, pelo motivo simples de que todo mundo paga impostos e todo mundo financia o que o governo está fazendo. Quem está ajudando a pagar tem direito de dizer para onde o dinheiro deve ir; o voto não tem nada a ver com isso. E, aliás, não seria mais razoável dizer que quem elegeu o governo é que não tem o direito de reclamar, porque ajudou a colocá-lo lá e explicitamente endossa suas atitudes?
Enfim, a minha opinião: se você acha que existe um candidato que realmente merece ocupar o cargo ao qual está concorrendo — qualquer que seja — e que representa as suas idéias e concorda com as suas opiniões, vote nele, sem dúvida. Por outro lado, se você (após analisar os candidatos disponíveis) não acha que nenhum candidato encaixa nessa descrição, não vote em nenhum; vote nulo, vote branco, vá para a praia e justifique… não faz diferença, o resultado é o mesmo; mas não vote no menos pior. Quando aparecer um candidato com o qual você concorda, aí sim, vote nele (ou, sei lá, candidate-se, se puder).
Votar em um candidato que não combina com os seus ideais apenas porque é o menos pior é moralmente menos aceitável do que se recusar a votar por não estar em condições de endossar nenhum candidato. Quem se recusa a votar está, sim, fazendo uma escolha: está dizendo “não concordo com nenhum dos candidatos”. Verdade, é uma escolha que não vai ter resultado prático imediato: um dos candidatos vai ser eleito, a eleição não vai ser anulada; mas isso não é diferente do “resultado prático” obtido votando no candidato derrotado.
Isso dito, uma ressalva, como mencionado mais acima: se, no primeiro turno de uma eleição majoritária, um candidato do qual você discorda fortemente tem chance de se eleger diretamente, eu considero que o melhor curso de ação é votar no “menos pior” (ou em um candidato sem chance de vitória) para aumentar o número de votos válidos e, conseqüentemente, aumentar o número de votos necessários para ganhar a eleição no primeiro turno. Mas no segundo turno — ou em eleições sem segundo turno — não há justificativa para votar no menos pior (assim como, sem analisar os candidatos existentes, não há justificativa para deixar de votar).
3 Responses to “Sobre voto nulo”






on 18 Oct 2006 at 13:35:46 1.Sonia said …
Wilson
Concordo com voce. Votar eh o unico caminho para mudancas e transformacoes. Quando o eleitor tiver consciencia do poder do seu voto, sera tudo mais facil. Apesar do Brasil viver um Democracia, ainda tem-se muitos coroneis impondo o voto formiguinha. Lamento encontrar meu pais nas maos de corruptos, parecendo uma terra sem lei, e nosso povo sem forcas e coragem para mudar tudo isso. Vou sonhando e tendo esperancas de ver o Brasil chegar a ser um pais de primeiro mundo, com igualdade social, trabalho, escolas, saude para todos.
Sonia
on 28 Oct 2006 at 05:55:35 2.Diom said …
Aqui em Pelotas, por exemplo, a campanha pelo voto nulo é mais forte do que a de qualquer candidato. É impressionante a quantidade de cartazes anônimos espalhados por toda a cidade com os seguintes ditos: “Vote Ninguém! Ninguém te representará. Ninguém investirá na educação. Ninguém cuidará da segurança. Aperte 00 Confirma e vote Ninguém”.
on 29 Oct 2006 at 20:52:25 3.Ricardo said …
Hoje é dia de eleição. Estamos no final do segundo turno para eleição do presidente da república. Concordo plenamente com o que você disse e voto nulo hoje. Não concordo com as posições de nenhum dos dois candidatos e não acredito que votar no “menos pior” é uma opção. Meu voto só vai para aqueles em quem acredito.
Um bom dia a todos!