Brasil 07 Sep 2006 14:30

Eleições I

Um assunto sobre o qual eu não costumo escrever muito é política. Mais ainda, eu já comentei aqui neste blog que não vou votar nas eleições deste ano, portanto, nem sequer posso “abrir meu voto” porque, bem, não há voto para ser aberto. Apesar disso, eu tenho uma preferência na eleição para presidente, e é uma preferência relativamente bem embasada. Então, decidi aproveitar esse sete de setembro para começar uma breve série sobre os principais candidatos a presidente, com os meus comentários sobre seus programas de governo e porque eu votaria ou não em cada um.

Lembrando, claro, que essa é a minha opinião, baseado em como eu acho que o governo brasileiro deveria se comportar e em como os candidatos dizem que irão se comportar se eleitos.

Então, vejamos, um candidato de cada vez, começando com o favorito.

Lula

Várias coisas me incomodam com o atual presidente; elas já fizeram com que eu não votasse nele antes, e garantem que ele também não seria a minha escolha para este ano. E não estou me referindo (diretamente) às acusações de corrupção.

O meu principal problema é com a ideologia do partido. O PT, por mais que tente amenizar, é um partido com uma ideologia socialista, de “governo grande”, e isso é diretamente oposto ao que eu acredito. A visão petista (e lulista) é de que cabe ao governo “tomar o país pela mão” e levá-lo ao caminho certo; o problema é que o governo nem sempre sabe qual é o caminho certo. Essa visão fica clara no programa de governo do partido, que enfatiza inúmeros “planos nacionais” e “sistemas nacionais” para resolver questões específicas.

E é muito clara também no caráter assistencialista de vários programas governamentais, como por exemplo o tão falado Fome Zero e o tão explorado Bolsa Família. Mas isso é característico de governos de esquerda, e provavelmente indica mais incompetência do que maldade (quero dizer, eles acham que assistencialismo é bom; não estão intencionalmente tentando deixar a população pobre completamente dependente do dinheiro do governo — que, vale lembrar, é o dinheiro de todos nós). Mas que eles exploram isso bem, eles exploram.

Essa visão de “confie em nós, nós sabemos o que é bom para todo mundo” é perigosa; o governo (qualquer governo, não só um governo petista) não sabe o que é certo para todo mundo, e não é papel do povo confiar cegamente no governo: o papel é cobrar, reclamar, pedir explicações — e recebê-las! Essa visão não é exclusiva do PT; ela tende a ser um pouco endêmica em partidos de esquerda, que por se focarem na sociedade antes do indivíduo costumam se colocar no papel de “protetores” do “homem comum” e ignorar críticas como sendo não-representativas. Isso acaba por deságuar na atitude de “os fins justificam os meios”: como eles acreditam que estão fazendo o bem, acham que qualquer atitude que leve na direção pretendida é válida. Mas estou fugindo do assunto.

Um problema secundário é com a imagem passada pelo presidente. Mais agora do que antes de ser eleito, a impressão é que Lula tenta a cada momento glorificar a imagem do “homem comum”; ele exalta a idéia de que, se não é necessário estudo ou conhecimento para governar um país, por que seria necessário para qualquer outra coisa? O programa de governo tem um capítulo sobre educação que é relativamente bem escrito (embora seja interessante ver o mesmo programa mencionar “fortalecer o caráter inclusivo e não-discriminatório da educação” e reserva de bolsas para afrodescendentes e indígenas), mas as atitudes públicas do presidente não colaboram.

Amanhã: Geraldo Alckmin.

One Response to “Eleições I”

  1. on 07 Sep 2006 at 23:46:35 1.Fernando said …

    Oi!
    Excelente texto, como de costume. Um detalhe: o Bolsa Familia na verdade eh resquicio da era FHC. Nao deixa de teres razao – eh assistencialismo – mas nao quero ver teu argumento ser rejeitado por pequenos detalhes factuais.
    Abracos!