Monthly ArchiveAugust 2006



Austrália 30 Aug 2006 11:02

Notas da Austrália – 30/08

Privatização A Telstra, a maior empresa telefônica da Austrália, ainda é controlada pelo governo. Parte das ações foi vendida para o público em dois blocos (o primeiro em 1997), mas o governo manteve 51,8% delas. Agora ele decidiu vender, e vai colocar as ações no mercado para investidores individuais e institucionais a partir de outubro ou novembro. Isso já era esperado, porque havia sido uma das promessas do atual primeiro-ministro; e, como ano que vem é ano de eleições, esperava-se que acontecesse logo (o ministro de economia confirmou que o governo quis evitar fazer a venda em ano eleitoral). Vão para o mercado cerca de 1/3 das ações do governo; o resto vai para um fundo que financia a aposentadoria de alguns funcionários públicos, e vai ser vendido aos poucos no futuro. Incidentalmente, as ações estão quase no seu preço mais baixo desde que foram lançadas; quem comprou no segundo bloco de privatização perdeu mais de 50% do valor.

Futebol Parece que contratar brasileiros fez bem para o time de futebol local, o Melbourne Victory: na primeira rodada, o resultado foi uma vitória por 2 a 0 contra Adelaide, com um gol de um brasileiro (Claudinho) e um na cobrança de um pênalti sofrido por outro brasileiro (Alessandro). Este último, no entanto, discutiu com o capitão do time na saída para o intervalo e não voltou no segundo tempo… Espera-se casa cheia no próximo jogo, sábado, contra Sydney. Vai ser a única partida da temporada jogada no Telstra Dome, um dos dois grandes estádios de Melbourne (os outros jogos em casa são no Olympic Park, um estádio menor nas proximidades do MCG).

Melbourne Day Hoje, 30 de agosto, é Melbourne Day: são 171 anos desde a fundação da cidade. Os primeiros colonizadores europeus chegaram em 1835 e atracaram o navio Enterprize (sim, com Z) no lugar onde hoje fica o Enterprize Park, ao lado do Melbourne Aquarium na margem norte do rio Yarra, quase no centro da cidade.

Água O inverno que está prestes a acabar foi um dos mais secos dos últimos tempos, e como resultado as reservas de água de Melbourne estão em um nível muito baixo (46,8% hoje, contra 53,6% há um ano e 54,8% há dois anos &mdash e pouco mais de 80% em 1997). Como resultado, as restrições para o uso de água para regar jardins e gramados vão aumentar a partir de sexta-feira: sistemas automáticos só vão poder funcionar da meia-noite às 6 da manhã, e sistemas manuais das 8 às 10 da noite, em dias alternados (casas de número par em dias pares, números ímpares em dias ímpares). Regar com mangueira pode a qualquer hora, mas a mangueira precisa ter um bocal com controle (“gatilho”). O que muita gente reclama é que as cidades usam um percentual muito pequeno da água do país, mesmo incluindo aí as indústrias; o maior consumidor, disparado, é a agricultura, principalmente porque se cultivam algumas plantas que requerem muita água (algodão e arroz, por exemplo).

Acaso 28 Aug 2006 15:18

Gigabyte

Quando o GMail foi lançado, em abril de 2004, primeiro eu achei que era brincadeira de primeiro de abril. Depois, minha impressão básica foi “1 gigabyte de e-mail vai durar para sempre, nunca vai encher”. Pois bem…

Ainda bem que eles ampliaram o limite.

Austrália 23 Aug 2006 17:04

Notas da Austrália – 23/08

Terrorismo Já comentei antes sobre o pessoal do Chaser, um programa humorístico que passa na ABC daqui. No programa da semana passada eles decidiram fazer piadas com as novas medidas de segurança nos aeroportos, causadas por aquele possível plano de atentados que foi descoberto na Inglaterra. Em um dos segmentos eles se apresentaram no portão de embarque vestidos apenas com sacos plásticos (e roupas de baixo, claro), “por segurança”. Em outro, eles compraram uma passagem Sydney-Melbourne em nome de “Al Kyder”, que se pronuncia mais ou menos como “Al Qaeda”, e outra como “Terry Wrist” (“terrorist”); um deles retirou o cartão de embarque nos terminais automáticos (onde não é necessário apresentar documento) e não embarcou, para esperar que os passageiros atrasados fossem chamados por nome pelos alto-falantes. O que realmente aconteceu; o engraçado foi ver a moça da companhia aérea quase começando a dar risada ao ler o nome “Al Kyder”… (honestamente, acho que se eles tivessem tentado isso nos EUA, iam parar na cadeia) (o vídeo deste segmento está no site do Chaser e, claro, no YouTube)

Futebol Domingo começa a segunda edição do campeonato nacional, a A-League. O time de Melbourne contratou três brasileiros dos quais eu nunca tinha ouvido falar: Fred, do Tupi; Claudinho, do Atlético Paranaense; e Alessandro, do Inter de Porto Alegre (que é o cara do caso da bomba). Os três andaram reclamando do frio de Melbourne, mas o time tem esperanças de que eles ajudem na classificação para a segunda fase.

Prêmio Um dos ganhadores da Fields Medal deste ano é de Adelaide. A Fields Medal é mais ou menos o equivalente ao Prêmio Nobel no campo de matemática (não existe Nobel de matemática), mas só é entregue a cada quatro anos. Terence Tao ganhou o prêmio por seu trabalho no campo de números primos. Aliás, o prêmio saiu em um bom momento para as indicações para Australian of the Year para o ano que vem (podem ser feitas até dia 28)…

Acaso &Brasil &Pessoal 23 Aug 2006 15:09

Sobre etiqueta no Orkut

Tenho uma pergunta para os meus leitores em geral.

Como todo mundo sabe, o Orkut é muito mais popular no Brasil do que em qualquer lugar do mundo. Uma coisa que me chamou a atenção quando estive recentemente no Brasil foi o número de menções ao serviço na imprensa, na TV, em livros etc., sempre sem explicações (ou seja, como se todo mundo soubesse o que é). Aqui, ninguém fala nele, e creio que muita gente nem sabe que ainda existe.

Pois bem. Eu estou cadastrado desde os primeiros dias do serviço, mas recentemente (leia-se “nos últimos 12-18 meses”) quase não tenho acessado. Acabo entrando lá mais ou menos uma vez por mês só para limpar o spam do scrapbook (que, se eu pudesse, eu teria desabilitado); sempre que faço isso, lá estão me esperando vários pedidos de contato de “amigos” dos quais eu nunca ouvi falar. O que eu faço é simplesmente clicar em “não” na pergunta sobre “você conhece essa pessoa?”.

Nessa última vez, no entanto, um desses pedidos de contato era de uma pessoa que eu conheço; tive algum contato com ele na época de universidade, e algum contato profissional depois. A minha tendência, então, seria dizer sim, conheço essa pessoa. Só que, no perfil dessa pessoa, o nome dela aparece não como, por exemplo, “Isaac Gerânio” (nome fictício), mas como “Isaac Gerânio para Deputado Estadual n° 99123″.

E aí vem a pergunta. Eu não quero usar a minha lista de amigos como palanque para um candidato a deputado em quem eu, mesmo conhecendo, não votaria, de um partido no qual eu não votaria. Tampouco quero que a presença de uma mensagem de candidato na minha lista de amigos seja interpretada como um apoio meu ao candidato. Qual seria a atitude correta, portanto? (a) clicar em “sim”, porque afinal eu conheço a pessoa; (b) esperar a eleição passar e depois clicar em “sim” para estabelecer o contato; (c) clicar descaradamente em “não”, já que o pedido de contato foi completamente interesseiro e não sincero; (d) nenhuma das acima.

Agradeço sugestões.

Austrália 16 Aug 2006 12:09

Notas da Austrália – 16/08

Algumas notícias rápidas…

Táxis em greve É, aqui não é o transporte público, são os taxistas que fazem greve. O motivo é falta de segurança, e o que “detonou” o movimento foi um incidente em que uma pessoa fugindo da polícia seqüestrou um táxi e acabou por matar o motorista (batendo o táxi em uma árvore). Os taxistas alegam que se preocupam com a sua segurança e que estão cansados de sofrer abusos e racismo por parte de passageiros (os taxistas são, na grande maioria, estrangeiros) e de passageiros que fogem sem pagar (alguns taxistas estão começando a pedir um depósito antes da corrida, o que é permitido por lei). O protesto começou na sexta-feira passada, no centro da cidade; sexta-feira à noite é um dos períodos de maior movimento para os táxis, então o protesto foi bastante sentido (e não só por ter arrasado com o trânsito do centro da cidade em horário de pico e de jogo de futebol). O resultado do protesto, até o momento, é que serão colocadas telas de segurança entre o motorista e os passageiros em alguns táxis para um teste de seis meses (para ver como os motoristas e os passageiros se adaptam).

Carros a gás Com os preços da gasolina subindo, carros a gás começam a se tornar mais populares, e já há filas de espera para a conversão. Esta semana o governo federal anunciou um programa de subsídio a essas conversões: o governo vai pagar $2.000 para motoristas que converterem seus carros, e $1.000 para quem comprar um carro novo a gás. Também começa-se a falar mais seriamente em usar álcool; já está disponível um combustível chamado E10, uma mistura de 90% gasolina e 10% álcool. Um comentário interessante foi que a Holden (que é o nome da GM aqui) já fabrica carros a álcool na Austrália: o Omega vendido no Brasil é o Commodore daqui, e o modelo a álcool é feito aqui também. Os plantadores de cana do nordeste do país estão empolgados com a idéia (e são contra os subsídios para carros a gás…).

Futebol Depois do sucesso na Copa do Mundo, os Socceroos voltam a campo hoje para as eliminatórias para a Copa da Ásia, contra o Kuwait, em Sydney. Com um time completamente desconhecido: os jogadores que atuam no exterior não foram convocados. Ainda assim a torcida está otimista, principalmente depois que o Líbano, um dos adversários da Austrália nesta fase, abandonou a competição. Espera-se estádio cheio hoje à noite.

Austrália 07 Aug 2006 22:19

Bomba

Alguém já reparou que “bom” soa mais ou menos parecido com “bomb” (bomba, em inglês)? Pois é.

Deu no The Age de hoje:

[...]Melbourne Victory’s latest acquisition, Alessandro, was regarded [as a security threat] by airline staff in Sydney yesterday when he sparked a bomb scare as the soccer team strapped in for the short flight to Tamworth for their pre-season cup match against Newcastle.

Asked if everything was all right, the Brazilian apparently said “si, bom” — Portuguese for “yes, good”.

But airline staff thought he said “bomb”, evacuated the plane and had to be persuaded to allow him back on after a 20-minute delay.

They called the Federal Police, everyone got off the plane, and the police were not going to let him back on, Victory coach Ernie Merrick said.

Traduzindo:

A última aquisição do Melbourne Victory, Alessandro, foi considerado uma ameaça à segurança pelos comissários de bordo em Sydney ontem ao causar um alarme de bomba enquanto seu time se acomodava para o curto vôo até Tamworth para sua partida de pré-temporada contra o Newcastle.

Questionado sobre se estava tudo bem, o brasileiro aparentemente respondeu “si, bom” [impossível que tenha dito isso; deve ter sido "sim, tudo bom" ou algo similar]. Mas os empregados da companhia aérea acharam que ele tinha dito “bomb”, evacuaram o avião e tiveram que ser convencidos a deixá-lo embarcar depois de um atraso de vinte minutos.

Eles chamaram a Polícia Federal, todo mundo saiu do avião, e a polícia não queria deixá-lo embarcar de volta, disse o técnico do Victory Ernie Merrick.

Esse pessoal de companhias aéreas está cada vez mais paranóico…

Austrália 04 Aug 2006 16:41

Censo

Este ano a Austrália faz o seu recenseamento. Dois anos atrás nós participamos de um “beta teste” do sistema, e eu comentei a respeito aqui.

O censo de verdade vai funcionar exatamente como no teste. Nós já recebemos os formulários, e eles podem ser preenchidos em papel ou online. Acho que a principal diferença para o censo brasileiro é que este é “faça você mesmo”: não vai haver um recenseador entrevistando todo mundo, cada domicílio é responsável por preencher seu próprio formulário e enviar de volta (ou fazer online, claro). Tem multa por não preencher ou por atrasar: $100 por dia.

Outra diferença é que o censo daqui tenta ser uma “foto” mais instantânea do estado do país. O censo tem data exata: 8 de agosto. A idéia é que todo mundo preencha seu formulário nesse dia (ou, mais especificamente, nessa noite) de acordo com a sua situação no momento. Assim, há perguntas sobre que meio de transporte foi usado para ir trabalhar naquele dia, quantas pessoas vão passar a noite na casa mesmo que não morem lá etc. O censo brasileiro, diferentemente, é feito no decorrer de um período mais longo (algumas semanas), o que resultaria em uma foto um pouco “desfocada”.

Admito que estou curioso para ver quão lento vai estar o sistema online com o país todo tentando preencher o formulário na mesma noite… (se bem que não sei qual o percentual da população que vai realmente fazer online, e existem pessoas que já estão preenchendo antecipadamente – até hoje, 16.000 já preencheram).

Austrália &Pessoal 03 Aug 2006 23:59

Saúde pública

Um bom tempo atrás eu escrevi rapidamente sobre o sistema de saúde australiano, mas tinha sido sob uma ótica completamente teórica. Não havia sido necessário usar muito o sistema de saúde, e eu nem sequer tinha estado em um hospital aqui. Semana passada, finalmente, ganhei um pouco mais de experiência em “primeira mão”, então agora posso escrever um pouco mais a respeito…

Antes de qualquer coisa: está tudo bem com todo mundo aqui, inclusive o gato. Eu tive amigdalite e fiquei alguns dias “de molho”, mas já estou completamente recuperado e sem problemas. Foi desconfortável enquanto durou, mas nada muito grave.

O “problema” começou no dia 21, uma sexta-feira; só um pequeno desconforto ao engolir. Sábado estava um pouquinho pior, mas ainda nada demais. Domingo pela manhã estava bem o suficiente para levar o gato ao veterinário (vacinação anual), mas à tarde fui ficando progressivamente pior: febre, dor de cabeça, dor de ouvido, cada vez mais dolorido para engolir etc. etc. À noite só o que eu comi foi sopa.

Na segunda-feira, obviamente, não fui trabalhar, e logo cedo liguei para o médico e marquei uma consulta para o início da tarde. Uma das vantagens de morar no centro é a proximidade da área “hospitalar”: existem vários hospitais, de diferentes especialidades, em uma área pequena, a umas dez quadras de casa, e o consultório do meu médico (clínico geral; aqui todo mundo tem um) fica na mesma região.

O médico olhou a minha garganta e rapidamente declarou que era amigdalite. Ele me perguntou se eu conseguia engolir, eu disse que sim, mas com alguma dificuldade. Daí me deu na hora uma injeção de penicilina e receitou cápsulas para tomar de seis em seis horas.

Até sair do médico foi tudo de graça. O sistema de saúde pública, chamado Medicare, cobre o custo de consultas médicas até um certo valor, e cada médico pode optar por cobrar só aquele valor ou cobrar mais (se cobrar mais, o paciente precisa pagar). Além disso, o médico pode cobrar direto do Medicare ou cobrar do paciente e deixar que este peça um reembolso (que, pedido no escritório do Medicare, sai na hora).

O meu médico cobra direto do Medicare (em geral, a consulta de um clínico geral não passa do valor coberto pelo Medicare, enquanto a consulta com um especialista quase sempre vai exigir que o paciente pague uma parte; isso se a consulta for indicada pelo clínico geral; quem quiser uma segunda opinião, por exemplo, tem de pagar tudo do próprio bolso; plano de saúde aqui não cobre consulta nem exames).

Os remédios, no entanto, não são de graça. O governo subsidia o custo de certos remédios “essenciais”, mas parte do custo continua com o paciente (até um certo limite anual). Outros remédios não são cobertos e precisam ser pagos integralmente.

Ou seja, não dá para prever o quanto será gasto anualmente com saúde. Sabe-se apenas o que (ambulância e internação) e quanto (que varia bastante) o plano de saúde cobre, e a quantidade máxima de gastos com médicos e remédios (a partir de um determinado valor, o governo paga tudo). O interessante é que, apesar de os planos não cobrirem consultas nem exames, podem incluir tratamento dentário, óculos e lentes de contato, terapia psicológica, dietas como Vigilantes do Peso, etc.

Outro detalhe: diferentemente do que acontece no Brasil, remédios que só podem ser vendidos com receita são vendidos apenas com receita.

Outra coisa que o médico disse é que, se piorasse, eu deveria ir para a emergência do Eye and Ear Hospital (Hospital do Olho e Ouvido) que, apesar do nome, também cuida de nariz e garganta. E, claro, piorou. À noite a garganta estava muito dolorida, doía muito até para engolir líquidos e eu não tinha comido nada o dia todo. E foi assim que fiquei sabendo como funciona a emergência de um hospital público aqui.

Logo na entrada do hospital uma recepcionista pergunta se o que se quer é ver um médico; quando se diz sim, ela aponta na direção da emergência. Lá, outra recepcionista pega os dados do paciente (nome, endereço, número do Medicare) e diz para sentar e esperar por uma enfermeira. Até aí não houve nenhuma menção do problema de saúde que levou o paciente ao hospital.

Na área de espera, um cartaz grande explicava como funciona o setor de emergência: o primeiro contato é com uma enfermeira de triagem, que faz um exame básico, vê os sintomas e decide quão prioritário é o atendimento. Ela não faz nenhum tratamento, não receita nada; em suma, não resolve o problema. Só gerencia a lista de espera para o médico. Ou seja, o atendimento não é na ordem de chegada, mas na ordem de gravidade.

Depois de ser “entrevistado” pela enfermeira (a espera foi de uma meia hora) voltei à área de espera para aguardar ser chamado pelo médico. E o tempo de espera pode ser longo. Quando perguntei “quão longo?”, a resposta foi que não sabiam, mas podia ser bem longo porque só havia um médico atendendo àquela hora. “Bem longo, mais de um hora?” A moça riu e respondeu “uma hora, aqui, não é um tempo longo”.

Tenho que admitir que uma coisa que me chamou a atenção foi quão saudáveis os outros pacientes pareciam. Ninguém estava visivelmente doente, machucado, nem nada do gênero. Na minha triagem eu era, se não o paciente mais grave, ao menos o mais “desconfortável”. Deviam ter umas seis ou sete pessoas esperando atendimento quando cheguei e, na sala de espera, uma TV passava Scrubs (com legendas, claro, para não prejudicar pacientes com deficiência auditiva).

Resumindo, a espera foi de quase duas horas. A médica pediu muitas desculpas pela demora e comentou que só ela estava atendendo porque o hospital não tinha recebido fundos do governo para pagar mais médicos. Examinou tudo, perguntou sobre o remédio que estava tomando e depois parecia não saber bem o que fazer. Disse que eu não estava doente o suficiente para ser internado, mas nitidamente não estava muito bem. Ela acabou me mandando para casa com uma receita para remédio para dor, pois antibióticos eu já tinha. E, como eu não tinha como comprar remédios àquela hora (mais de uma da manhã), recebi dois comprimidos. Ah, a médica pediu que eu voltasse (com hora marcada) dois dias depois para nova consulta (e o folheto do hospital alertava: “reserve pelo menos duas horas”).

Uma coisa tem que ser dita: analgésicos de hospital, extra-fortes, são uma das melhores coisas que a ciência já fez pela humanidade. Isso e antibióticos. Com aqueles dois comprimidos, dormi muito bem. No dia seguinte eu não estava sensivelmente melhor; a garganta continuava muito inchada e engolir ainda era muito difícil. Mas meia hora depois de tomar os analgésicos eu conseguia comer qualquer coisa sem problemas (por umas duas horas). Isso já melhorou incrivelmente a minha “qualidade de vida”.

E, finalmente no dia seguinte, eu já estava melhor, tanto que não precisei mais dos analgésicos. Eu podia sentir que estava melhorando a cada hora, e quando voltei ao hospital, à tarde, já estava me sentindo ótimo (incidentalmente, ir àquele hospital com hora marcada é bem diferente de ir ao atendimento de emergência; fui visto pela médica rapidinho depois que cheguei, não esperei nem 15 minutos). No dia seguinte já fui trabalhar. Estou tomando antibióticos até hoje, porque o tratamento precisa ir até o fim, mas não tive mais sintomas.

Bom, é isso. O atendimento público funcionou bem, apesar da longa demora na emergência (mas, admito, não era um caso de vida e morte — e aquele hospital não parece tratar de muitos casos assim). Todo o atendimento no hospital e no consultório foi gratuito (inclusive os remédios que me deram na hora), mas os remédios comprados em farmácia foram um pouco caros. Pelo menos estou recuperado. Espero levar mais uns 15 anos até precisar de antibióticos de novo. E tampouco quero voltar a um hospital em breve.

Acaso &Brasil 01 Aug 2006 15:07

Paga o justo…

…pelo pecador. Isso era o que costumava dizer uma professora minha, nos tempos de criança, quando ameaçava deixar a turma toda sem recreio porque um troglodita mirim havia, por exemplo, jogado futebol com a cestinha de lixo.

Sempre achei essa expressão um absurdo. Não lembro de alguma vez em que a professora tenha realmente cumprido a ameaça, mas isso não vem ao caso: a própria existência da ameaça é um absurdo. Afinal, se o justo (no sentido de “correto”) pode ser punido tanto quanto o infrator, qual é o incentivo para ser correto? É possível até argumentar que o infrator é menos punido do que os outros alunos; afinal, o pequeno australopiteco de uniforme teve seu divertimento chutando o lixo, para ele não faz mais diferença ficar sem recreio. Eu, que queria ir à biblioteca, é que sofro. Por exemplo.

E, também, me pergunto qual o objetivo da professora com uma punição generalizada. Se ela não soubesse quem era o infrator, o gesto poderia ser visto como uma tentativa de fazer com que alguém o delatasse. Mas é óbvio que isso não iria funcionar: o nosso Moe tem a capacidade de aplicar uma punição muito pior, e muito mais longa, do que um recreio perdido. Ele não é restrito pelas leis que controlam o comportamento dos professores, nem tem (ou sente) algum dever de zelar pelo bem estar dos seus colegas mais evoluídos.

E se ela soubesse quem era o infrator (como costumeiramente era o caso), a situação seria ainda mais imperdoável. A única possível explicação é que ela esperaria que os inocentes sendo punidos se sentiriam compelidos a evitar futuros incidentes causados pelo menino das cavernas, o que é claramente impossível (ver parágrafo acima).

Na verdade, uma punição no estilo “justo pelo pecador” é sintoma de preguiça. É mais fácil aplicar uma punição que engloba todo mundo, com a certeza de que quem causou o problema entra junto (mesmo que os inocentes sofram mais do que os culpados), do que se esforçar para punir apenas quem merece ou, melhor ainda, evitar que o problema aconteça. Mas a professora, depois de anos lidando com as mesmas situações, se cansa e vai pelo caminho mais fácil. Compreensível, até. Exceto para o aluno que não fez nada e fica ali na sala de aula ouvindo o resto da escola se divertir.

Tudo isso para falar dos eventos do Gre-Nal e da idéia de punir o Grêmio pelos atos da torcida. Falou-se, logo após o jogo, até em punições “exemplares”, como por exemplo suspender o time do campeonato. O resultado? Punir-se-ia quem não teve nada a ver com a história.

Certo, presumivelmente uma punição ao time afeta também os torcedores que causaram o problema. Afinal, um bom gremista não quer ver o time perdendo mando de campo, ou pontos, ou dinheiro (se tiver que jogar sem torcida). Mas a questão é que existem muito mais gremistas que também são punidos “no embalo” e que nunca na vida cogitaram colocar fogo em um banheiro químico (ou, mesmo, nunca cogitaram entrar no Beira Rio). Também são punidos junto os jogadores, os funcionários (um time sem dinheiro não paga salários), os concessionários do Estádio Olímpico e assim por diante. Nenhum dos quais teve nada a ver com o evento, nem tem como evitar o ocorrido ou auxiliar na punição das pessoas corretas. Como os alunos lá de cima, o seu único erro foi fazer parte do mesmo grupo que alguns trogloditas.

Mais ainda: se for comum que os atos da torcida gerem punições sérias para o seu time, isso passa a ser interessante para os membros da torcida oposta. Afinal, quem garante que as pessoas com camiseta do Grêmio tentando derrubar as cercas do Beira Rio eram, realmente, gremistas? Poderiam ser colorados fazendo o papel de agent provocateur para tentar gerar uma punição para o rival. Não, não acho que foi isso que aconteceu nesse caso em particular. Mas não demoraria para alguém perceber as possibilidades. Se o ganho possível é a desclassificação ou rebaixamento do rival, vale a pena.

Sim, eu sei que o hábito de punir o time existe há tempos e não é coisa só do Brasil. Torcedor invade o campo? Pune-se o time; o torcedor fica na boa. Torcedor xinga adversário, derruba cerca, atira pedra no juiz? Pune-se o time. E assim por diante. Não é porque é algo “comum” que é algo certo. Incidentalmente, eventos muito mais graves já ocorreram sem se cogitar “punições exemplares” para o time, para usar a expressão da CBF. Já mataram torcedores em estádios ou na saída destes, por exemplo, sem gerar todo esse barulho.

Lógico que o que aconteceu no estádio merece punição. As pessoas que colocaram fogo nos banheiros, jogaram pedras nos bombeiros, tentaram derrubar cercas ou, de maneira geral, causaram prejuízos ou agrediram alguém merecem ser punidas. E não só “futebolisticamente”; afinal, estádios não são território da FIFA (mas bem que a FIFA gostaria…), as leis do país continuam valendo. Já se vê o MP e a polícia se encaminhando para isso, o que é bom.

Mas há que haver uma punição esportiva também, como a usada contra hooligans na Europa. Basicamente, quem faz uma coisa dessas nunca mais pode entrar em um estádio de futebol. Nem no do São José. Nem para ver a chegada do Papai Noel. Aliás, não deveria nem poder assinar o pay-per-view ou ir a botecos que estivessem exibindo as partidas. Sim, eu sei que hoje em dia isso é impraticável; a segurança nos estádios, dentro e na entrada, é risível. Mas essa é a solução certa. Enquanto se procurar a solução preguiçosa, a mais fácil, o problema vai continuar e piorar (e, sim, jogos com uma torcida só também são uma solução preguiçosa).