Monthly ArchiveApril 2006



Pessoal 14 Apr 2006 21:33

Em férias

Estou em férias; este blog provavelmente não vai ser atualizado pelos próximos 30 e poucos dias. Para quem estiver vendo esta mensagem no site, o mapinha aqui à direita vai mostrar a minha localização durante a viagem.

Atualização 19/05: estou de volta, e o mapa saiu.

Acaso &Brasil 10 Apr 2006 13:57

Centros

Vi que a Zero Hora está publicando uma série de reportagens sobre a deterioração do centro de Porto Alegre. Segundo a matéria de domingo, a população do centro caiu de 49.000 em 1980 para 34.000 hoje, o que é uma perda de mais de 30% em um período em que a população da cidade aumentou em 26%. A reportagem cita alguns motivos, e dá o exemplo da transformação da Salgado Filho de “rua chique” em rodoviária a céu aberto, com inúmeros terminais de ônibus urbanos tornando o ambiente um inferno. O efeito é uma debandada da população para bairros mais distantes e a desvalorização dos imóveis existentes; quem ainda tem, não consegue mais vender nem alugar (20% dos imóveis disponíveis para aluguel em Porto Alegre ficam no centro).

Em morei no centro de Porto Alegre por vários anos, até 2004, e hoje moro no centro de Melbourne, e o interessante é que aqui está acontecendo, mais ou menos no mesmo período, exatamente o oposto de Porto Alegre. A população do centro de Melbourne subiu de menos de 1.000 em 1990 para 11.200 em 2005 (62% são estrangeiros); incluindo os bairros próximos, que compõem a City of Melbourne, o aumento foi de 39.000 em 1996 para 65.000 agora. O aumento da população é gerado principalmente por jovens e profissionais liberais, que são exatamente as categorias que mais rapidamente estão sumindo do centro de Porto Alegre (20% dos habitantes que sobraram tem mais de 60 anos; a média da cidade é 12%).

Como é que o centro de Melbourne se recuperou? Um pouco foi um efeito da própria desvalorização dos imóveis causada pelo “esvaziamento” dos anos anteriores; imóveis baratos atrairam estudantes e jovens, e com eles comércio, bares, cafés etc. Há duas universidades grandes próximas do centro (como a UFRGS em Porto Alegre), o que faz com que seja uma localização ótima para os estudantes que vêm do exterior.

Mas também houve ação do governo municipal e estadual: um programa iniciado em 1992 trouxe melhor policiamento, criação de espaços públicos, parques e instalações culturais (como a Federation Square, que antes era um parque de manobras ferroviário), recuperação de ruas e calçadas, incentivos para construtores e até a criação de novas áreas residenciais (o bairro de Docklands era uma área portuária desativada e decadente, hoje tem vários prédios com apartamentos caríssimos; qualquer semelhança com o porto do Guaíba é mera coincidência). Até marketing foi feito, incentivando as pessoas a vir para o centro e conhecer os prédios sendo construídos.

E deu certo; o centro de Melbourne hoje é citado mundialmente como um exemplo de programa de revitalização que deu certo. Se tornou uma área “cool”, e até um pouco cara para os moradores. O que cria certos problemas, claro: pequenas empresas começam a ter problemas por causa de aluguéis caros, moradores começam a reclamar do barulho causado pelo aumento da população e do movimento etc. Mas, em geral, continua sendo bem melhor do que um centro que vira um “deserto” à noite.

Isso pode servir de lição para Porto Alegre? Eu acredito que sim, mas exige uma certa boa vontade do governo. O problema do centro, hoje, é que não é um lugar agradável para se viver, em poucas palavras. É barulhento, pouco seguro, sujo, tomado por camelôs e ônibus (bom, já era assim quando saí, em 2004; imagino que hoje não tenha mudado muito para melhor). Não há muitas áreas verdes, não há prédios novos, não há (muito) comércio de qualidade, quase não há cinemas etc. etc. Isso não vai mudar sem ação do governo. Notem que já há algo bom acontecendo, que é a queda significativa dos preços de imóveis (para aluguel e aquisição), o que atua como um atrativo para pequenas empresas, profissionais liberais e jovens em geral e pode começar a fazer o centro “respirar” um pouco. A questão, como sempre, vai ser dinheiro e vontade política.

P.S.: E viva o Grêmio!

Acaso &Brasil 07 Apr 2006 22:48

O astronauta brasileiro

Pelo que estou vendo, parece que o assunto foi bem comentado nos EUA. Virou até piada no The Onion.

Agora é só esperar para ver quem vai reclamar dos estereótipos…

Cultura 04 Apr 2006 23:22

V for Vendetta

Hoje fui ao cinema assistir “V for Vendetta” (“V de Vingança” em português); terça-feira é o dia do ingresso barato aqui. Filme excelente; recomendo, especialmente aos ocasionais leitores que estejam nos EUA.

A história de Guy Fawkes, inspiração do personagem principal do filme, não é muito conhecida no Brasil. Ele foi um soldado inglês, católico, que (junto com vários outros conspiradores) pretendia destruir o prédio do Parlamento britânico em revolta contra o governo protestante da época; ele foi preso em 5 de novembro de 1605 e enforcado alguns meses depois. Essa história é contada rapidamente no início do filme; a noite de 5 de novembro é comemorada até hoje na Inglaterra com fogos, fogueiras e com a destruição de bonecos de Guy Fawkes (mal comparando, mais ou menos como a nossa “malhação do Judas”).

O filme se passa na Inglaterra em um futuro não muito distante (na década de 2020), onde um governo absolutista controlado por um ditador e um pequeno grupo de conselheiros domina a população, as empresas e a imprensa; o personagem principal, V, usa uma máscara de Guy Fawkes o tempo todo e pretende fazer o que o Guy original não conseguiu.

Antes de ver o filme, eu li a crítica da Veja sobre ele; está online, mas só para assinantes ou para quem comprou a revista (para quem não comprou, o código esta semana é “RIO BRANCO”). Uma coisa precisa ser dita: Isabela Boscov, que é a jornalista que escreveu a crítica, não viu o filme; ou, se viu, não entendeu. (quem não viu o filme pode não querer ler o texto abaixo)

Ela tem razão em um monte de coisas que escreveu no texto. A visão do sistema capitalista que é mostrada em filmes e livros, geralmente, é muito distorcida e tenta passar a idéia de que esse é um sistema que não funciona, ou que funciona à base de corrupção, ou que é responsável por todos os males do mundo. Ela inclusive menciona outros exemplos, como “Wall Street” e até “O Jardineiro Fiel”. Mas “V for Vendetta” é um filme completamente diferente.

O ponto do texto dela onde fica mais clara a falta de entendimento é aqui:

Quatrocentos anos atrás, o edifício do Parlamento era um símbolo do absolutismo. Hoje, ao contrário, ele representa outro tipo de “sistema” – o constitucionalismo, e numa de suas versões mais bem-sucedidas.

Verdade. Tudo verdade. Mas o filme não se passa hoje; no filme, o Parlamento representa um governo completamente absolutista, e a destruição do prédio simboliza a esperança do país e o fim da passividade condenada pelo próprio V no seu discurso (“quem procura os culpados pelo país que temos hoje não precisa fazer nada além de olhar no espelho”). O filme não sugere que o sistema atual seja absolutista, ou que seja válido destruir o prédio de um parlamento legitimamente eleito e democrático. O filme, ao invés, é um aviso; ele nos diz “esse é o ponto a que pode chegar um governo com muita autoridade”. Existem dois tipos de ficção futurista: um tenta prever como vai ser o futuro, outro tenta evitar um futuro possível; este filme é do segundo tipo.

A jornalista optou por ignorar os paralelos entre o governo absolutista do filme e alguns atos dos governos democráticos de hoje em dia; não só o britânico, que é o retratado no filme, como também (principalmente) o americano e até o brasileiro e o australiano: sob a desculpa de “nos proteger”, os governos ampliam seu poder de intervenção na vida dos seus cidadão graças ao medo de um inimigo comum (terrorismo, epidemias, FMI, inflação…), medo este incitado (em parte) pelo próprio governo. Liberdades são lentamente corroídas por causa, por exemplo, de uma “guerra contra o terror”, sem se levar em conta o fato de que a corrosão da liberdade do cidadão comum não aumenta a segurança de ninguém; só o que aumenta é o poder do governo. O que o filme nos mostra é até onde isso pode ir.

Verdade, Guy Fawkes não é exatamente uma figura simpática, e seria menos ainda se tivesse conseguido o seu objetivo. Mas a mensagem do filme pode ser resumida ao “sound bite” mais interessante do trailer e, talvez, do filme: “people shouldn’t be afraid of their governments; governments should be afraid of their people” (traduzindo livremente, “cidadãos não deveriam ter medo dos seus governos; governos deveriam ter medo dos seus cidadãos”). Ou seja, quem manda no governo é o povo, e não vice-versa. A mensagem do filme não é contra o sistema atual, ou contra um sistema democrático e de liberdades e direitos individuais; o filme está justamente defendendo este sistema.

Sugiro fortemente que a jornalista veja o filme de novo. É impossível achar que atacar o governo exibido no filme é atacar o capitalismo e a democracia.