Acaso & Brasil 10 Apr 2006 13:57

Centros

Vi que a Zero Hora está publicando uma série de reportagens sobre a deterioração do centro de Porto Alegre. Segundo a matéria de domingo, a população do centro caiu de 49.000 em 1980 para 34.000 hoje, o que é uma perda de mais de 30% em um período em que a população da cidade aumentou em 26%. A reportagem cita alguns motivos, e dá o exemplo da transformação da Salgado Filho de “rua chique” em rodoviária a céu aberto, com inúmeros terminais de ônibus urbanos tornando o ambiente um inferno. O efeito é uma debandada da população para bairros mais distantes e a desvalorização dos imóveis existentes; quem ainda tem, não consegue mais vender nem alugar (20% dos imóveis disponíveis para aluguel em Porto Alegre ficam no centro).

Em morei no centro de Porto Alegre por vários anos, até 2004, e hoje moro no centro de Melbourne, e o interessante é que aqui está acontecendo, mais ou menos no mesmo período, exatamente o oposto de Porto Alegre. A população do centro de Melbourne subiu de menos de 1.000 em 1990 para 11.200 em 2005 (62% são estrangeiros); incluindo os bairros próximos, que compõem a City of Melbourne, o aumento foi de 39.000 em 1996 para 65.000 agora. O aumento da população é gerado principalmente por jovens e profissionais liberais, que são exatamente as categorias que mais rapidamente estão sumindo do centro de Porto Alegre (20% dos habitantes que sobraram tem mais de 60 anos; a média da cidade é 12%).

Como é que o centro de Melbourne se recuperou? Um pouco foi um efeito da própria desvalorização dos imóveis causada pelo “esvaziamento” dos anos anteriores; imóveis baratos atrairam estudantes e jovens, e com eles comércio, bares, cafés etc. Há duas universidades grandes próximas do centro (como a UFRGS em Porto Alegre), o que faz com que seja uma localização ótima para os estudantes que vêm do exterior.

Mas também houve ação do governo municipal e estadual: um programa iniciado em 1992 trouxe melhor policiamento, criação de espaços públicos, parques e instalações culturais (como a Federation Square, que antes era um parque de manobras ferroviário), recuperação de ruas e calçadas, incentivos para construtores e até a criação de novas áreas residenciais (o bairro de Docklands era uma área portuária desativada e decadente, hoje tem vários prédios com apartamentos caríssimos; qualquer semelhança com o porto do Guaíba é mera coincidência). Até marketing foi feito, incentivando as pessoas a vir para o centro e conhecer os prédios sendo construídos.

E deu certo; o centro de Melbourne hoje é citado mundialmente como um exemplo de programa de revitalização que deu certo. Se tornou uma área “cool”, e até um pouco cara para os moradores. O que cria certos problemas, claro: pequenas empresas começam a ter problemas por causa de aluguéis caros, moradores começam a reclamar do barulho causado pelo aumento da população e do movimento etc. Mas, em geral, continua sendo bem melhor do que um centro que vira um “deserto” à noite.

Isso pode servir de lição para Porto Alegre? Eu acredito que sim, mas exige uma certa boa vontade do governo. O problema do centro, hoje, é que não é um lugar agradável para se viver, em poucas palavras. É barulhento, pouco seguro, sujo, tomado por camelôs e ônibus (bom, já era assim quando saí, em 2004; imagino que hoje não tenha mudado muito para melhor). Não há muitas áreas verdes, não há prédios novos, não há (muito) comércio de qualidade, quase não há cinemas etc. etc. Isso não vai mudar sem ação do governo. Notem que já há algo bom acontecendo, que é a queda significativa dos preços de imóveis (para aluguel e aquisição), o que atua como um atrativo para pequenas empresas, profissionais liberais e jovens em geral e pode começar a fazer o centro “respirar” um pouco. A questão, como sempre, vai ser dinheiro e vontade política.

P.S.: E viva o Grêmio!

One Response to “Centros”

  1. on 11 Apr 2006 at 03:08:40 1.Tales said …

    Os vídeos estão no site do clicrbs, Wilson