Monthly ArchiveDecember 2005



Acaso &Austrália 30 Dec 2005 14:28

Previsão do tempo

Melbourne, hoje: mínima 18, máxima 37. Amanhã, mínima 19, máxima 42.
Hobart, hoje: mínima 13, máxima 26. Amanhã: mínima 14, máxima 21.

Acho que vou me mudar para a Tasmânia…

Austrália &Pessoal 29 Dec 2005 19:09

Vale a pena viver na Austrália?

Essa é uma pergunta que aparece com freqüência; alguns questionam diretamente, outros deixam a pergunta “no ar”. Quem pergunta porque gostaria de vivenciar essa experiência naturalmente espera/torce por um “sim”, ainda melhor se for seguido por argumentos favoráveis e uma bela dose de incentivo. Outros podem argumentar: “isso é pergunta que se faça? É claro que a resposta é ‘sim’!”

Mas essa não é uma pergunta para a qual eu possa responder simplesmente “sim”. É um passo bastante importante que precisa ser muito bem pensado. Cada caso é um caso, é impossível dizer “vem que vale a pena”; seria muita irresponsabilidade dar um conselho assim.

A Austrália é um bom lugar para morar; é um país de primeiro mundo, mas lógico que isso não quer dizer que é um paraíso. Muitas coisas que a gente acha que “só tem no Brasil” existem em qualquer lugar: serviços mal prestados, médicos ruins, sujeira na rua etc. É diferente do Brasil porque aqui o mais normal é as coisas funcionarem como deveriam, mas não é um lugar sem defeitos. Os grandes fatores positivos que pesaram na decisão foram estabilidade (econômica, política e social) e segurança; são coisas em que o Brasil ainda deixa muito a desejar e que, ao menos para mim, afetam muito a qualidade de vida.

O clima não é muito diferente do de Porto Alegre (invernos friozinhos, verões bem quentes), só talvez menos úmido, ao menos aqui em Melbourne. A cultura, claro, é completamente diferente; em Sydney há mais brasileiros e, imagino, dá para se integrar com uma cultura mais familiar, mas em Melbourne são muito poucos. É uma mistura de povos, raças e línguas com a qual não estamos acostumados.

O que vai fazer mais diferença de pessoa para pessoa é a questão de sentir falta da família e dos amigos. Eu já morava longe dos meus pais e sem parentes por perto desde os 18 anos, então já estava acostumado a uma certa distância; acho que isso facilita bastante. Também já havia morado no exterior por algum tempo, o que ajuda não só na questão distância, mas também na questão de não esperar maravilhas. Para quem é mais próximo da família, com certeza vai ser mais difícil: aqui é muito longe, fica economicamente inviável visitar com freqüência (mesmo uma vez por ano pode ficar caro demais). Quem é muito chegado em feijoada, churrasco e pão de queijo (para não falar de chimarrão) também vai acabar sentindo um pouco mais (apesar de que tem erva-mate argentina à venda aqui).

No fim, o que dá para dizer é que depende de cada situação, de cada pessoa e personalidade. Tem que pesar os prós e contras pessoais e decidir com base nisso. O mais difícil, especialmente para quem nunca morou fora, é ter uma expectativa realista do que encontrar na vida em país de primeiro mundo. Por exemplo, quem acha que basta ganhar em dólares para comprar tudo está muito enganado, pois o Primeiro Mundo é uma grande classe média.

São muitas variáveis para serem consideradas antes da decisão, como carreira (dependendo da profissão ou do nível de estudo, é preciso voltar a estudar e obter certificações que já foram conseguidas no Brasil), vida pessoal (ter paciência e dedicação para fazer novas amizades, e agüentar a saudade dos amigos e da família) e detalhes do dia-a-dia, que exigem esforço para aprender como “funciona” o novo país.

Em resumo, para mim, está sendo “sim”. Para você, para outros, para quem seja? Cada cabeça uma resposta.

Acaso &Austrália 29 Dec 2005 19:01

Comentário casual de verão

Não existe uma maneira máscula de afastar moscas do rosto quando se está andando na rua.

Austrália 15 Dec 2005 14:06

Violência em Sydney

A essa altura, todo mundo deve estar a par dos incidentes de violência e racismo ocorridos em Sydney nos últimos dias (quem não viu pode ver na Folha de São Paulo aqui, aqui e aqui). Até onde sei, a história começou porque uma gang de (supostos) imigrantes libaneses agrediu dois salva-vidas em uma praia de Sydney (Cronulla Beach; fica a uns 50km do centro da cidade); na semana seguinte um grupo grande de australianos se reuniu no local para protestar contra a “invasão” de libaneses, chineses e negros no “seu” país. Levavam bandeiras australianas e cartazes com slogans racistas. Com o calor e o consumo liberal de cerveja a situação começou a sair de controle, até chegar ao ponto em que qualquer pessoa de aparência não européia que passasse na área corria o risco sério de ser agredida fisicamente (como várias, de fato, foram).

A confusão acabou, naquele dia, com algumas pessoas feridas (quase todas vindas do Oriente Médio), muitos danos a carros e estabelecimentos comerciais e vários presos. Na noite seguinte, no entanto, os libaneses decidiram contra-atacar e agiram mais ou menos da mesma forma indiscriminada, agredindo pessoas de aparência européia, jogando pedras em casas e danificando dezenas de carros estacionados na rua. De novo, vários feridos e vários presos de ambos os lados.

Nas noites seguintes (terça e quarta) a grande presença policial e algumas atitudes drásticas (como impedir a entrada de pessoas de origem árabe/libanesa nas áreas problemáticas) parece ter sido o suficiente para controlar a crise.

No Brasil sempre ressaltamos o sucesso do processo imigratório. Mas estamos falando de um longo período, anos e anos de integração. Como o Brasil, a Austrália também se orgulha desse êxito, mas o país tem recebido muitos imigrantes e exilados nos últimos anos – até um antigo guarda de Saddam Hussein veio parar aqui. Ou seja, a leva de estrangeiros não estabilizou como no Brasil. Eu mesmo escrevi um pouco sobre esse processo há algum tempo.

Além disso, a Austrália, por muito tempo, limitou a entrada de imigrantes apenas a europeus brancos. Não eram aceitas pessoas de outras origens ou etnias, e mesmo europeus de áreas menos “nobres” (como o leste ou a Grécia) não eram bem quistos (exceções eram feitas para pessoas de outros países da comunidade britânica, como a Índia). A situação começou a mudar em 1950 e só encerrou em definitivo em meados dos anos 70. Ou seja, o grande fluxo de imigrantes não-europeus é recente: a maior parte da população australiana é de ascendência européia, e apenas agora está tendo de conviver com comunidades de outras origens. Essa mistura recente e o grande número de imigrantes com feições “diferentes” têm grande culpa na tensão como a existente em Sydney (lembro que o país tem acolhido uma quantidade crescente de africanos, até pouco tempo raros por aqui).

Ainda assim, não dá para usar esses eventos como uma indicação de que a Austrália seja um país racista, até porque o número de pessoas envolvidas é relativamente pequeno (e menos ainda tomaram parte na violência); a maior parte dos envolvidos sequer eram moradores da área do conflito. Mas a história recente do país faz com que haja uma certa tensão que sempre corre o risco de gerar eventos como os de Sydney.

O interessante é que é uma situação na qual é impossível tomar partido de algum dos lados envolvidos: todo mundo está errado. Aquela área de Sydney tem um problema crônico com gangs de libaneses (imigrantes e filhos de imigrantes) que foi o estopim da crise; esse problema tem que ser combatido, e os membros das gangs merecem ser perseguidos e rejeitados pelos moradores, mas porque são criminosos; não porque são libaneses. Similarmente, os racistas que incendiaram os protestos de domingo passado merecem ir presos e, similarmente, serem rejeitados por australianos e imigrantes, mas por serem racistas violentos; não por serem australianos brancos. Quando alguns australianos atacam libaneses por serem libaneses, e alguns desses revidam contra australianos por serem australianos, todo mundo está errado e a polícia (e a sociedade como um todo) tem que agir com a mesma força contra os dois lados.

Austrália 12 Dec 2005 16:11

Dandenongs

Domingo passado (dia 4) fui caminhar nas Dandenong Ranges, um parque nacional que inclui o Monte Dandenong, que é o ponto mais alto de Melbourne (633 metros). O parque fica a pouco mais de uma hora do centro da cidade, de trem, e ocupa uma área enorme: mais de 32 km2 com mais de 300 km de trilhas para caminhadas.

Chega-se lá idealmente de carro, mas também dá para ir de trem: a estação mais próxima é Upper Ferntree Gully, e ligando a estação ao parque há uma trilha de mais um menos 1 km. Os arredores são parecidos com uma cidade do interior, com casas bem esparsas e muita vegetação (uma das casas tinha cabras pastando nos fundos).

Dandenong Ranges - Thousand StepsLogo na entrada do parque há um grande espaço para piqueniques, com churrasqueiras, áreas cobertas e grandes gramados. A área é bem inclinada, e se entra no parque por um dos pontos mais baixos, então todas as trilhas vão para cima. Como eu realmente não tinha um destino certo (apenas o objetivo de não me perder no mato), simplesmente segui o caminho aparentemente mais popular, que calhou de ser uma trilha chamada Kokoda Track. Ela tem esse nome porque é uma homenagem a um evento da Segunda Guerra Mundial em que soldados australianos e americanos atravessaram Papua Nova Guiné por uma trilha de cerca de 100 km, a Kokoda Trail.

A trilha que existe no parque é bem mais curta, claro: tem pouco mais de 1 km, quase tudo morro acima. Depois de uma caminhada de uns meros 100 metros eu cheguei a uma parte da trilha chamada “Os 1000 Degraus” que, previsivelmente, é uma grande escadaria subindo o morro.

Comecei a subir os degraus, mas não fui até o topo: cheguei mais ou menos à metade e voltei. Depois me restringi a caminhadas por trilhas um pouco mais planas (e largas; os degraus são estreitos e cercados por vegetação alta). Não vi nenhum exemplar muito chamativo da fauna local, só cacatuas (muito barulhentas) e uma lagartixa. Ouvi, ao longe, uma kookaburra, um pássaro nativo que faz um som que lembra uma gargalhada. Ah, e insetos, muitos insetos. Muitos mesmo.

E, depois de um bom tempo caminhando, voltei para casa. Na próxima vez que eu voltar lá, preciso ir mais preparado: com comida, água e mais tempo (e não pode ser em um dia muito quente).

Para quem estiver interessado, as fotos estão no Flickr.

Brasil 06 Dec 2005 16:43

Final do campeonato

O controverso final do campeonato brasileiro repercutiu na imprensa aqui também… foi notícia no jornal, no programa esportivo da SBS de ontem à noite (que mostrou os gols dos jogos do Corinthians e do Inter) e está em destaque no site da SBS:

Outra bagunça no Brasil

O futebol brasileiro voltou aos velhos tempos neste fim de semana, quando Corinthians e Internacional fizeram uma volta olímpica depois de seus respectivos jogos e se declararam ganhadores do campeonato nacional.

O resto do (longo) artigo descreve toda a confusão do campeonato deste ano e ainda relembra outros anos complicados: 1987, com a Copa União; 1996, com a virada de mesa do Fluminense; 1999/2000, com a Copa João Havelange, inventada por causa do Brasiliense Gama e que também acabou em confusão; e alguns outros que eu nem lembrava.

Opinião rápida: quem não esperava confusão no fim do campeonato, depois do caso dos 11 jogos anulados, estava sendo inocente… só podia dar no que deu.