Austrália 20 Nov 2005 19:09

Protestos em Melbourne

Além da festa pela classificação para a Copa, outro evento levou milhares de pessoas às ruas de Melbourne na semana passada: os protestos contra as reformas nas leis trabalhistas.

As reformas propostas pelo governo têm a intenção de simplificar a legislação trabalhista e reduzir as obrigações de muitos empregadores, principalmente pequenas e médias empresas. Os sindicatos, previsivelmente, são totalmente opostos às mudanças e convocaram um dia nacional de protestos em 15 de novembro.

Aqui em Melbourne cerca de 100 mil pessoas se reuniram na Federation Square, no centro da cidade, e fizeram uma marcha de quase 3 quilômetros até o parque de Carlton Gardens. O tráfego de veículos e bondes no centro foi quase completamente interrompido (as empresas de transporte público decidiram substituir os bondes por ônibus, que fizeram trajetos alternativos). Outras cidades tiveram eventos similares, e participantes se comunicaram por meio de telões localizados nos principais locais de concentração e conectados via satélite.

Os protestos são surpreendentemente “ordeiros”, ao menos do ponto de vista de quem está acostumado a passeatas de protesto brasileiras. Indo para a universidade passei pelo meio de uma concentração de trabalhadores em frente à sede de um sindicato. No local havia um caminhão com um “palco” no meio da rua, muitas pessoas com bandeiras e outras distribuindo folhetos, policiais nos cruzamentos próximos desviando o tráfego e uma moça com uniforme do sindicato usando um megafone para pedir que os protestantes deixassem espaço para os pedestres na calçada.

Além dos protestos, os dois lados (governo e sindicatos) estão fazendo campanha na TV. O governo tentando mostrar que as mudanças vão fazer bem para a economia, e os sindicatos, que as novas leis vão tirar direitos dos trabalhadores. A vantagem do governo na discussão é ter maioria tanto no Parlamento quanto no Senado, ou seja, não depende da oposição para aprovar as leis, o que deve ocorrer nas próximas semanas.

Os dois lados provavelmente têm uma certa razão, mas, como é comum em debates desse tipo, as campanhas acabam sendo “emocionais” demais e sem muitas informações úteis. A oposição tem dito, em entrevistas, que o governo vai ser “punido” por essa “traição” aos trabalhadores nas próximas eleições, e que um governo da (atual) oposição iria reverter as mudanças assim que possível. O problema de chamá-las de “traição” é que as leis foram anunciadas na campanha para a última eleição (em 2004); ou seja, não se pode dizer que foram uma surpresa, nem sequer que os eleitores foram enganados.

As próximas eleições devem ser em 2007 (não há data pré-definida para elas), o que vai dar algum tempo para que as mudanças mostrem a que vieram. Se a economia australiana continuar forte até lá e o desemprego não aumentar significativamente, é muito pouco provável que o partido do governo perca nas urnas.

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