Monthly ArchiveJuly 2005



Austrália 30 Jul 2005 18:02

Onde tem futebol…

…tem brasileiro. Mesmo que seja um futebol um pouco diferente.

Um time de futebol australiano de Melbourne, Collingwood Magpies (mais ou menos o Corinthians daqui), contratou um jogador brasileiro: Harry O’Brien (sim, nome tipicamente brasileiro), de 18 anos. Ele emigrou para Perth (capital do Estado de Western Australia, do outro lado do país) com a família, quando tinha 3 anos, vindo do Rio de Janeiro. O nome verdadeiro não é Harry: é Herritier. Não faço idéia da origem desse nome.

Harry estréia amanhã (domingo) em um jogo contra o Fremantle Dockers, que por coincidência é de Perth. A imprensa está divulgando que ele é o primeiro jogador sul-americano na liga profissional de futebol australiano, o que não me parece nada surpreendente.

Infelizmente para Harry, o time está em 14o. lugar (entre 16 times) e, com cinco rodadas para o fim do campeonato, não tem praticamente nenhuma chance de chegar às finais (classificam-se oito). Quem sabe ano que vem…

Austrália 24 Jul 2005 16:47

Multiculturalismo de novo

Um médico de Porto Alegre chamado Marcelo, que mora em Toronto, publica um blog chamado A Sopa no Exílio. Não conheço o Marcelo, mas de vez em quando leio o que ele escreve, e freqüentemente são coisas interessantes.

Em um artigo recente, ele escreve sobre multiculturalismo no Canadá. A experiência dele é que, em vez de uma integração de culturas, o que existe é um monte de comunidades semi-isoladas que só por acaso estão em outro país. Ou seja, em Toronto há um mini Portugal, uma mini Grécia e assim por diante, e os imigrantes (e mesmo filhos e netos de imigrantes) não se integram ao seu novo país.

Isso é bastante similar ao que vejo em Melbourne. Existe uma comunidade grega com as suas lojas, seus restaurantes, seu bairro… idem para libaneses, sudaneses, vietnamitas, judeus etc. As pessoas não se “misturam” ao país, continuam com a sua cultura, os seus costumes, a sua língua e formam o seu país aqui dentro, onde só se relacionam com quem vem do mesmo lugar. E, ao redor de tudo, existe uma Austrália “de verdade” feita quase somente de descendentes de europeus, principalmente britânicos.

Até certo ponto isso não é ruim. Lógico que mudar de país não significa abandonar toda a sua cultura e se transformar em australiano de uma hora para a outra; é bom que os costumes “originais” continuem existindo, que a língua do país de origem seja passada de pais para filhos, que a comida em casa continue com o sabor original… a gente tem isso no Brasil também.

Mas isso cria problemas bem óbvios. Um deles: o que acontece com a cultura do país que recebe os imigrantes? Se a Austrália acaba se tornando um “amontoado” de comunidades étnicas semi-isoladas, qual é a cultura australiana? Faz sentido falar em uma cultura australiana nesse contexto? Ao trazer os seus costumes e ignorar a cultura local, os imigrantes não estão fazendo o mesmo que os colonizadores de séculos atrás?

Ainda esta semana um programa de TV apresentou uma entrevista com um professor da Universidade de Sydney Macquarie University, em Sydney, defensor de um limite na imigração de africanos e asiáticos. Um de seus argumentos é justamente a defesa da cultura e do “way of life” australiano. Outros argumentos eram ao menos um pouco racistas, o que tira muito sua credibilidade, mas na parte sobre a cultura eu acredito que ele tenha uma certa razão.

O outro problema vem do fato de que existem vários grupos de imigrantes, e em alguns casos há rivalidades históricas entre eles. Não como entre brasileiros e argentinos, mas como entre sérvios e croatas. E como eles formam seus mini países aqui, as rivalidades continuam e acabam por irromper quando as comunidades entram em contato (por exemplo, em jogos de futebol).

Além disso, a falta de integração acaba por ser quase um círculo vicioso: imigrantes ficam apenas nos seus grupos, e acabam sendo vistos como isolados ou “estranhos” pelos locais, o que leva a discriminação, o que leva a mais isolamento e assim por diante. O que acaba por levar, no extremo, a eventos como o de Londres, em que pessoas que vivem em uma sociedade ocidental não se sentem parte dela, mas sim como inimigos.

A minha opinião é que quem vai para um país diferente do seu precisa se integrar com a sociedade na qual está entrando: falar o idioma, participar de eventos, interagir com locais e imigrantes de outras nacionalidades. Isso não quer dizer jogar fora a sua cultura, mas é possível chegar a um meio termo. Quem emigra está indo atrás do que esse país oferece, e isso inclui sua cultura e seus costumes; na verdade, o que o país oferece é um resultado dessa cultura. Isolar-se dentro da própria comunidade não é bom nem para o imigrante, nem para os descendentes, nem para o país que os recebe.

Austrália 06 Jul 2005 16:55

Longe demais das capitais

No Rio Grande do Sul uma das características da mídia local é chamar a atençãoo para tudo que é gaúcho. Quem sempre morou no RS nem percebe, mas quem vem dos “grandes centros” (São Paulo, Rio de Janeiro) acha muito estranho.

Um bom exemplo foi quando, algumas semanas atrás, a Airbus apresentou o novo Airbus A-380 (o “avião gigante”). A manchete da “Zero Hora” era “O pedaço gaúcho do superavião”, ou algo similar, e o foco era em uma empresa de Gravataí (acho) que produz uma peça usada na aeronave.

Mas não é difícil achar outros exemplos, especialmente quando algum gaúcho vira notícia no resto do país ou do mundo; quando Dom Cláudio estava cotado para ser o novo Papa, por exemplo, era sempre “o cardeal gaúcho”…

Chamo isso, sem a menor pretensão de originalidade, de “síndrome longe-demais-das-capitais”. Quem está fora dos grandes centros (no caso do Brasil, o eixo Rio-São Paulo) tende a tentar chamar a atenção para os feitos locais. A mídia paulista raramente menciona que alguém famoso é paulista; a mídia gaúcha sempre menciona, mesmo que a ligação com o RS seja tênue (“o empresário X, que morou em Porto Alegre por dois anos quando criança…”).

O mais divertido é que, nesse aspecto, a Austrália é como uma versão maior do RS. No caso australiano, a “capital” são os EUA, e qualquer australiano fazendo sucesso é sempre apresentado como australiano. Mesmo quando não é. Russel Crowe é neo-zelandês, Nicole Kidman nasceu no Havaí, Mel Gibson também é americano…

Exemplo atual: na segunda-feira uma sonda da NASA foi jogada contra um cometa, para que no impacto se possa tentar descobrir do que é feito o seu núcleo (o do cometa, claro). A chamada do jornal local, “The Age”, foi “Sonda atinge cometa — time de cientistas australianos desempenha papel crucial na missão da NASA” (uma das estações de rastreamento fica em Canberra, e coincidentemente era a que estava virada para o cometa na hora do impacto).

Outro exemplo, do noticiário de ontem na TV: “várias celebridades chegaram hoje à Escócia para a reunião do G8, incluindo Bob Geldof, Richard Branson e a cantora australiana Natalie Imbruglia”. Logo depois, “Hillary Clinton se uniu ao nadador australiano Ian Thorpe em um evento apoiando Nova York como sede das Olimpíadas de 2012″.

O lado bom é que a gente fica sabendo quem é australiano (nem sempre são óbvios…), e também conhecemos feitos locais. Uma série de selos lançada pelo Australia Post exaltava invenções australianas, como exames de ultrasom, “cédulas de plástico”, técnica “canguru” para bebês prematuros e as “caixas-pretas” usadas em aviões.

Wi-fi, o sistema de conexão de rede sem fio para computadores, também é baseado em um sistema patenteado pelo CSIRO, que é mais ou menos o CNPq daqui.

Não acho que seja um comportamento particular dos gaúchos e dos australianos; pelo que lembro da minha estada no Canadá, lá acontece o mesmo, e provavelmente acontece na maior parte do mundo (inclusive no Brasil nos casos raros de brasileiros aparecendo em notícias internacionais). Mas certamente é algo interessante.

Austrália 04 Jul 2005 18:32

E sobraram oito…

Quando fizemos o nosso passeio pela Great Ocean Road, em março (sobre o qual eu escrevi muito resumidamente), eu tirei fotos de um lugar chamado Twelve Apostles (Doze Apóstolos), um conjunto de formações rochosas à beira-mar. Na legenda de uma das fotos, eu comentei que não eram doze, mas apenas nove.

Pois bem, agora são oito. Como aparece no “antes-e-depois” da foto ao lado, um deles caiu ontem pela manhã, e sobrou só um amontoado de pedras que vai ser logo espalhado pelas ondas. Os cientistas dizem que não sabem quanto tempo os outros oito ainda vão durar, então espera-se um aumento no número de turistas passando por lá nas próximas semanas.

Mas ninguém mais vai tirar fotos como as minhas :-)

Atualização: não fica muito claro nas fotos, mas aquele “apóstolo” que caiu tinha quase 50 metros de altura. A pilha de detritos que sobrou depois tem uns cinco metros.

Austrália 02 Jul 2005 19:22

Política

Aproveitando o clima de crise política que parece estar tomando o Brasil (ao menos é o que parece de longe), achei que seria bom escrever um pouco sobre o que anda acontecendo na política australiana. O interessante é que política, em qualquer lugar do mundo, sempre acaba causando escândalos, protestos, situações mal explicadas… O que mudam são os detalhes.

O assunto da semana são as mudanças propostas pelo governo para as leis trabalhistas (em inglês, “industrial relations laws”). O partido do governo, Liberal Party (mais ou menos o PSDB daqui), vem tentando aprovar essas mudanças há anos, sem sucesso; agora finalmente conseguiram maioria absoluta no Congresso e no Senado e já disseram que vão passar as leis tão rapidamente quanto possível (o novo Senado tomou posse ontem).

O principal partido de oposição, Labor Party (mais ou menos o PT daqui), é fortemente contra, mas não tem muito o que fazer além de convocar protestos de trabalhadores.

As mudanças mais controversas vão alterar a forma de determinação do salário mínimo e farão com que empresas pequenas e médias — até 100 empregados — tenham mais facilidade para demitir funcionários (as leis atuais limitam fortemente demissões sem justa causa; essas leis entraram em vigor quando o Labor Party estava no governo, há uns 15 anos).

Um grande protesto ocorreu na quinta-feira em Melbourne, com dezenas de milhares de trabalhadores fazendo uma passeata no centro em direção aos prédios do governo; ontem houve outro em Sydney.

Além disso, uma questão que vem provocando discussões e virou assunto para programas de TV são as leis de imigração, em particular o tratamento dado a refugiados e asilados políticos. Hoje, quem chega à Austrália sem documentos ou sem visto e pede refúgio é encaminhado a um centro de detenção de imigrantes e mantido ali até que o governo decida aceitar ou rejeitar o pedido.

Isso pode levar anos e, se o pedido for rejeitado, a pessoa é deportada para o seu suposto país de origem e recebe uma conta, que pode chegar a milhões de dólares, pela hospedagem e transporte (a conta vai ser cobrada apenas se ela algum dia voltar à Austrália). Se o pedido for aceito, claro, a pessoa é liberada e recebe alguma ajuda do governo para se estabelecer.

Os refugiados tendem a ser de lugares como Afeganistão, Iraque, vários países da África e, cada vez mais, China. Nesse caso, o problema é complicado pelo fato de o relacionamento comercial entre os países levar o governo australiano a querer ser “amigo” do chinês: há denúncias de oficiais chineses interrogando refugiados, o que é algo no mínimo estranho.

Isso se tornou ainda mais complicado algumas semanas atrás, quando um oficial diplomático chinês pediu asilo político na Austrália alegando que a China mantém uma rede de espiões aqui e rotineiramente seqüestra chineses politicamente “indesejáveis” e os leva de volta para a China (curiosamente, a mesma coisa parece ter acontecido com outro diplomata no Canadá há poucos dias). Isso tudo está com um ar de história mal contada.

Há muita pressão sobre o governo para que essa política (detenção indefinida de ilegais) seja encerrada, mas é uma situação complicada. Muitos supostos refugiados são imigrantes ilegais que chegam sem documentos para que sua origem não seja identificada; há “traficantes de pessoas”, similares aos “coiotes” mexicanos, que trazem imigrantes de barco da Indonésia e os instruem a jogar todos os documentos ao mar.

O governo sente que, se os pretensos refugiados forem libertados enquanto se investiga a sua situação, isso vai encorajar o tráfico de imigrantes ilegais. O que provavelmente é verdade.

E o escândalo mais recente foi a publicação de uma biografia do ex-líder da oposição Mark Latham. Ele abandonou o cargo após perder a eleição passada, alegando problemas de saúde (provavelmente é, ao menos em parte, verdade; ele passou dez dias no hospital).

No livro ele critica a estrutura do partido, chama alguns correligionários de idiotas (e coisas piores) e afirma que o partido não está em condições de ser governo. E esse é o cara que concorreu a Primeiro Ministro há seis meses!

Imagino que, se ele tivesse sido eleito, o livro não teria sido publicado, mas não sei se a doença teria ainda assim feito com que ele abandonasse a liderança do partido (e, por conseqüência, o cargo de Primeiro Ministro).

Não há Mensalão nem CPI dos Correios, mas o noticiário político é bastante divertido aqui também…

Pessoal 02 Jul 2005 15:17

Guga

Guga e a máquina de lavarEsse é o nome do gato que não tinha nome! Foi escolhido porque um dos seus brinquedos preferidos é uma bola de tênis, e porque ele adora assistir as notícias sobre o torneio de Wimbledon na TV (fica acompanhando com os olhos a bolinha ou os jogadores).

Na foto ao lado, outra das suas diversões: adora “assistir” a máquina de lavar roupas funcionando, e mesmo quando ela está parada (como nas fotos) ainda é muito interessante para ele! (clique na foto para uma versão maior)