Austrália 24 Jul 2005 16:47
Multiculturalismo de novo
Um médico de Porto Alegre chamado Marcelo, que mora em Toronto, publica um blog chamado A Sopa no Exílio. Não conheço o Marcelo, mas de vez em quando leio o que ele escreve, e freqüentemente são coisas interessantes.
Em um artigo recente, ele escreve sobre multiculturalismo no Canadá. A experiência dele é que, em vez de uma integração de culturas, o que existe é um monte de comunidades semi-isoladas que só por acaso estão em outro país. Ou seja, em Toronto há um mini Portugal, uma mini Grécia e assim por diante, e os imigrantes (e mesmo filhos e netos de imigrantes) não se integram ao seu novo país.
Isso é bastante similar ao que vejo em Melbourne. Existe uma comunidade grega com as suas lojas, seus restaurantes, seu bairro… idem para libaneses, sudaneses, vietnamitas, judeus etc. As pessoas não se “misturam” ao país, continuam com a sua cultura, os seus costumes, a sua língua e formam o seu país aqui dentro, onde só se relacionam com quem vem do mesmo lugar. E, ao redor de tudo, existe uma Austrália “de verdade” feita quase somente de descendentes de europeus, principalmente britânicos.
Até certo ponto isso não é ruim. Lógico que mudar de país não significa abandonar toda a sua cultura e se transformar em australiano de uma hora para a outra; é bom que os costumes “originais” continuem existindo, que a língua do país de origem seja passada de pais para filhos, que a comida em casa continue com o sabor original… a gente tem isso no Brasil também.
Mas isso cria problemas bem óbvios. Um deles: o que acontece com a cultura do país que recebe os imigrantes? Se a Austrália acaba se tornando um “amontoado” de comunidades étnicas semi-isoladas, qual é a cultura australiana? Faz sentido falar em uma cultura australiana nesse contexto? Ao trazer os seus costumes e ignorar a cultura local, os imigrantes não estão fazendo o mesmo que os colonizadores de séculos atrás?
Ainda esta semana um programa de TV apresentou uma entrevista com um professor da Universidade de Sydney Macquarie University, em Sydney, defensor de um limite na imigração de africanos e asiáticos. Um de seus argumentos é justamente a defesa da cultura e do “way of life” australiano. Outros argumentos eram ao menos um pouco racistas, o que tira muito sua credibilidade, mas na parte sobre a cultura eu acredito que ele tenha uma certa razão.
O outro problema vem do fato de que existem vários grupos de imigrantes, e em alguns casos há rivalidades históricas entre eles. Não como entre brasileiros e argentinos, mas como entre sérvios e croatas. E como eles formam seus mini países aqui, as rivalidades continuam e acabam por irromper quando as comunidades entram em contato (por exemplo, em jogos de futebol).
Além disso, a falta de integração acaba por ser quase um círculo vicioso: imigrantes ficam apenas nos seus grupos, e acabam sendo vistos como isolados ou “estranhos” pelos locais, o que leva a discriminação, o que leva a mais isolamento e assim por diante. O que acaba por levar, no extremo, a eventos como o de Londres, em que pessoas que vivem em uma sociedade ocidental não se sentem parte dela, mas sim como inimigos.
A minha opinião é que quem vai para um país diferente do seu precisa se integrar com a sociedade na qual está entrando: falar o idioma, participar de eventos, interagir com locais e imigrantes de outras nacionalidades. Isso não quer dizer jogar fora a sua cultura, mas é possível chegar a um meio termo. Quem emigra está indo atrás do que esse país oferece, e isso inclui sua cultura e seus costumes; na verdade, o que o país oferece é um resultado dessa cultura. Isolar-se dentro da própria comunidade não é bom nem para o imigrante, nem para os descendentes, nem para o país que os recebe.
4 Responses to “Multiculturalismo de novo”






on 25 Jul 2005 at 11:11:44 1.Lucia Malla said …
Essa situacao acontece tbm nos EUA e na Europa. Os imigrantes vivem em geral em mini-comunidades proprias, sem misturar-se – q eh parte fundamental do processo de estar no exterior, pra mim. Isso eh mais acentuado ainda entre os asiaticos: vide todas as Chinatowns q existem pelo mundo.
Eu acrescento mais um problema alem dos q vc citou: o imigrante q vive assim em geral nao aprende a lingua do pais novo. E por nao saber se comunicar na lingua do pais em q estah, passa a ser discriminado ou perder oportundades. E vira uma bola de neve, pq ele se esnterra mais ainda no gueto. Esse fenomeno eh o q acontece com boa parte dos brasileiros em Boston, por exemplo.
Esse seu post estah sensacional. Parabens.
on 25 Jul 2005 at 14:05:53 2.Marcelo said …
Agradeço pela referência e pela leitura.
E concordo com a Lúcia: o problema com a língua do país só acentua o problema da integração. Uma das coisas que mais me impressionou é que alguns nunca saem do seu gueto, da sua ilha, vivendo – por exemplo – em Portugal estando em Toronto.
É muito mais complexo que isso, claro, mas parte do problema passa por essa questão: integração X manter a cultura original (não são coisas opostas, mas fazem parecer que sim).
abraço e obrogado novamente pela citação.
on 26 Jul 2005 at 01:32:07 3.Carlos Guarany said …
A imigração no Brasil é mais antiga por isso os imigrantes já são mais integrados. Os Portugueses não tem aqui a barreira da língua mais ainda assim tem seus guetos sim, seus Vasco da Gama ou Portuguesa de Desportos. Temos October Fest, festas Italianas, bairros orientais (liberdade) e algumas cidades do sul são bilíngues e verdadeiras réplicas das Européias. Isso é natural do ser humano e da natureza do ser vivo. Requer tempo para a cultura e as raças se misturarem.
on 26 Jul 2005 at 23:36:45 4.Lilian said …
Acho que este é um assunto muito complexo para ser simplificado ou generalizado. Deixe-me falar sobre estereótipos, por exemplo. Por que, quando o assunto é Brasil, sempre vêm à mente de estrangeiros o trio carnaval, futebol e “the girl from Ipanema”? Mas quantas vezes falamos do “perfume natural” dos franceses, da inteligência portuguesa, da humildade dos ianques? Há alguns anos conversei com um professor norte-americano que se dedicou quase uma década ao tema estereótipo. Para ele, estereótipos são uma maneira de o ser humano simplificar seu entendimento do mundo. Generalizar é mais fácil, mais simples e demanda menos tempo. É uma reação natural.
Acredito que os países dentro de outros países são resultado dessa mesma reação. A gente tende a simplificar ou generalizar, pois é difícil entender o real motivo do isolamento. Medo de perder as raízes, desconfiança dos outros povos, patriotismo exorcizado? Concordo com Carlos Guarany, a integração exige, antes de tudo, tempo.