Austrália 02 Jul 2005 19:22

Política

Aproveitando o clima de crise política que parece estar tomando o Brasil (ao menos é o que parece de longe), achei que seria bom escrever um pouco sobre o que anda acontecendo na política australiana. O interessante é que política, em qualquer lugar do mundo, sempre acaba causando escândalos, protestos, situações mal explicadas… O que mudam são os detalhes.

O assunto da semana são as mudanças propostas pelo governo para as leis trabalhistas (em inglês, “industrial relations laws”). O partido do governo, Liberal Party (mais ou menos o PSDB daqui), vem tentando aprovar essas mudanças há anos, sem sucesso; agora finalmente conseguiram maioria absoluta no Congresso e no Senado e já disseram que vão passar as leis tão rapidamente quanto possível (o novo Senado tomou posse ontem).

O principal partido de oposição, Labor Party (mais ou menos o PT daqui), é fortemente contra, mas não tem muito o que fazer além de convocar protestos de trabalhadores.

As mudanças mais controversas vão alterar a forma de determinação do salário mínimo e farão com que empresas pequenas e médias — até 100 empregados — tenham mais facilidade para demitir funcionários (as leis atuais limitam fortemente demissões sem justa causa; essas leis entraram em vigor quando o Labor Party estava no governo, há uns 15 anos).

Um grande protesto ocorreu na quinta-feira em Melbourne, com dezenas de milhares de trabalhadores fazendo uma passeata no centro em direção aos prédios do governo; ontem houve outro em Sydney.

Além disso, uma questão que vem provocando discussões e virou assunto para programas de TV são as leis de imigração, em particular o tratamento dado a refugiados e asilados políticos. Hoje, quem chega à Austrália sem documentos ou sem visto e pede refúgio é encaminhado a um centro de detenção de imigrantes e mantido ali até que o governo decida aceitar ou rejeitar o pedido.

Isso pode levar anos e, se o pedido for rejeitado, a pessoa é deportada para o seu suposto país de origem e recebe uma conta, que pode chegar a milhões de dólares, pela hospedagem e transporte (a conta vai ser cobrada apenas se ela algum dia voltar à Austrália). Se o pedido for aceito, claro, a pessoa é liberada e recebe alguma ajuda do governo para se estabelecer.

Os refugiados tendem a ser de lugares como Afeganistão, Iraque, vários países da África e, cada vez mais, China. Nesse caso, o problema é complicado pelo fato de o relacionamento comercial entre os países levar o governo australiano a querer ser “amigo” do chinês: há denúncias de oficiais chineses interrogando refugiados, o que é algo no mínimo estranho.

Isso se tornou ainda mais complicado algumas semanas atrás, quando um oficial diplomático chinês pediu asilo político na Austrália alegando que a China mantém uma rede de espiões aqui e rotineiramente seqüestra chineses politicamente “indesejáveis” e os leva de volta para a China (curiosamente, a mesma coisa parece ter acontecido com outro diplomata no Canadá há poucos dias). Isso tudo está com um ar de história mal contada.

Há muita pressão sobre o governo para que essa política (detenção indefinida de ilegais) seja encerrada, mas é uma situação complicada. Muitos supostos refugiados são imigrantes ilegais que chegam sem documentos para que sua origem não seja identificada; há “traficantes de pessoas”, similares aos “coiotes” mexicanos, que trazem imigrantes de barco da Indonésia e os instruem a jogar todos os documentos ao mar.

O governo sente que, se os pretensos refugiados forem libertados enquanto se investiga a sua situação, isso vai encorajar o tráfico de imigrantes ilegais. O que provavelmente é verdade.

E o escândalo mais recente foi a publicação de uma biografia do ex-líder da oposição Mark Latham. Ele abandonou o cargo após perder a eleição passada, alegando problemas de saúde (provavelmente é, ao menos em parte, verdade; ele passou dez dias no hospital).

No livro ele critica a estrutura do partido, chama alguns correligionários de idiotas (e coisas piores) e afirma que o partido não está em condições de ser governo. E esse é o cara que concorreu a Primeiro Ministro há seis meses!

Imagino que, se ele tivesse sido eleito, o livro não teria sido publicado, mas não sei se a doença teria ainda assim feito com que ele abandonasse a liderança do partido (e, por conseqüência, o cargo de Primeiro Ministro).

Não há Mensalão nem CPI dos Correios, mas o noticiário político é bastante divertido aqui também…

One Response to “Política”

  1. on 05 Jul 2005 at 00:41:09 1.Carlos Guarany said …

    Aí pelo menos o povo mostra a insatisfação ainda que não consigam impedir, tais como as tropas para o Iraque. Aqui todo mundo só assiste de camarote, ao vivo pela TV, a roubalheira e comenta igual a futebol, sem protestos, passeatas e ainda votam em todos eles na próxima eleição.
    [] Carlos