Monthly ArchiveApril 2005



Brasil 30 Apr 2005 00:31

Esporte errado?

Será que o problema (bom, um dos problemas) do Brasil é ter “escolhido” o esporte errado?

Explico. Na Austrália, existem três esportes muito populares, tanto quanto futebol no Brasil: cricket, rugby e futebol australiano. O primeiro é popular no país todo, os outros dois são um pouco mais “regionais”: futebol australiano é muito mais forte em Victoria (onde fica Melbourne), rugby em New South Wales (Sydney) e Queensland (Brisbane). Cricket e rugby também são populares no resto dos países da comunidade britânica (e, curiosamente, na Argentina), enquanto que futebol australiano só se joga aqui.

O “nosso” futebol não é tão popular aqui, mas existem times locais, formados principalmente por imigrantes europeus, que disputam torneios com públicos relativamente pequenos (há uma tentativa em andamento de criar uma liga e um campeonato nacional, nos moldes dos outros esportes, com o objetivo de ter um representante no Mundial Interclubes da FIFA, mas é algo meio incipiente ainda).

Pois bem, rugby e futebol australiano são esportes extremamente violentos. E, diferentemente do futebol americano, os jogadores não usam grandes proteções. Nas primeiras quatro rodadas dos campeonatos deste ano aconteceram pelo menos duas fraturas de clavícula, uma de mandíbula, uma na perna e uma fissura de crânio; e isso é o que me lembro agora, acho que houve mais. A torcida, por outro lado, tem comportamentos exemplares: o estádio é, sim, um lugar para ir com a família toda, e não sei de incidentes de violência, antes, durante ou depois dos jogos. Os jogos têm policiamento, sim, mas os policiais ficam na beira do campo sentados em cadeiras de praia, olhando o jogo (e não a torcida). E não existe separação entre torcidas: mesmo com dois times locais jogando, as torcidas são misturadas pelo estádio todo. Imaginem um Gre-Nal ou um Fla-Flu assim.

Ou um jogo entre South Melbourne e Preston, que é onde eu queria chegar. Recentemente ocorreram incidentes de brigas entre torcidas em jogos de futebol (o nosso futebol) aqui em Melbourne e em Sydney. Nos dois casos, apesar de policiamento intensivo, separação entre as torcidas e “barricadas” entre elas, houve invasão de campo, agressões a policiais e torcedores, arremessos de objetos etc. Cogita-se fazer os próximos jogos sem torcida ou exigir identificação dos torcedores na entrada do estádio (o público costuma ser ao redor de 7.000 pessoas). E não é algo isolado, há precedentes históricos de brigas entre torcidas de futebol aqui; assim como acontece na Europa.

Será que existe algo na dinâmica do futebol que leva a animosidades maiores entre torcidas do que em esportes mais violentos? No futebol australiano (como no hóckei sobre gelo dos EUA) é comum ocorrerem brigas entre jogadores, mas isso acaba (em geral) não se propagando para a torcida. Já no nosso futebol, os ânimos se acirram muito mais na torcida que no campo, em qualquer lugar do mundo; por quê?

(Tocando no assunto, a Zero Hora publicou uma reportagem hoje sobre “a geral do Grêmio”, mostrando que não é exatamente um lugar muito agradável mesmo em dias pacíficos (“…os torcedores localizados na parte de cima da arquibancada descem os degraus correndo, levando quem está no caminho, como em uma avalanche…”). Não tenho motivos para crer que seja diferente na geral de qualquer outro estádio brasileiro. Por mais gremista que eu seja, se no estádio é assim, futebol para mim é na TV.)

Austrália 27 Apr 2005 22:27

Cardápio local

Nosso cardápio no jantar hoje foi strogonoff de canguru, feito em casa. Aqui se vende carne de canguru normalmente em supermercados e açougues, como se fosse carne de gado ou de ovelha (mas em menor quantidade, claro). Como é um pouco mais cara, nunca tínhamos comprado; ontem estava em promoção, então acabamos experimentando.

O resultado: a carne é boa, e muito macia. Tem um leve, leve sabor que lembra um pouco fígado, mas não é nada que incomode; mesmo quem não gosta de fígado dificilmente vai se importar. Ou seja, aprovada.

Algum dia desses precisamos experimentar crocodilo, agora. Ou tubarão.

Austrália 21 Apr 2005 15:24

Dicionário de Australianês, parte 1

ta: quer dizer “thank you”; é pronunciado mais ou menos como o nosso “tá”, mas com um “t” um pouco mais suave

good on you: mais ou menos o mesmo que “good for you” em outros lugares, mas no bom sentido; algo como “que legal”, “muito bem”, “parabéns”, “ótimo” etc.; pronunciado como se fosse uma palavra só com acento no “on”: “gudONya”

no: quer dizer “não”, mesmo, mas a pronúncia é absolutamente indescritível; o “o” é longo e tem um som que é quase uma mistura de todas as vogais; tenho que gravar algum dia para colocar aqui

Brisbane: capital do estado de Queensland; pronuncia-se “brísban”, e não “brísbein”

brekky: breakfast, café da manhã; existem várias outras abreviações similares

rego: pronunciado “redjo”, quer dizer “registration”, se referindo ao registro de veículos; é comum ver revendas anunciando “free rego”

Austrália 18 Apr 2005 17:30

O seqüestro do bonde

Coisas divertidas do dia a dia… um rapazinho de 15 anos roubou um bonde do terminal e andou pela cidade por 40 minutos, inclusive pegando passageiros nas paradas. Acabou sendo parado por oito carros de polícia depois que os controladores de tráfego (que tem uma sala de controle com informações sobre a posição de cada veículo) reportaram o roubo. Os passageiros só desconfiaram um pouco antes da polícia chegar porque o rapaz “passou do ponto” em algumas paradas.

O interessante é que para ligar um bonde são necessárias três chaves diferentes, e a empresa de transportes diz que controlar um é algo bem complicado; os condutores passam por um treinamento de seis semanas. O rapaz, supostamente, aprendeu sozinho e conseguiu roubar as chaves. Ele se diz “obcecado por bondes”, e já tinha dado uma voltinha uns dias antes para treinar, sem ser percebido.

Apesar de ele ter sido preso e acusado de nove crimes, a empresa de transportes diz que, se ele se comportar bem, ele tem uma boa chance de ser contratado como condutor quando chegar aos 18 anos…

Brasil 12 Apr 2005 15:10

Como é que é?

Eu acompanho um pouco as notícias do Brasil pela Internet, mas eu acho que eu perdi um pedaço da história neste caso: de acordo com uma reportagem da Folha Online, o MST vai apresentar uma denúncia à Promotoria alegando que 150 famílias estão sendo ameaçadas de expulsão de uma propriedade que eles invadiram.

Agora… eles não deveriam estar sendo ameaçados de expulsão, ou mesmo expulsos, justamente pela Promotoria? Ou eu não entendi alguma coisa importante? Me parece que quem invadiu uma propriedade não tem muito direito de se sentir seguro ali, mas essa é só a minha opinião…

Austrália 04 Apr 2005 16:46

Animais australianos exóticos #2: Tigre da Tasmânia

Tasmanian TigerTambém conhecido como thylacine, esse animal não tem muito a ver com o diabo da Tasmânia, exceto o fato de ser originário do mesmo lugar e também ser um marsupial carnívoro. Mas ele tem menos ainda a ver com tigres, ou com qualquer outro felino. Na aparência e tamanho, ele é similar a um lobo, mas as listras na parte de trás do corpo acabaram dando origem ao nome de “tigre”. Outra característica peculiar é que a boca tem uma abertura enorme, muito maior do que o esperado para um animal daquele tamanho.

Nas últimas semanas, tigres da Tasmânia tem sido muito mencionados nos noticiários, por motivos interessantes. Acredita-se que a espécie esteja extinta desde 1936, quando o último exemplar morreu no zoológico de Hobart, mas desde então inúmeras pessoas reportaram encontros com animais que poderiam ser tigres da Tasmânia, tanto na Tasmânia quanto em Victoria (a Tasmânia é uma ilha, o que faz com a que a fauna de lá seja ainda mais isolada do mundo do que a do resto da Austrália; a chance dessa espécie existir “in natura” fora da Tasmânia é quase nula) e, em um caso, na Inglaterra. Mês passado, em particular, um turista alemão disse haver encontrado um tigre da Tasmânia em uma área isolada da ilha e haver tirado fotos dele; ele mostrou as fotos para funcionários de um museu, os quais concordaram que o animal pode realmente ser o que parece, mas ele se recusou a deixá-las com eles (e depois disso parece ter sumido da face da Terra). Antes disso, há alguns meses, foi descoberto um filme colorido de um dos últimos animais, feito em um zoológico; são as únicas imagens coloridas do animal em existência (fora, talvez, as fotos do alemão).

Os motivos da extinção foram relativamente simples e previsíveis: na Austrália (fora da Tasmânia) ele sumiu há cerca de 1000 anos (acredita-se), por causa de competição com os dingos, que foram introduzidos há uns 5000 anos por navegadores asiáticos (dingo é um tipo de cão selvagem). Na Tasmânia, onde não há dingos, ele foi caçado principalmente por fazendeiros, uma vez que ele atacava gado e ovelhas. O último exemplar selvagem foi visto em 1932.

Desde a suposta extinção, nove grandes expedições foram montadas para procurar animais vivos, mas nenhum foi encontrado; no máximo, pegadas que podem ser dele foram vistas em vários lugares. Uma revista australiana (The Bulletin, mais ou menos a Veja daqui) está oferecendo uma recompensa de mais de um milhão de dólares para quem capturar um exemplar vivo da espécie até o final de junho; até o momento, ninguém parece ter se candidatado.

Já ocorreram casos de outros animais australianos que se supunha extintos e que foram encontrados, vivos e bem, então há uma certa esperança de que esse seja o caso novamente. Também há um projeto do Melbourne Museum para resgatar amostras de DNA e tentar gerar filhotes usando cães ou lobos como “mães de aluguel”, mas parece ser um projeto que ainda vai demorar um pouco.