Pessoal 06 Dec 2004 16:00

Até a pé…

Um ex-colega de trabalho (e, antes disso, de faculdade) me mandou um e-mail recentemente contando, nas palavras dele, “a história de sua paixão tricolor”. Achei uma idéia interessante, então aí vai a minha história:

Em nasci em 1971, ano do primeiro campeonato brasileiro e ano em que o Grêmio se tornou o primeiro time a marcar um gol em um campeonato brasileiro (Grêmio 3×0 São Paulo, 07/08/1971). Mas é claro que, naquela época, eu ainda não estava prestando atenção nisso.

Minha primeira lembrança envolvendo o Grêmio é da final do campeonato gaúcho de 1976, que ouvi pelo rádio com meu pai. O Inter ganhou por 2×0 (segundo gol de Dario; lembro de ter ouvido a narração e perguntado para meu pai “o Dario é do Grêmio ou do Inter?”) e conquistou o octacampeonato gaúcho. Ou seja, foi um dos piores momentos da história tricolor, mas isso não me fez mudar de idéia; mesmo com cinco anos de idade, eu já era gremista (também não acho que, com cinco anos, eu entendesse bem o conceito de “octacampeão”…).

Mas eu não sei bem o que me levou a ser gremista. Meu pai é colorado, e minha mãe é basicamente neutra quanto a futebol. Tenho fotos minhas, quando nenê, vestindo a camiseta do Inter; ou seja, meu pai tentou me levar para o lado dele. Apesar disso, eu, minha irmã e um dos meus irmãos somos gremistas; apenas o caçula da família herdou o gene vermelho. No meu caso, em particular, acho que ao menos parte da “culpa” pode ser do Paulo Santana.

Parênteses para eventuais não-gaúchos que lerem este texto: Paulo Santana é um comentarista esportivo fanaticamente gremista que, naquela época, apresentava um segmento de um programa jornalístico estadual no horário do almoço em que ele falava, principalmente, do Grêmio. Hoje em dia ele ainda tem um segmento no mesmo programa, mas ele tem falado menos de futebol e mais de outros assuntos. Ele também tem uma coluna diária no Zero Hora, mais ou menos com o mesmo perfil. Ele é responsável por alguns dos momentos mais folclóricos da televisão gaúcha, quase sempre envolvendo glórias ou tragédias gremistas (muito mais glórias do que tragédias). Ele ficou conhecido mundialmente alguns anos atrás por escrever na sua coluna a respeito de sua experiência com Viagra, quando esse remédio ainda era uma novidade; o texto em questão foi mencionado pela Newsweek e pela CNN.

Pois bem, naquela época eu adorava o Paulo Santana; assistia todos os dias, fielmente, e gostava tanto dele que, quando minha mãe ficou grávida, no início de 1976, eu pedi insistentemente que, caso fosse menino, o nenê fosse chamado de Paulo Santana (lembrem-se, eu tinha quatro anos). Felizmente, foi menina. Em todo caso, acho que há uma boa chance de que ele seja o responsável pela minha seleção de time. Lógico que também é possível que algumas pessoas nasçam gremistas e outras nasçam coloradas; não sei se alguém já fez alguma pesquisa séria sobre o assunto.

Voltando a história, a minha lembrança seguinte é da final do campeonato gaúcho de 1977, aquele Gre-Nal histórico que o Grêmio ganhou por 1×0, gol de André Catimba (que tentou dar um salto mortal para comemorar o gol, errou o pulo, caiu de peito no gramado e ali ficou até sair de maca), acabando a série de campeonatos do Inter. Essse jogo eu já assisti pela televisão, e vi o gol e a festa ao vivo. E esse é o famoso Gre-Nal que não terminou; aí pelos 40 minutos do segundo tempo o juiz marcou uma falta perto do meio do campo, e a torcida entendeu mal e invadiu o campo. Acabou ficando por isso mesmo, e foi um dia de muita festa; lembro de ter ido à avenida principal da cidade para ver a carreata gremista, com uma infinidade de carros, bandeiras e fogos.

Depois disso, lembro da final do campeonato brasileiro de 1981, contra o São Paulo, lá no Morumbi. Lembro em particular do golaço do Baltazar, da entrada da área, encobrindo o Valdir Perez, que seria o goleiro da seleção na Copa de 1982 (e por que é que o Baltazar não estava naquela seleção?).

Em 1982 participamos da nossa primeira Libertadores, mas, ainda sem muita prática, não fomos tão bem. Mas chegamos de novo à final do Brasileiro (perdemos para o Flamengo no Maracanã), e pudemos disputar a Libertadores de 1983. E aí chegamos aos nossos maiores títulos: ganhamos do Peñarol, fomos campeões da América e fomos a Tóquio! Lá, ganhamos do Hamburgo, com dois gols do Renato Portaluppi (na época ele não era Renato Gaúcho ainda), um deles na prorrogação, e a festa durou a madrugada inteira. Acho que foi a primeira vez que fiquei acordado até tão tarde, e lembro da narração do Celestino Valenzuela comemorando cada gol do Grêmio. Como disse o Zero Hora no dia seguinte, a Terra é azul!

Os anos seguintes não foram particularmente vitoriosos, exceto por vários campeonatos gaúchos e pela Copa do Brasil de 1989 (fomos o primeiro campeão desse campeonato, o maior ganhador até hoje, com quatro títulos e três vice-campeonatos e, até aparecer a regra de que “time na Libertadores não joga Copa do Brasil”, éramos o único time a ter participado de todas as edições). 1991 e 1992, como todo gremista sabe, foram anos particularmente ruins, mas demos a volta e retornamos em grande estilo.

Em 1994 fomos bicampeões da Copa do Brasil, e em 1995 fomos bicampeões da América, empatando com o Atlético em Medellín. Fomos de novo a Tóquio, mas perdemos nos pênaltis para o Ajax (eu estava nos EUA e não assisti o jogo; só fiquei sabendo do resultado pela manhã). Mas esse é um torneio em que a mera participação é uma vitória; só dois times no mundo participam a cada ano, e uma derrota, ainda mais nos pênaltis, não é nada para se envergonhar. Quem já chegou lá, sabe disso; quem não chegou, só pode sonhar. Vice-campeão mundial, e com orgulho!

E seguimos as conquistas com o brilhante campeonato brasileiro de 1996, com aquele gol mágico do Arílson Aílton nos últimos minutos do jogo: 2×0 contra a Portuguesa! Eu estava ainda nos EUA, e liguei de um telefone público, no meio do Monterey Aquarium, para o Brasil para saber como estava; consegui ouvir, pelo telefone, o Galvão Bueno narrando o final do jogo, e comemorei de longe! No ano seguinte ganhamos a Copa do Brasil, com um empate dramático contra o Flamengo, no Maracanã, que acompanhei com a narração da Rádio Gaúcha via RealAudio (provavelmente comemorei com alguns minutos de atraso…).

O resto é história recente… ganhamos do Corinthians no Morumbi, 3×1, para conquistar o tetracampeonato da Copa do Brasil e para fazer o Galvão gritar “é tetra!” para o país todo. E, nesses anos todos, tivemos várias outras alegrias e tristezas; como disse antes, muito mais alegrias que tristezas.

Um grande time não deixa de ser grande de uma hora para a outra, e a torcida de um grande time não o abandona em momentos difíceis. Como a história mostra, foi depois dos nossos piores momentos que vieram nossas maiores conquistas. E, como o nosso hino diz, a torcida estará junto onde o Grêmio estiver. Então, posso dizer com segurança: em frente, Grêmio! Rumo a Tóquio!

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