Monthly ArchiveNovember 2004



Austrália 30 Nov 2004 13:47

Por que Melbourne e não Sydney?

Entre outras coisas, por isto:

Ok, no final de semana passado também fez um bom calor aqui (uns 34 ou 35 graus), mas a previsão para Sydney hoje era de 42 graus.

Austrália 29 Nov 2004 13:09

Bandeiras e revoluções

Aqui perto do prédio onde eu trabalho há um grande cruzamento com um enorme mastro no canteiro central; o topo do mastro fica mais ou menos na mesma altura das janelas aqui do sexto andar, e por isso a gente sempre vê pela janela uma enorme bandeira da Austrália (como na foto aqui ao lado). É um excelente indicador da direção do vento, o que por sua vez é um indicador da temperatura do dia e dos dias seguintes (vento norte = calor, vento sul = frio).

Pois bem, hoje, na hora do café das 11 da manhã, a bandeira no mastro tinha mudado; era esta aqui ao invés:

Essa bandeira é conhecida como “Southern Cross”, e ela estava no mastro porque hoje se comemoram os 150 anos da revolução (ou tentativa de revolução) de Eureka, que é considerada como o “marco inicial” da democracia na Austrália. Eureka é o nome de uma área das minas de ouro próximas de Ballarat, no interior de Victoria. Há uns 150 anos, essa parte do país estava passando por uma “corrida ao ouro” similar à que havia acontecido na Califórnia alguns anos antes (começando em 1849). O governo da colônia, na época controlado pelos britânicos, impunha taxas pesadas sobre os mineradores, e a polícia e os coletores de impostos abusavam de brutalidade ao desempenhar seus serviços. No final de novembro de 1854, cerca de 500 mineradores se revoltaram, queimaram seus documentos e montaram um “forte” ao redor das minas, com essa bandeira (feita à mão pelas suas esposas) como seu símbolo. A bandeira original está em um museu hoje em dia, aliás.

O resultado imediato foi que, menos de uma semana depois (na manhã do domingo seguinte, 3/12), as tropas do governo invadiram o forte e dominaram os rebelados em cerca de 20 minutos; tudo acabou com mais de 20 mineradores mortos e outros tantos presos, e lei marcial decretada em toda a área. No entanto, meses depois, todos os mineradores presos foram inocentados pela justiça, e o governo acabou acatando todas as exigências feitas durante a revolta (uma delas sendo o direito de voto para os mineradores legais).

Essa foi a única revolta armada da história da Austrália, e o lema dos mineradores é visto como um símbolo dos ideais do país (“We swear by the Southern Cross to fight to defend our rights and liberties”). Desde então, sindicatos e várias organizações que lutam pelos direitos dos trabalhadores adotaram essa bandeira como símbolo. Entidades que defendem que a Austrália passe a ser uma república (hoje é uma monarquia parlamentarista, com a rainha da Inglaterra como chefe de Estado) também a utilizam.

Em resumo, foi mais ou menos como a “revolução farroupilha” daqui, só que foi mais curta e deu certo.

Pessoal 25 Nov 2004 16:47

Túnel do tempo II

Continuando a história a partir de onde eu parei… (e voltando um pouco atrás, na verdade)

Em algum momento nos últimos meses de 1993 (não lembro bem quando), eu acabei “ganhando” uma multi-console, e pude parar de incomodar a Andréa a cada teste que eu precisava fazer. Como eu disse antes, eu não lembro exatamente todas as partes do código em que eu trabalhei, mas lembro que uma parte importante era o código que controlava a tela. Em um ambiente gráfico, a escrita na tela era algo bastante importante para a performance, então tínhamos vários algoritmos bem interessantes para otimizar isto. Muitos dos algoritmos tinham a ver com o que era mostrado quando e em que ordem, o que era salvo e como se determinava quando algo precisava ser re-exibido (porque algo saiu de cima, por exemplo); eu trabalhei em partes que ficavam bem mais no “baixo nível”: o código Assembler que colocava imagens na tela e fazia operações com o conteúdo da tela (por exemplo, para mover janelas). “Imagens” aqui é no sentido amplo da palavra, se referindo a qualquer coisa exibida na tela, inclusive texto.

Esse foi um período em que alguns livros e documentos eram “companhia constante” do processo de desenvolvimento. Um era o manual do 80386, publicado pela Intel, que tinha todas as instruções do processador e o “custo” de cada uma (em ciclos de clock). E outros eram a documentação das placas VGA que suportávamos… cada modelo de placa tinha um “jeitinho” de fazer algumas coisas, e tentávamos fazer tudo da melhor maneira possível para ser mais rápido. Na época, as melhores placas eram as Cirrus; para mover coisas na tela, eram as mais rápidas. Lembro bem de ter feito vários testes com programas que usavam diferentes métodos de exibição e movimentação e ter cronometrado cada um para decidir pelo melhor… E na época não tínhamos Internet para consultar toda a documentação online, claro.

Uma lembrança interessante dessa época é a “tradição oral indígena” da Nutec. Não existiam listas internas de e-mail (mas havia e-mail interno), nem repositórios de documentação, nem nada similar; mas havia uma reunião que acontecia todas as semanas, na sala de reuniões do terceiro andar, com a presença de todo o pessoal do dsv, onde cada um contava sobre o que estava fazendo, problemas que tinha, novidades, novas implementações, novos portes, fofocas internas e coisas similares. Não sei exatamente quando isso parou de acontecer, mas acho que foi ainda antes de eu ir para os EUA.

Outra lembrança é a dos almoços no restaurante da Ughini, na Voluntários. O dono do restaurante era amigo do Pretto, e por isso tínhamos algum desconto (não lembro de quanto); por conseqüência, íamos ali quase todos os dias. Mas, em uma sexta-feira por mês (no dia do pagamento?), era dia de almoçar na Sociedade Suíça; esse era dia de festa, de demorar bastante no almoço e de comer demais. Acho que essa era uma tradição que vinha desde o início da Nutec, e sobreviveu por um bom tempo (mas acho que não resistiu à mudança para a Andradas, que se não me engano aconteceu no final de 1994 ou início de 1995).

E outra lembrança interessante é a do “ninho de ratos” que ficava na salinha onde ficava um dos servidores (acho que a “nutecpa”). Ali chegavam os fios de todos os terminais seriais que estavam espalhados pelos dois andares (muita gente tinha terminais nas mesas; era a ferramenta normal de trabalho, da mesma forma que hoje em dia se esperaria que quase todo mundo tivesse um PC na mesa). Lembro de ter passado boa parte de um sábado ali naquele verão “desembaraçando” a fiação junto com a Deby e, se lembro bem, o Fernando Silveira. Quando terminamos estava muito melhor do que quando começamos mas, tristemente, continuava parecendo um ninho de ratos. Ratos um pouco mais organizados, mas ainda ratos.

No final de 1993 eu apresentei o meu trabalho de conclusão da universidade; por questões técnicas, a apresentação foi na Nutec mesmo, e funcionou tudo direitinho (sim, por incrível que pareça). E, com o fim do curso, deixei de ser estagiário! Em janeiro de 1994 fui “efetivado”. Essa ainda era uma época de inflação alta (pré plano Real), e os salários na Nutec eram indexados pelo dólar. Ainda lembro que o meu primeiro salário foi de US$370 por mês, mais vale-refeição (daria pouco mais de R$1000 por mês, na taxa do dólar de hoje).

Ao redor dessa época, ou um pouco depois, houve uma mudança de layout no escritório e a gente (eu, Madeira, acho que a Andréa, talvez mais alguém) nos mudamos para uma sala mais isolada, que ficava ao lado da sala da diretoria. Eu tenho a impressão de que isso aconteceu na época em que o suporte técnico subiu do terceiro para o quarto andar e passou a ocupar a área que antes era do marketing, atrás da minha mesa original. Qual a relação entre esses dois fatos? Bem, o pessoal do suporte atende clientes, e passa bastante tempo no telefone, e por conseqüência faz bastante barulho. O quarto andar era um lugar incrivelmente silencioso antes disso. Logo, a mudança foi justamente para evitar os problemas de concentração causados pelo excesso de barulho. A essa altura duas outras grandes amigas minhas já estavam trabalhando no suporte, junto com a Deby: a Ana, que depois foi para SP, e a Daniela, que até hoje está no Terra (obviamente, não mais no suporte). Em algum momento depois disso, também começou a trabalhar ali o Fernando Silveira, que não muito tempo depois se tornaria o marido da Ana.

No início de 1994, uma das coisas em que eu estava trabalhando era o nTerm; o Waldir, que cuidava dele, havia saído da empresa no final do ano. Eu tenho uma ligeira impressão de que eu estava trabalhando para integrar o nTerm com o PC/TCP para permitir usá-lo como cliente de telnet (como mencionei no texto anterior), mas está me parecendo que era muito cedo para isso. Quero dizer, eu sei que eu trabalhei nisso em algum momento, e a minha impressão é de que foi nessa época, mas pode muito bem ter sido um ano depois.

A propósito, uma outra lembrança dessa época é que aquela sala do fundo era fria! Era pequena, não tinha muita gente e tinha um aparelho de ar-condicionado só para ela. O Fernando não se importava, e no fundo eu também não me importava muito (era melhor do que os 38 graus lá de fora), mas muita gente reclamava.

Em todo caso… em uma bela tarde de março, eu trabalhava tranqüilamente em alguma coisa quando o Alex parou na frente da minha mesa e me perguntou: “tá a fim de passar um mês na Califórnia?” Bom, isso é pergunta que se faça? O que estava acontecendo era que o Paulo Castro ia voltar logo, e se precisava de alguém técnico para ficar lá junto com o Sérgio Pretto e dar suporte aos nossos produtos vendidos lá (além de trabalhar em desenvolvimento, claro). Ah, sim: o Marcelo Lacerda havia voltado dos EUA algum tempo antes, e o diretor “residente” nos EUA nesse momento (e pelos próximos anos) era o Pretto.

Então, passado algum tempo e alguma enrolação com as passagens, ficou tudo pronto (o visto foi fácil; na época ainda existia consulado dos EUA em Porto Alegre, e o visto ficou pronto rapidinho) e eu, que nunca tinha entrado em um avião na vida, embarquei em um vôo da Vasp de Porto Alegre para São Paulo, depois outro (também Vasp) de São Paulo para Los Angeles, e outro da United de Los Angeles a San Francisco. Dos vôos, mesmo, lembro muito pouco, mas lembro de ter levado uma bronca de uma policial no aeroporto de Los Angeles quando fui pedir informações (eu bloqueei o caminho dela na calçada…).

Chegando finalmente em San Francisco, o Pretto e o Paulo Castro me esperavam no aeroporto (era mais ou menos cedo em um domingo, e estava bem mais frio do que eu esperava; uns 15 graus, mais ou menos). Tenho que admitir que uma coisa que me decepcionou um pouco nesse dia foi o carro que se usava lá; era um Geo Metro, que é algo um pouco parecido com um Corsa, mas menor. O nome do carro, claro, se refere ao tamanho dele (brincadeira; acho que o “Metro” é de “metropolitan”, na verdade; mas bem que podia ser).

A Nutec ficava em Mountain View, que fica na região sul da baía de San Francisco; o aeroporto fica no norte, a uns 40 minutos de lá. No caminho para Mountain View o Paulo decidiu “passear” um pouco para me mostrar um pouco da região, e fomos à praia; mais especificamente, fomos a Half Moon Bay. Com a temperatura que estava fazendo, claro, o lugar estava meio vazio, e não muito confortável…

Depois disso, foi-se almoçar (no Sizzler da El Camino Real, acredito) e para casa. E no dia seguinte, segunda-feira, 28/03/1994, era dia de começar a trabalhar na Califórnia.

Mas isso é uma história para outro dia.

Austrália 24 Nov 2004 13:01

Votamos!

Enviamos nossos votos! Recebemos as cédulas para a eleição municipal no início de novembro, e nesse final de semana as preenchemos e enviamos. É tudo pelo correio, não precisa ir a nenhum ponto de votação.

Como funciona: eram duas cédulas, uma para prefeito e vice e a outra para vereadores. Em cada uma delas estão listados todos os candidatos ao cargo, e a gente precisa indicar a ordem de preferência entre eles. Não é só indicar o candidato preferido, precisa numerar todos eles. Junto com as cédulas vêm dois livretos com as fotos e propostas de todos os candidatos, para ajudar na escolha. Depois de tudo preenchido, se coloca em um envelope, se assina uma parte destacável dele, se coloca tudo em um outro envelope e se deposita em uma caixa do correio. A contagem vai ser nessa sexta (26/11) à noite. Quem não vota, paga multa (A$50).

Interessante é que não é uma eleição “política”; quero dizer, os candidatos não são de partidos políticos, eles são de “chapas” formadas só para essa eleição. É quase como uma eleição para grêmio estudantil. Só duas das chapas se identificavam claramente com agum partido (uma do Labor Party, equivalente local do PT, e outra dos Greens, o nosso Partido Verde), e algumas declaravam orgulhosas que não eram vinculadas a partido nenhum. Isso acaba facilitando a coisa, porque qualquer um concorre. Como resultado, havia 21 chapas concorrendo a prefeito, com os mais variados tipos de candidatos. Em uma delas (“Youth Australia”) o candidato a prefeito é um estudante secundário (com 18 anos) e a vice é estudante universitária. Em outra (“Melbourne Nightlife”), a candidata a prefeita é “fashion designer” e a vice é dona de um clube; a plataforma, claro, era melhorar a vida noturna da cidade (como vizinho de um clube, eu posso dizer que não sou tão favorável assim a essa idéia). Em outras, os candidatos eram comerciantes, donos de empresas, professores etc.

Na eleição para vereadores (sete vagas), concorriam 65 candidatos, divididos também em 21 chapas (mas algumas chapas só tinham candidatos a prefeito, e outras só a vereador). A cédula tinha pouco mais de um metro de largura (as chapas eram listadas lado a lado). Ler as propostas de todos era interessante, porque havia cada coisa maluca… um candidato queria criar ciclovias elevadas no centro da cidade. Outro pretendia proibir o uso de sacolas plásticas nos supermercados do centro. E por aí vai.

Mas uma coisa interessante de uma eleição com muitos candidatos é: como se decide preferências entre 21 candidatos? Lendo todos, eu achei umas escolhas óbvias para o fim da lista, e outras para o topo dela, mas o “meio de campo” era meio embolado. No fundo, no fundo, para a maior parte deles eu não tinha realmente uma preferência bem definida. Acabei dividindo os candidatos em três grupos (bons, ruins e mais ou menos) e depois ordenei dentro dos grupos; com menos escolhas fica mais fácil.

O que ainda deixava em aberto o problema de ordenar 65 candidatos a vereador. Acabei usando as chapas… coloquei no topo as chapas que eu tinha colocado no topo na outra cédula, e idem para o fim. No meio, juntei os do meio da primeira cédula com os que só existiam na segunda. E depois distribui as preferências entre os candidatos de cada grupo na ordem das chapas. Foi um processo meio complicado, mas admito que foi muito mais simples do que tentar ordenar 65 pessoas, e o resultado ainda representa minhas opiniões.

Dois detalhes que vale a pena mencionar: os candidatos a prefeito, além das suas propostas, também dão a sua recomendação de ordem de preferências; mais ou menos como uma “cola” para a cédula. Assim, se você gosta mesmo de um candidato, pode votar completamente de acordo com o que ele indica, simplesmente copiando a sugestão dele. E as chapas para vereador também dão a sua sugestão de ordem dos candidatos a vereador, e você pode votar como indicado pela chapa “automaticamente”, marcando apenas um “1″ ao lado do nome da chapa na cédula e deixando todo o resto em branco. Simplifica bastante o processo para quem está bem alinhado com algum candidato ou alguma chapa.

Pessoal 18 Nov 2004 16:12

Túnel do tempo

Da série “recordar é viver”…

É uma falha imperdoável da minha parte, mas eu não lembro exatamente em que dia eu comecei a trabalhar na Nutec. Foi no início de julho (ou junho? não, acho que foi julho) de 1993, mas não sei o dia exato. E começou quase que por acaso.

Para quem não sabe, a Nutec Informática S.A. era uma empresa de software sediada em Porto Alegre, com uma filial em SP e outra em Mountain View (na Califórnia). Quando eu comecei a trabalhar lá, a empresa já existia há uns seis anos. Em 1995 essa empresa lançou um provedor de acesso chamado NutecNet, e no final de 1996 um portal web chamado ZAZ. Depois de algumas reviravoltas, tanto o portal quanto o provedor hoje se chamam Terra. Este texto provavelmente vai ser muito mais interessante para quem trabalha ou trabalhou algum dia na Nutec/Zaz/Terra. Eu até procurei, mas não achei nada online a respeito da história dos primeiros anos da Nutec (nem da Edisa e outras empresas daquela época); eu adoraria algum dia ler um livro sobre isso, escrito, por exemplo, pelo Marcelo Lacerda. Tenho certeza que ele teria muito mais coisas para contar do que eu, até porque o ponto de vista dele era muito melhor.

Voltando à história… Eu tinha ouvido, já há algum tempo, uma colega de faculdade (a Andréa Zílio) que já trabalhava na Nutec dizer que eles tinham vagas para estagiários na área de desenvolvimento de software. É, meninos e meninas, naquela época quem estava na faculdade era contratado como estagiário, e ganhava, quando muito, um salário mínimo; acho que eu comecei ganhando meio salário mínimo (mais vale-refeição). Mas, continuando… em uma bela tarde de inverno, os funcionários da UFRGS estavam em greve, e por causa disso os laboratórios do Instituto de Informática fecharam. Sem nada para fazer, o que eu fiz? Voltei para o centro da cidade e fui bater na Nutec, para ver se eles queriam mesmo estagiários.

Na época, a sede da Nutec era na rua Pinto Bandeira, no centro, entre a Alberto Bins e a Voluntários da Pátria. A empresa ocupava dois andares, o terceiro e o quarto, de um prédio não muito grande, e eu subi direto para o quarto, onde ficava o desenvolvimento (ou “dsv”, como era conhecido). Cheguei e fui entrando, e a primeira pessoa com quem falei na empresa foi o Max, que na época era, se não me engano, assistente administrativo, e ocupava a salinha que ficava em frente à porta do quarto andar.

Outro ponto que eu não lembro é se eu fui entrevistado ali mesmo, na hora, ou se se marcou algo para outro dia. Tenho a impressão que foi na hora. O que me lembro claramente é que quem me entrevistou foi o Fernando Madeira, na época um dos desenvolvedores, e hoje diretor-geral do Terra Brasil. Juro que não lembro como foi a entrevista, mas ela foi em uma sala de reuniões no terceiro andar, onde ficava boa parte da empresa, inclusive o Suporte Técnico. Ali havia outra amiga minha trabalhando, a Ana; a então chefe dela no suporte, a Deby (hoje outra grande amiga minha), tentou me entrevistar também, ao me ver sentado em uma cadeira esperando pelo Fernando, mas o Fernando chegou a tempo e não deixou.

Uns poucos dias depois da entrevista (um ou dois dias) alguém me ligou da Nutec (tenho quase certeza que foi o Alex) informando que eles tinham me aprovado, e perguntando quando eu poderia começar. “Agora”, eu respondi. Mas acabou ficando para uns dias depois, claro; eles precisavam tempo para preparar uma mesa e um terminal para mim.

Quando eu finalmente comecei, ganhei uma mesa com um belo terminal serial, um Edisa 3630 (provavelmente). Não, não rodávamos Edix; o terminal estava conectado a um servidor Intel (um 386) rodando SCO Unix 3.2v4.2. O andar onde ficava o desenvolvimento era quase todo “aberto”, sem paredes, apenas com divisórias formando algumas “pseudo-salas”. A área onde eu ficava tinha, além de mim, o Waldir, que trabalhava com o nTerm (o emulador de terminais da Nutec); a Andréa Zílio, que trabalhava no nOffice II (mais sobre ele abaixo); e o Fernando Madeira, que trabalhava no nOffice II e no nTerm Gráfico. Atrás de mim, em direção à frente do prédio, ficava o Marketing, que tinha a Lonise e a Gabriela; e na outra direção ficava o resto do desenvolvimento: o Paulo Castro, o Alex, o Felipe, o Demétrio e o Gélson. Um pouco mais ao fundo, em uma área que, aí sim, tinha salas, ficava a diretoria: Marcelo Lacerda, Sérgio Pretto e, de vez em quando, Newton Braga Rosa.

Vale dizer que, por conta da filial dos EUA, nem todo mundo estava presente o tempo todo. O Marcelo Lacerda estava quase que permanentemente estacionado na Califórnia, e geralmente era acompanhado por alguém do desenvolvimento; quando eu entrei, quem estava lá era o Paulo Castro. Assim, eu só vim a conhecer o Paulo algumas semanas depois, quando ele voltou dos EUA. Essa ainda era a época em que quem voltava dos EUA sempre trazia algum equipamento interessante e difícil de encontrar no Brasil, então cada chegada era um evento. Foi nesse evento que a gente bateu esta foto:

dsv da nutec, 1993

Da esquerda para a direita: Gélson, Demétrio, Paulo Castro, esse que vos escreve, Fernando Madeira, Felipe, Andréa Zílio, Waldir e Alex. Ah, e um pedaço da Lonise no canto. Como na época não existiam câmeras digitais, essa foto foi feita usando uma câmera de vídeo e uma placa de captura WinVision, da Quanta, que o Paulo tinha acabado de trazer.

Mas eu estava falando do ambiente e dos sistemas em que o pessoal trabalhava. O desenvolvimento de quase tudo era feito em um servidor rodando SCO Unix; as pessoas se conectavam a ele por terminais seriais ou por multi-consoles. Não circulava um pacote IP dentro daquele escritório na época! Multi-consoles eram umas placas que permitiam ligar vários monitores VGA a uma única máquina, e fazer com que cada um deles (acompanhado de um mouse e um teclado) funcionasse como uma console gráfica. Funcionava bastante bem, e se tinha uma tela de 640x480x16 em cada um dos quatro (ou oito) monitores, permitindo assim fazer desenvolvimento de software gráfico, como o nOffice II. Havia também alguns terminais gráficos da Edisa (3660? 3636?) que eram usados com o nOffice II; acho que o Gélson tinha um deles na sua mesa.

As exceções eram o Waldir, que tinha um 286 para desenvolver o nTerm (rodava em PC, e era compilado (se não me engano) com o Turbo C), e o Fernando, que tinha um 386 (com Windows!) para desenvolver o nTerm Gráfico.

Então, sobre os produtos… o nTerm era um emulador de terminais, que rodava em DOS. Era usado para se comunicar, via porta serial, tipicamente com servidores Unix (ou com um modem, para discar para algum lugar – sem PPP, claro, apenas linha de comando e transmissão básica de arquivos). Emulava VT100, VT220 e outros. Mais tarde (acho que bem mais tarde) ele ganhou suporte a TCP/IP, permitindo que fosse usado como um cliente de telnet em PCs com PC/TCP. Isso é antes do Windows95, quando TCP/IP ainda era algo que precisava ser instalado a parte nos PCs.

nOffice era, basicamente, um software de automação de escritórios. Incluía várias coisas bem úteis, entre elas um editor de textos, e-mail, calculadora… e certamente mais coisas que não lembro agora. É possível que ainda tenha gente usando esse produto (na Trensurb, talvez…), mas não tenho certeza. Na época, vendia muito bem. Chegou a ser portado para Linux (extra-oficialmente, ao menos) e acredito que passou até por uma revisão no ano 2000.

nOffice II, como o nome dá a entender, era a “nova geração” do nOffice, e era um software muito mais complexo. Tinha vários tipos de interface, e selecionava o correto de acordo com o device sendo usado; tanto podia ser uma interface em modo texto quanto uma bela interface gráfica no padrão Motif. Mesmo em ambiente texto, a interface permitia o uso de janelas. Se lembro bem, havia quatro modelos de interface: texto, gráfica, AlphaWindows e AlphaWindows gráfico. Equivaliam aos quatro tipos de device da época: terminais texto, consoles gráficas (incluindo multi-console), terminais AlphaWindows e terminais AlphaWindows gráficos (como o nTerm Gráfico). Mas essa é uma história muito longa sobre a qual é melhor falar depois, em outro contexto.

Tanto o nOffice quanto o nOffice II rodavam em uma infinidade de plataformas diferentes: SCO Unix, Xenix, DG-UX, HP-UX, OSF, AIX etc. etc. Basicamente todos os Unix-like da época com alguma penetração no mercado tinham um porte do nOffice. Como o fonte era basicamente o mesmo em todos os ambientes, ele tinha muitos “#ifdef” espalhados por quase todos os arquivos; quase todos os ambientes precisavam de alguns ajustezinhos, e a cada porte feito entravam mais alguns detalhes no fonte. Isso não tornava o fonte fácil de ler, mas era bastante prático. O pessoal que trabalha ou já trabalhou no Terra e já viu o fonte da libtrrutil sabe do que eu estou falando.

Quando eu comecei, o meu trabalho era com o nOffice II. Eu não lembro exatamente em que código eu estava mexendo, mas lembro bem que, como eu tinha apenas um terminal texto, a cada vez que eu precisava testar alguma coisa eu tinha que interromper a Andréa e pedir uns minutinhos na console dela. Lembro de várias peculiaridades daquela época… Por exemplo, compilar o servidor era algo demorado, principalmente quando se mexia em algum dos arquivos .h, então existia um script chamado “meiq” que fazia um “make” (por isso o nome) em background e salvava o resultado em um arquivo que podia ser conferido depois; assim, dava para seguir trabalhando enquanto se compilava, e não se perdia a listagem de erros de compilação se ela fosse grande (mais de 24 linhas…).

Depois de algum tempo, durante o segundo semestre daquele ano, eu precisava fazer o meu trabalho de conclusão na universidade, e acabei aproveitando para fazer algo dentro da Nutec, para o nOffice II e o nTerm Gráfico: eu fiz um módulo para transmissão de imagens (bitmaps) através de linhas seriais, com compressão e correção de erros; seria usado para transmitir imagens do servidor para os terminais, tipicamente usando linhas de 9600 ou 19200bps. Alguns anos depois, esse mesmo código seria usado em um módulo do nOffice II e do nTerm Gráfico (na época, já com os nomes de Nutec Desktop e Iconterm) com o mesmo objetivo, tranferir bitmaps do servidor para o terminal (desde ícones até imagens sendo exibidas em um browser).

Essa história está ficando um pouco longa… qualquer dia desses eu continuo. Se alguém tiver perguntas, curiosidades sobre eventos específicos ou comentários, podem mandar.

Austrália 16 Nov 2004 15:18

É Natal, é Natal…

Sim, eu sei que estou um pouco adiantado. Mas, sabem como é, aqui na Austrália as coisas acontecem mais cedo, por causa do fuso horário…

Falando sério: falta um tempinho para o Natal ainda, mas a gente já está um pouco “no clima”. As grandes lojas de departamentos já estão decoradas para o Natal há quase um mês, e está começando a aparecer decoração nas ruas do centro da cidade. Domingo passado foi a “chegada do Papai Noel” no calçadão do centro, e nessa sexta-feira vai acontecer o acendimento das luzes da árvore de Natal oficial da cidade, ao lado da prefeitura. Como aqui o Halloween não é muito levado a sério e não tem Thanksgiving nem feriado de Finados (nem dia das crianças, na verdade), acho que as lojas acham importante começar a lembrar o pessoal de que “o Natal vem aí” o mais cedo possível; ou seja, em outubro.

E, por conta da distância e da previsível demora dos correios, nós já fizemos todas as nossas compras e já mandamos os presentes para o Brasil; com sorte, eles até vão chegar antes do Natal…

O interessante é que tem feito frio. Não que a gente vá ter um Natal com neve, claro, e imagino que até o fim do ano vai estar fazendo significativamente mais calor, mas ainda assim é peculiar andar pelo centro da cidade todo agasalhado vendo decoração de Natal.

Austrália 15 Nov 2004 12:10

Globalização

Coisas de um mundo globalizado… aqui no escritório, hoje, o tradicional café das 11 da manhã foi acompanhado de wafers da Bauducco. É, “made in Brazil”, mas com uma embalagem toda escrita em inglês. Um dos colegas disse que viu em um supermercado no fim de semana e “tinha de comprar” para experimentar. Estavam bem bons, e baratinhos: 75 cents cada.

Já tínhamos visto panetones da Bauducco em algumas lojas, mas são caros; 10 dólares pelos de 1kg, e uns $2,50 pelos “mini” de cento e poucos gramas. Fora isso, não se vê muitos produtos brasileiros por aqui (fora café), então chamou um pouco a atenção, mas parece que a Bauducco está mesmo apostando no mercado australiano (ou algum australiano está apostando neles…).

Brasil 11 Nov 2004 11:04

O voto, esse desconhecido

Eu andei pensando ultimamente sobre as eleições que aconteceram recentemente no Brasil, nos EUA e aqui. Não no resultado, no entanto; andei pensando sobre o processo (embora os resultados também sejam interessantes).

E cheguei à conclusão de que um dos problemas do sistema no Brasil é que a gente trata o voto como um dever, não um direito. Claro, em todas as eleições aparecem aquelas campanhas falando sobre como votar é um direito do cidadão, que não deve ser desperdiçado, que é um direito democrático e assim por diante. Mas a gente, incluindo o governo e os tribunais eleitorais, não age assim. O melhor exemplo disso, na minha opinião, é o tratamento dado a quem está impossibilitado de votar no dia da eleição. Se, casualmente, você estiver fora da sua cidade de registro, o que acontece? Você é liberado da necessidade de votar, precisando apenas justificar a ausência. Mas, e se você quiser votar? Afinal, é um direito; não deveria deixar de sê-lo só porque você viajou. Você não pode ser “liberado” de um direito, apenas de uma obrigação.

Similarmente, se você estiver doente, você está liberado. Se você for um deficiente físico e o seu local de votação for inacessível para você, você está liberado. Se você trabalha em uma plataforma de petróleo, ou é piloto de avião, ou é astronauta e está em órbita, está liberado. Mas, na prática, essa “liberação” quer dizer que você perdeu o seu direito. Você não tem opção; se você quisesse exercer aquele direito, azar.

O que quero dizer é que, se a gente realmente tratasse o voto como um direito, o sistema de votação deveria fazer o maior esforço possível para garantir que qualquer um que queira votar possa fazê-lo. E não é assim. A única concessão que o sistema faz a pessoas em situações especiais é o caso de brasileiros que residem no exterior (permanentemente, não adianta estar apenas viajando na época da eleição) podendo votar para presidente. Mas, mesmo assim, isso vale apenas para os que podem comparecer ao consulado ou embaixada mais próximo, que nem sempre é tão próximo. É por isso que, mesmo com voto obrigatório, o comparecimento costuma ficar na casa dos 85%; os outros 15% talvez até quisessem votar, mas não podiam. E 15% dos votos é muita coisa.

Comparemos com os EUA, onde o voto não é obrigatório. Quem está fora da sua cidade pode requisitar uma cédula para votar pelo correio; quem está doente e não pode comparecer, idem (certo, nem sempre a cédula chega a tempo, mas isso é um problema de implementação; o sistema existe). Quem está na sua cidade mas não vai poder comparecer no dia (por estar trabalhando, por exemplo) pode votar antes. É possível se registrar para votar até poucos dias antes da eleição. E, se houver algum problema com o seu registro, você ainda assim pode votar provisoriamente, e o seu voto vai ser contado se tudo estiver ok. Não é um sistema infalível, claro, mas, como falei antes, ao menos há a intenção no sistema de que todo mundo que quer votar possa fazê-lo.

Uma comparação melhor talvez seja com a Austrália. Aqui, como no Brasil, o voto é obrigatório. E, diferentemente do Brasil, estar fora da sua cidade não é desculpa; poucas coisas liberam alguém de votar. O comparecimento é de cerca de 96%, em geral. Existem os mesmos sistemas dos EUA: voto pelo correio e voto antecipado, para quem sabe que vai estar impossibilitado de votar. E, além disso, quem está fora do seu estado pode votar normalmente em qualquer ponto de votação, em uma cédula especial (a votação é toda em papel). De maneira geral, quem quer votar vai ter uma maneira de fazê-lo.

Exagero meu? Talvez. Mas, na minha opinião, antes de nos orgulharmos muito de termos um sistema totalmente eletrônico e que dá o resultado em poucas horas, temos que pensar se estamos, realmente, fazendo uma eleição que ouve o que todo mundo tem a dizer; eu acho que 15% é um percentual muito grande de pessoas que, potencialmente, não estão exercendo seu direito. Com um sistema informatizado tão moderno como o que o TSE diz que temos, deveria ser simples permitir, por exemplo, que qualquer pessoa vote em qualquer zona eleitoral e veja os seus candidatos na urna; assim, quem já comparece a uma zona para justificar o voto compareceria, ao invés, para votar. Essa simples medida já atenderia muita gente.

Austrália 03 Nov 2004 23:40

A Copa dos Cavalos

Ontem, dois de novembro, foi feriado aqui no estado de Victoria: Melbourne Cup Day. A tal Melbourne Cup é uma corrida de cavalos, a mais famosa do país e a que paga o maior prêmio (2,7 milhões de dólares para o vencedor desse ano). Mas vamos por partes…

Desde meados de outubro, várias importantes corridas de cavalos acontecem aqui em Melbourne, em algo que se chama coletivamente “Spring Racing Carnival”. São eventos importantes para a “society” de Melbourne, que culminam nos dias próximos à Cup. Amanhã, por exemplo, é “Ladies Day”; sábado passado era o “Derby Day”. Nesse dia nós passamos perto da Flinders Station, a principal estação de trens do centro, e vimos o pessoal se dirigindo para a corrida: homens de terno, mulheres em vestidos brilhantemente coloridos e com chapéus extravagantes. O engraçado era ver todo esse povo com roupas obviamente caríssimas fazendo fila para comprar o tíquete do trem.

Segundo o pessoal local, mais engraçado é ver o público voltando no final do dia; além de assistir os cavalos e apostar, outra atividade tradicional é beber. Aparentemente, as moças parecem menos sofisticadas depois de algumas taças de champanhe…

E engraçado também é o dia da corrida principal ser feriado. Tudo fecha, inclusive órgãos públicos e comércio, e a cidade fica um deserto. Alguém comentou comigo que é porque esse é um dia que reúne as duas paixões dos australianos: esportes e apostas. Há até um movimento para que o dia passe a ser um feriado nacional.

Na universidade (que tecnicamente é um órgão público…) esse feriado não é observado (se troca por um dia extra de folga no final do ano), então eu trabalhei normalmente. Mas havia um certo clima de dia de jogo de Copa do Mundo. No meio da manhã passou gente recolhendo apostas para um “bookmaker” interno (não apostei), e na hora da corrida, 3:10 da tarde, todo mundo parou e foi ver o evento no telão de um anfiteatro. Estava um dia horrível para uma corrida: frio, chovendo forte e ventando muito forte; mas, como o dia havia começado quente e ensolarado, as mulheres que foram à pista estavam vestidas para um dia de primavera, e deviam estar sofrendo muito…

No que pode ser uma metáfora para a eleição americana, ganhou o mesmo cavalo do ano passado, que era justamente o favorito.

Brasil 03 Nov 2004 17:13

Pluralidade?

Pluralidade só vale entre as esquerdas? A Folha de São Paulo está reportando que o Fórum Social Mundial deve sair de Porto Alegre devido à eleição do José Fogaça como prefeito, acabando com o ciclo de 16 anos do PT no governo. Segundo os organizadores, “a mudança das políticas democráticas desenvolvidas em Porto Alegre [...] comprometeria a condição de Porto Alegre como capital do Fórum Social Mundial”. Agora, se não me engano, a mudança de governo foi tão democrática quanto as quatro eleições que o PT ganhou. Ou será que só é democracia quando eles ganham?

Do meu ponto de vista, quanto ao Fórum, a minha reação é “já vai tarde”, apesar de eu não estar mais em Porto Alegre. A bagunça na cidade na semana do fórum era horrível para quem mora e trabalha lá. Mas dizer que é porque o resultado de uma eleição acabou com políticas democráticas, pera lá. Acho que o melhor é começar a fazer o Fórum em Havana, então.

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