Pessoal 25 Nov 2004 16:47
Túnel do tempo II
Continuando a história a partir de onde eu parei… (e voltando um pouco atrás, na verdade)
Em algum momento nos últimos meses de 1993 (não lembro bem quando), eu acabei “ganhando” uma multi-console, e pude parar de incomodar a Andréa a cada teste que eu precisava fazer. Como eu disse antes, eu não lembro exatamente todas as partes do código em que eu trabalhei, mas lembro que uma parte importante era o código que controlava a tela. Em um ambiente gráfico, a escrita na tela era algo bastante importante para a performance, então tínhamos vários algoritmos bem interessantes para otimizar isto. Muitos dos algoritmos tinham a ver com o que era mostrado quando e em que ordem, o que era salvo e como se determinava quando algo precisava ser re-exibido (porque algo saiu de cima, por exemplo); eu trabalhei em partes que ficavam bem mais no “baixo nível”: o código Assembler que colocava imagens na tela e fazia operações com o conteúdo da tela (por exemplo, para mover janelas). “Imagens” aqui é no sentido amplo da palavra, se referindo a qualquer coisa exibida na tela, inclusive texto.
Esse foi um período em que alguns livros e documentos eram “companhia constante” do processo de desenvolvimento. Um era o manual do 80386, publicado pela Intel, que tinha todas as instruções do processador e o “custo” de cada uma (em ciclos de clock). E outros eram a documentação das placas VGA que suportávamos… cada modelo de placa tinha um “jeitinho” de fazer algumas coisas, e tentávamos fazer tudo da melhor maneira possível para ser mais rápido. Na época, as melhores placas eram as Cirrus; para mover coisas na tela, eram as mais rápidas. Lembro bem de ter feito vários testes com programas que usavam diferentes métodos de exibição e movimentação e ter cronometrado cada um para decidir pelo melhor… E na época não tínhamos Internet para consultar toda a documentação online, claro.
Uma lembrança interessante dessa época é a “tradição oral indígena” da Nutec. Não existiam listas internas de e-mail (mas havia e-mail interno), nem repositórios de documentação, nem nada similar; mas havia uma reunião que acontecia todas as semanas, na sala de reuniões do terceiro andar, com a presença de todo o pessoal do dsv, onde cada um contava sobre o que estava fazendo, problemas que tinha, novidades, novas implementações, novos portes, fofocas internas e coisas similares. Não sei exatamente quando isso parou de acontecer, mas acho que foi ainda antes de eu ir para os EUA.
Outra lembrança é a dos almoços no restaurante da Ughini, na Voluntários. O dono do restaurante era amigo do Pretto, e por isso tínhamos algum desconto (não lembro de quanto); por conseqüência, íamos ali quase todos os dias. Mas, em uma sexta-feira por mês (no dia do pagamento?), era dia de almoçar na Sociedade Suíça; esse era dia de festa, de demorar bastante no almoço e de comer demais. Acho que essa era uma tradição que vinha desde o início da Nutec, e sobreviveu por um bom tempo (mas acho que não resistiu à mudança para a Andradas, que se não me engano aconteceu no final de 1994 ou início de 1995).
E outra lembrança interessante é a do “ninho de ratos” que ficava na salinha onde ficava um dos servidores (acho que a “nutecpa”). Ali chegavam os fios de todos os terminais seriais que estavam espalhados pelos dois andares (muita gente tinha terminais nas mesas; era a ferramenta normal de trabalho, da mesma forma que hoje em dia se esperaria que quase todo mundo tivesse um PC na mesa). Lembro de ter passado boa parte de um sábado ali naquele verão “desembaraçando” a fiação junto com a Deby e, se lembro bem, o Fernando Silveira. Quando terminamos estava muito melhor do que quando começamos mas, tristemente, continuava parecendo um ninho de ratos. Ratos um pouco mais organizados, mas ainda ratos.
No final de 1993 eu apresentei o meu trabalho de conclusão da universidade; por questões técnicas, a apresentação foi na Nutec mesmo, e funcionou tudo direitinho (sim, por incrível que pareça). E, com o fim do curso, deixei de ser estagiário! Em janeiro de 1994 fui “efetivado”. Essa ainda era uma época de inflação alta (pré plano Real), e os salários na Nutec eram indexados pelo dólar. Ainda lembro que o meu primeiro salário foi de US$370 por mês, mais vale-refeição (daria pouco mais de R$1000 por mês, na taxa do dólar de hoje).
Ao redor dessa época, ou um pouco depois, houve uma mudança de layout no escritório e a gente (eu, Madeira, acho que a Andréa, talvez mais alguém) nos mudamos para uma sala mais isolada, que ficava ao lado da sala da diretoria. Eu tenho a impressão de que isso aconteceu na época em que o suporte técnico subiu do terceiro para o quarto andar e passou a ocupar a área que antes era do marketing, atrás da minha mesa original. Qual a relação entre esses dois fatos? Bem, o pessoal do suporte atende clientes, e passa bastante tempo no telefone, e por conseqüência faz bastante barulho. O quarto andar era um lugar incrivelmente silencioso antes disso. Logo, a mudança foi justamente para evitar os problemas de concentração causados pelo excesso de barulho. A essa altura duas outras grandes amigas minhas já estavam trabalhando no suporte, junto com a Deby: a Ana, que depois foi para SP, e a Daniela, que até hoje está no Terra (obviamente, não mais no suporte). Em algum momento depois disso, também começou a trabalhar ali o Fernando Silveira, que não muito tempo depois se tornaria o marido da Ana.
No início de 1994, uma das coisas em que eu estava trabalhando era o nTerm; o Waldir, que cuidava dele, havia saído da empresa no final do ano. Eu tenho uma ligeira impressão de que eu estava trabalhando para integrar o nTerm com o PC/TCP para permitir usá-lo como cliente de telnet (como mencionei no texto anterior), mas está me parecendo que era muito cedo para isso. Quero dizer, eu sei que eu trabalhei nisso em algum momento, e a minha impressão é de que foi nessa época, mas pode muito bem ter sido um ano depois.
A propósito, uma outra lembrança dessa época é que aquela sala do fundo era fria! Era pequena, não tinha muita gente e tinha um aparelho de ar-condicionado só para ela. O Fernando não se importava, e no fundo eu também não me importava muito (era melhor do que os 38 graus lá de fora), mas muita gente reclamava.
Em todo caso… em uma bela tarde de março, eu trabalhava tranqüilamente em alguma coisa quando o Alex parou na frente da minha mesa e me perguntou: “tá a fim de passar um mês na Califórnia?” Bom, isso é pergunta que se faça? O que estava acontecendo era que o Paulo Castro ia voltar logo, e se precisava de alguém técnico para ficar lá junto com o Sérgio Pretto e dar suporte aos nossos produtos vendidos lá (além de trabalhar em desenvolvimento, claro). Ah, sim: o Marcelo Lacerda havia voltado dos EUA algum tempo antes, e o diretor “residente” nos EUA nesse momento (e pelos próximos anos) era o Pretto.
Então, passado algum tempo e alguma enrolação com as passagens, ficou tudo pronto (o visto foi fácil; na época ainda existia consulado dos EUA em Porto Alegre, e o visto ficou pronto rapidinho) e eu, que nunca tinha entrado em um avião na vida, embarquei em um vôo da Vasp de Porto Alegre para São Paulo, depois outro (também Vasp) de São Paulo para Los Angeles, e outro da United de Los Angeles a San Francisco. Dos vôos, mesmo, lembro muito pouco, mas lembro de ter levado uma bronca de uma policial no aeroporto de Los Angeles quando fui pedir informações (eu bloqueei o caminho dela na calçada…).
Chegando finalmente em San Francisco, o Pretto e o Paulo Castro me esperavam no aeroporto (era mais ou menos cedo em um domingo, e estava bem mais frio do que eu esperava; uns 15 graus, mais ou menos). Tenho que admitir que uma coisa que me decepcionou um pouco nesse dia foi o carro que se usava lá; era um Geo Metro, que é algo um pouco parecido com um Corsa, mas menor. O nome do carro, claro, se refere ao tamanho dele (brincadeira; acho que o “Metro” é de “metropolitan”, na verdade; mas bem que podia ser).
A Nutec ficava em Mountain View, que fica na região sul da baía de San Francisco; o aeroporto fica no norte, a uns 40 minutos de lá. No caminho para Mountain View o Paulo decidiu “passear” um pouco para me mostrar um pouco da região, e fomos à praia; mais especificamente, fomos a Half Moon Bay. Com a temperatura que estava fazendo, claro, o lugar estava meio vazio, e não muito confortável…
Depois disso, foi-se almoçar (no Sizzler da El Camino Real, acredito) e para casa. E no dia seguinte, segunda-feira, 28/03/1994, era dia de começar a trabalhar na Califórnia.
Mas isso é uma história para outro dia.

