Monthly ArchiveJune 2004



Pessoal 28 Jun 2004 23:24

Biblioteca

Hoje fomos à biblioteca! Fazia muito, muito tempo que eu não ia a uma com a intenção de pegar livros emprestados para ler; tenho que admitir que, nos últimos anos, o meu hábito era comprar os livros que eu queria ler.

A City Library, aqui no centro de Melbourne, abriu há pouco mais de um mês; antes disso, só havia bibliotecas públicas nos subúrbios (existe a State Library, em um prédio enorme, mas ela não empresta livros). E é uma biblioteca ótima; tem uma coleção de ficção e não-ficção muito boa, com livros recentes e muito interessantes. A parte difícil foi escolher o que era que eu queria ler primeiro.

Além disso, ela tem revistas, CDs, DVDs (musicais, filmes e documentários) e fitas de vídeo, tudo disponível para empréstimo (exceto a última edição de cada revista). Também tem terminais para acesso à Internet e salas de leitura. É aberta a todos os residentes da área, e dá para retirar até 30 itens por até três semanas (menos DVDs, que são só por uma semana). E está tudo na Internet; dé para pesquisar o catálogo de casa, reservar o que se quer e só passar lá para retirar quando estiver disponível (caso esteja emprestado para alguém). Também dá para renovar retiradas online e consultar a data de devolução do que se tem em casa.

Depois de muito passear pelos três andares, saí de lá com “Everything’s Eventual”, uma coleção de contos do Stephen King, e “Airframe”, do Michael Crichton. Quase retirei um livro sobre C#, mas já estou lendo dois livros técnicos e preferi deixar para depois. A Cris retirou um CD do Villa-Lobos, um DVD (“Night on Earth”, um filme de 1991 com a Winona Ryder), uma revista e uma fita (de áudio) de um jornalista.

Agora, com licença, vou ler…

Acaso 27 Jun 2004 23:18

Big Phil

Com o gosto (um pouco surpreendente para mim) que os australianos tem por futebol (soccer, aqui), a Eurocopa tem ganho uma bela cobertura na TV. E, com a boa campanha que Portugal vem fazendo, não é de surpreender que se fale bastante da seleção portuguesa.

No entanto, eu achei divertidíssimo quando, hoje à tarde, a SBS passou uma entrevista com o Felipão e o apresentou como “Portugal’s coach, Big Phil Scolari”. O apresentador falou isso com uma naturalidade tão grande que eu não pude evitar e caí na gargalhada.

Quase nem ouvi o que o Big Phil tinha a dizer.

Austrália 26 Jun 2004 00:53

Bancos, medidas e Google

Bancos

Uma das coisas que precisávamos fazer, depois de conseguir onde morar, era abrir conta em banco. Assim, logo que conseguimos um endereço, começamos a pesquisar os bancos que pareciam grandes para ver em qual seria melhor abrir.

O que descobrimos foi que muita coisa é diferente em relação aos bancos brasileiros… existem vários tipos diferentes de contas, com opções e tarifas bem estranhas. Por exemplo, é comum que as contas com tarifas mensais mais baixas tenham um limite bastante baixo de vezes em que se pode usar o cartão em caixas-eletrônicos (ATMs) e para pagar compras (existe um sistema similar ao nosso Redeshop, que se chama EFTPOS – Electronic Funds Transfer at Point Of Sale). Também é bem freqüente que exista uma tarifa para cada cheque escrito, sem uma “franquia” gratuita.

Falando em cheques, descobrimos que muito pouca gente tem talões de cheques aqui. O motivo principal é que, se uma conta tem talão de cheques, qualquer transação na conta (mesmo que não seja com cheque) gera a cobrança de uma “debits tax”, que é similar à nossa CPMF mas com uma alíquota mais alta para transações com valores mais baixos. Se a conta não tem talão, o imposto não incide.

Nós pegamos folhetos e fizemos perguntas nos principais bancos daqui: National Bank, Bank of Melbourne, Commonwealth Bank, HSBC, Australian Unity e ANZ. Esse último a gente vinha pronunciando “ei-en-zee”, até que ouvimos alguém chamando de “ei-en-zed”. Ponto a lembrar: o nome da letra Z, aqui, é como na Inglaterra e Canadá: zed.

De todos eles, os que nos interessaram mais foram o National e o HSBC, que são os dois que tinham contas sem tarifa mensal, sem limite de transações e com rendimento de juros. Acabamos optando pelo HSBC porque, no National, se o saldo caísse abaixo de cinco mil dólares, eles começariam a cobrar uma mensalidade; no HSBC não acontece isso. Além disso, nosso dinheirinho vai render 4,5% ao ano de juros. Sim, eu sei que, comparando com qualquer investimento no Brasil isso não é nada (até caderneta de poupança rende mais que isso), mas aqui essa é uma taxa bem respeitável.

Agora, para abrir a conta, foi complicado. Tivemos que ir ao HSBC quase tantas vezes quantas fomos à Ikea para comprar os móveis… Fomos uma vez, claro, antes de decidir, para pedir informações e pegar folhetos. Depois de decidido, fomos lá em um final de tarde para abrir a conta; já até levamos o formulário preenchido, prontinho. Só não colocamos nenhum número de telefone ali, porque ainda não tínhamos. Pois é, mas sem telefone não dava; “o computador não aceita”. Ok…

Na segunda tentativa, fomos lá em um outro final de tarde, após passar na Telstra para pedir uma linha telefônica; já saímos de lá sabendo o número, então dessa vez estávamos prontos. Infelizmente, já era meio tarde, o atendimento demorou, e não pudemos abrir a conta porque os caixas fecharam e não deu tempo de fazer o depósito inicial…

Na terceira tentativa, finalmente, tudo funcionou! Preenchemos tudo, fizemos o depósito e abrimos a conta. Algumas coisas interessantes: o cartão magnético é entregue na hora (um dos dois; era uma conta conjunta, então teria dois cartões), só que sem nome; assim, tenho um cartão “anônimo” do HSBC. O cartão da Cris já chegou pelo correio, com nome, mas o meu fica sendo esse anônimo mesmo até expirar, em 2007. Outra coisa é que tem um monte de números! Além do número da conta e o da agência (que aqui é um número chamado BSB, que inclui o código do banco e o da agência), tem um PBN (personal banking number), que é enorme e serve de username para o Internet banking e no acesso por telefone, e dois PINs, um para o cartão e outro para Internet. Também ganhamos uma quantidade incrível de papel: folhetos descrevendo tarifas, produtos, leis, regras, sugestões etc.

Outro detalhe importante: como a nossa conta rende juros, o banco precisa ser informado dos nossos Tax File Numbers (TFN, mais ou menos equivalente ao CPF do Brasil); senão, ele retém 48,5% dos juros como imposto na fonte. Quando abrimos a conta ainda não tínhamos os nossos TFNs, mas assim que chegou pelo correio (uns 5 dias depois de pedirmos via web), informamos por telefone.

Depois disso, tudo segue normal, como qualquer outra conta. O uso via web é bem bom, o pagamento de compras com o cartão funciona direitinho (a Cris teve problemas uma vez, mas acredito que a leitora estivesse ruim) e ainda não chegamos a usar os caixas-eletrônicos para fazer saques.

Medidas

Felizmente, aqui se usa o sistema métrico, o que é uma grande vantagem em relação aos EUA: não precisamos ficar pensando em libras, onças, milhas etc. Mas o interessante é que aqui se usa o sistema métrico para *tudo*, até algumas coisas para as quais não estamos acostumados.

Por exemplo, a nossa TV tem uma tela de 51cm, não de 20 polegadas. Peculiarmente, o monitor do computador é de 17 polegadas, e não 43cm.

Talvez mais intrigante, o conteúdo calórico dos alimentos não é em calorias, e sim em kiloJoules! Depois de alguns sustos, achamos um produto que tinha os valores nas duas unidades, e deduzimos que uma caloria (ou kilocaloria, na verdade) era igual a mais ou menos quatro kiloJoules. O Google depois confirmou que são, na verdade, 4,18kJ por caloria.

Google

Falando em Google, nos últimos tive bastante contato com essa empresa… na quinta e sexta da semana passada, um vice-presidente de engenharia e alguns técnicos do Google apresentaram dois eventos aqui em Melbourne. O primeiro, na noite de quinta-feira, era um “recruitment drive”, ou seja, estavam apresentando a empresa, falando sobre o tipo de pessoa que eles contratam e o tipo de trabalho que se faz lá dentro, e tentando achar interessados. O evento não foi muito divulgado fora do meio universitário, acabei descobrindo por acidente e me metendo. Foi bem interessante, e atraiu *muita* gente. Aliás, houve distribuição de brindes antes (camiseta, caneta, chaveiro), e depois da apresentação ainda havia comida de graça :-)

O processo de contratação no Google é bem peculiar. Quem se candidata envia, claro, um currículo. Esse é avaliado apenas por técnicos, e os selecionados como “interessantes” passam por uma pré-entrevista por telefone. Os que continuam parecendo interessantes, então, passam por uma rodada de sete entrevistas em Mountain View, com sete pesquisadores de áreas diferentes da empresa. Esses sete então se reúnem em um “comitê de contratação” e decidem quem deve ser contratado. Isso acontece com contratações para qualquer centro de pesquisa deles, mesmo o de Zurique ou o de Tóquio.

Aliás, circulavam rumores (parcialmente confirmados nessa noite) de que o Google estuda abrir o seu próximo centro aqui em Melbourne, em data a definir, e esse seria um dos motivos dos eventos acontecerem aqui.

E no dia seguinte havia um seminário técnico (mais ou menos técnico, na verdade) em uma universidade, com o mesmo pessoal falando sobre os sistemas e ramos de pesquisa da empresa. Foi apresentada muita coisa que já tinha sido falada no dia anterior, e boa parte do público era o mesmo (vi até algumas pessoas usando as camisetas do dia anterior), mas também houve um público muito grande. Esse seminário foi em um anfiteatro da University of Melbourne, no prédio do Direito (o do dia anterior foi em um hotel). E, depois da apresentação, pizza de graça no prédio da Informática, do outro lado da rua (só foi chato correr até lá na chuva).

Depois disso, outro “contato” interessante que tive com o Google foi adicionar os banners deles ao meu site (como quem está lendo esse texto no blog deve ter percebido). É uma tentativa de ver se o site se paga por si mesmo, mas acho que ele teria que ter muito mais tráfego para isso…

E depois disso ainda acabei ganhando uma conta no GMail, o webmail grátis deles. Não recebi muito e-mail lá ainda, mas a interface é bem agradável, e a forma de organização das mensagens é bem diferente do que se está acostumado (para começo de conversa, não existem folders, mas labels, que funcionam de forma um pouco diferente); a apresentação de threads é meio estranha, e é dificílimo apagar uma mensagem (não existe uma opção de “delete” muito visível). Se alguém quiser me mandar uma mensagem para lá, o endereço é wafonso@gmail.com (acho que colocar um e-mail assim no blog também vai me ajudar a testar o sistema antispam deles…)

Acho que por hoje vou parar por aqui. Na próxima vez, vou falar de coisas do dia-a-dia: as últimas compras, outras coisas sobre o apartamento, idas à feira e como se pronuncia “Adidas”. E um pouco de turismo.

A propósito, a tocha olímpica já passou pelo Rio? Ela passou aqui por Melbourne no segundo fim de semana em que estávamos aqui, mas não fomos assistir. Li comentários dizendo que se via mais as bandeirinhas de publicidade do que a tocha…

Austrália 21 Jun 2004 05:50

Apartamento, Ikea etc.

Bom, eu decidi que o modelo “diário” que eu estava adotando não funciona a partir de um certo ponto. O que pode acontecer (e aconteceu, na prática) é que os textos ficam (a) longos e (b) atrasados em relação ao dia-a-dia. Então vou mudar de estilo e ver o que acontece… vou comentar sobre como estão as coisas no momento, e vou contar do início ao fim algumas histórias das últimas duas semanas que já estão mais do que atrasadas.

Status atual

vista do apartamentoAntes de mais nada, vejamos como as coisas estão. Estamos bem instalados em um apartamento no centro da cidade, já razoavelmente mobiliado com o mínimo essencial. O apartamento já incluía fogão a gás, forno elétrico, microondas, lavadora de louças e lavadora/secadora de roupas (a lavadora e a secadora são o mesmo aparelho). Nós compramos uma geladeira, uma televisão, colchão, sofá, mesas e cadeiras (mais sobre isso no sub-item “Ikea”, abaixo), um computador, uma impressora e várias coisas menores que fazem falta em um apartamento (por exemplo, copos e pratos).

O apartamento tem um quarto, mas é relativamente grande e tem uma bela vista do centro da cidade; também é bem iluminado, pega sol na maior parte da manhã (quando faz sol, bem entendido; ver “Clima”, abaixo). Para quem estiver curioso, o site http://webcam.omni.net.au tem várias webcams mostrando diferentes partes de Melbourne; a câmera número 5 mostra a área onde moramos.

Não temos TV a cabo, nem planos imediatos de ter; na TV aberta pegamos cinco canais, e a programação inclui muito do que passa nos canais Sony e Warner da NET (CSI, CSI Miami, ER, Friends etc.). Além disso, alguns programas locais e muito esporte (rúgbi, corridas, o futebol deles e outras coisas estranhas). As emissoras tem uma nomenclatura interessante: os dois canais públicos (do governo) tem nome, ABC e SBS. Os outros se chamam “7″, “9″ e “10″, que, claro, é também o número do canal. Pelo menos é fácil saber que emissora está em que número.

vista do apartamentoPedimos a instalação de linha telefônica logo que viemos para o apartamento, e foi feita muito rapidamente; em menos de duas horas estava funcionando. Já até recebemos a primeira conta. Junto pedimos o ADSL, mas até agora não foi habilitado… Detalhe: ADSL é caro e, pasmem, tem limite de tráfego. A$ 29,95 por mês para 256kbps com limite de 200MB por mês (acima disso, 15 centavos por MB). Com tráfego ilimitado custa 59,95 por mês, e por ilimitado entenda-se “até 10GB” (se passar disso eles baixam a banda para 28,8kbps).

O que temos feito ultimamente é nos dedicar a procurar emprego. Temos olhado diariamente os sites com anúncios e comprado o jornal para ver os classificados; também temos enviado currículos, e falado com algumas pessoas ao telefone. Assim que tivermos novidades sobre o assunto, com certeza avisaremos todo mundo.

Clima

É tão variado quanto o de Porto Alegre, se não mais. Faz sol, chove, venta, faz sol de novo, fica nublado, faz sol, chove… e isso tudo em uma manhã. Qualquer manhã. A temperatura, por outro lado, é meio estável. Desde que chegamos, quase todos os dias tem tido uma máxima entre os 13 e 15 graus (com uma bela exceção que foi o último domingo) e uma mínima entre 5 e 7. Tem amanhecido lá pelas 7:30 e anoitecido por volta das 17:30.

Etnias

Muitos, muitos, muitos orientais nas ruas. Eu não sei identificar quem é de onde, mas sei que tem muita gente do sudeste asiático (Vietnã, Indonésia, Singapura etc.), muitos chineses e um bom número de japoneses. Muitos vêm para cá para estudar, mas muitos outros já estão bem estabelecidos.

Há também indianos, mas não tantos. Negros, dá para contar nos dedos os que já vimos. O restante tem o tipo físico “europeu clássico”, basicamente, e em geral não temos como saber se são nativos ou imigrantes de países europeus (muitos britânicos migram para cá). Brasileiros, pouquíssimos, ao menos visíveis. Vimos um pessoal falando português no supermercado uns dias atrás, e só (e acho que eram turistas).

Crianças são interessantes porque parecem existir só em dois “modelos”: ou oriental, ou sueco (pele muito branca, bochechas rosadas e cabelo quase transparente). Como não tem tantos adultos com cabelos claros por aqui, acredito que o cabelo delas escureça com o tempo.

Apartamento

Bom, eu prometi contar sobre como foi o fim da busca pelo apartamento. Aconteceu assim: na manhã daquela segunda-feira, 31/05, nós estávamos continuando a maratona de visitas e acabamos vendo um muito bom logo pela manhã. Preenchemos applications, anexamos cópias dos passaportes e dos extratos bancários (do Brasil mesmo, pegos via Internet) e mandamos por fax para a imobiliária.

Andamos mais um pouco e vimos mais alguns, mas nenhum muito bom. Um pouco depois do almoço, lá pelas duas da tarde, ligamos da rua para a imobiliária e ficamos sabendo que tínhamos sido aprovados. O corretor ficou de deixar os papéis no nosso hotel no final da tarde (contrato etc.) para lermos e nos encontrarmos no dia seguinte, no apartamento, para assinar e fechar o negócio.

vista do apartamentoNós lemos tudo durante a noite, e na manhã seguinte fomos a uma agência do governo um pouco similar ao Procon (Consumer Affairs Victoria) com o contrato para esclarecer alguns pontos sobre os quais tínhamos ficado em dúvida (queríamos ter certeza de que não havia nada ali que contrariasse as regras para contratos). Em geral, estava tudo “legal”, e cabia a nós aceitar ou não as cláusulas.

Como realmente não tinha nada muito estranho, nos encontramos com o corretor no apartamento no meio da tarde para assinar tudo e fazer o primeiro pagamento (de 2210 dólares, referente ao aluguel do primeiro mês e o “bond”). Ao assinar, a gente recebeu também uma cópia do “condition report” do apartamento, que descreve o estado atual dele e que vai ser usado quando sairmos para garantir que estamos devolvendo como estava. A partir da data de início do contrato, nós temos três dias para registrar qualquer observação ali e entregar uma cópia para a imobiliária.

Uma vez que nós já tínhamos pago o hotel até o final de semana e ainda era terça-feira, nós pedimos que o aluguel começasse a contar do sábado, dia 5, para minimizar o período em que pagaríamos por duas coisas ao mesmo tempo. O corretor aceitou, e mesmo assim nos entregou as chaves já naquele momento.

Depois disso, ele nos pagou um café e ficamos conversando um pouco. E depois eu e a Cris tínhamos que começar a pensar em mobiliar o apartamento para torná-lo habitável, o que nos leva diretamente ao próximo assunto…

Ikea

Pode não ser uma comparação muito apropriada, mas acho que a melhor forma de descrever a Ikea é como uma Tok&Stok gigante. Quem já esteve em uma Tok&Stok se sente imediatamente “em casa” em uma Ikea. é tudo similar: grandes espaços com ambientes montados, móveis bem projetados, etiquetas de preços em todos os itens, e uma expectativa de que você mesmo leve e monte o que voc comprar.

Nós tentamos ir à loja logo depois de assinar o contrato do apartamento (no mesmo dia), mas subestimamos a distância e, depois de uma looonga caminhada, chegamos à uma loja fechada (como eu já comentei antes, tudo fecha muito cedo aqui…). Acabamos voltando no dia seguinte (dessa vez, usamos os bondes) e comprando várias coisas.

No total, acho que fomos quatro vezes à Ikea até comprar tudo. Na primeira vez, depois de andar por toda a loja (que é enorme), compramos um colchão, um “quilt” (que é mais ou menos um edredon) e peças para montar mesas. Essas últimas merecem uma explicação: no finalzinho da loja, perto dos caixas, existe uma área chamada “bargain corner” onde ficam peças que foram devolvidas ou que têm algum defeito, e que são vendidas por preços mais baixos que o normal. Ali encontramos um topo de mesa ótimo para uma mesa de jantar por meros 4 dólares, e um outro ótimo para uma mesa de trabalho por um pouco mais. Pegamos essas peças, compramos pós e depois montamos em casa duas mesas ótimas.

Como não temos carro, pedimos que as compras fossem entregues em casa, o que custa caro… 59 dólares, independentemente da quantidade de peças (desde que não passe de 150 quilos). Depois, estudando o catálogo da Ikea e pensando nos tais 59 dólares, decidimos perguntar se tinha como adicionar mais coisas ao mesmo lote para entrega sem pagar mais; tinha. Mas como a loja já estava para fechar, ia ter que ser no dia seguinte…

Voltamos lá no outro dia cedinho e, rapidamente, compramos um sofá e duas cadeiras, e ainda conseguimos adicionar ao mesmo lote. Só o que não conseguimos foi a capa do sofá, que não estava disponível e que teríamos que pegar outro dia… Aliás, antes das compras ainda tomamos café da manhã no restaurante da Ikea (baratíssimo, 2,50).

A última excursão à Ikea foi no sábado, quando os outros itens até já tinham sido entregues (chegaram ao apartamento na hora marcada, logo cedo na sexta-feira). Fomos lá só para comprar a capa do sofá, e conseguimos sem muitos problemas.

Um detalhe interessante da Ikea são os nomes dos produtos. A loja é sueca, e me parece que todos os nomes de produtos estão em sueco (ou fingem estar). Assim, o nosso colchão se chama “Sultan Mönsk”; o sofá, “Nikkala”, e a capa, “Gobo”; quase compramos uma cadeira que se chamava “Sarna”, mas acabamos ficando com uma mais simples chamada “Nikki”.

Como este texto está ficando meio longo, vou deixar para falar na próxima vez sobre dois dos assuntos que prometi no último texto, a letra Z e a CPMF; esses dois vão entrar no assunto “bancos”.

Austrália 13 Jun 2004 23:25

30/5 – A caça da casa II

Mais um dia de acordar muito cedo, e isso em pleno domingo. Ainda graças ao fuso, claro. A programação prevista para o dia era mais ou menos a do dia anterior: visitar apartamentos, fazer anotações e bater fotos. E continuava frio.

Só para situar, quando eu falo em frio, eu estou falando em temperaturas entre 7 e 15 graus, mais ou menos, quase sempre com vento (que é o que incomoda mais, na verdade). Todos os lugares fechados têm aquecimento, então só se sente o frio ao ar livre, mesmo, mas é justamente ao ar livre que passaríamos a maior parte do dia. À noite chega a fazer uns 5 graus.

Antes disso, tem algo que eu deveria contar: como é a cidade. O fato é que não vimos muito, na verdade; só a área do centro. Essa área, que tem mais ou menos 10 por 10 quadras, é o que se chama de CBD, Central Business District. Ou, mais comumente, “the city”. É uma área primariamente comercial, com muitos prédios de escritórios, mas com um número crescente de prédios de apartamentos, também. Existem várias construções antigas, mas não existem casas. Apesar de ser o “centro”, é uma área agradável: sem congestionamento de carros, sem multidões muito grandes nas ruas (mas não vazio como Toronto), praticamente sem mendigos (parece haver alguns “regulares”, que estão sempre no mesmo lugar), sem camelôs e sem muitos ônibus: o transporte público aqui consiste principalmente de bondes (“trams”).

Bondes são uma peculiaridade de Melbourne, e deixam o trânsito um pouco mais confuso, já que eles compartilham as ruas com os carros. No centro a maior parte dos pontos de bonde são “protegidos”, com uma área própria para embarque e desembarque, mas existem muitos outros (especialmente fora do centro) em que os passageiros sobem e descem no meio da rua; a regra é que os carros devem dar preferência para os passageiros, e parece funcionar bem. Não há cobrador nos bondes, então em geral se “confia” que todo mundo tenha pago (há alguma fiscalização, mas nunca vi ninguém conferindo os bilhetes). Supostamente, ao entrar no bonde, todo mundo deve passar o bilhete em uma maquininha que “valida”, indica se ainda é valido, mas nem todo mundo faz isso. Também existem máquinas dentro dos bondes que vendem bilhetes (que valem para bondes, ônibus e trens). Um bilhete válido por duas horas custa 3 dólares; um para o dia todo custa 5,80; há também semanais e mensais.

E, falando em carros, outra peculiaridade (do país todo) é que se dirige do outro lado da rua (“mão inglesa”). Nos primeiros dias isso é algo que confunde um pouco, mas em pouco tempo a gente se acostuma a olhar para o lado certo ao cruzar a rua. O que ainda parece um pouco estranho são os carros com a direção no que, para a gente, seria o banco do passageiro. Ainda não tentei dirigir, mas imagino que o maior problema vai ser a tendência a tentar entrar na pista errada ao dobrar à direita ou esquerda…

E, falando em carros e bondes, aqui existe uma regra complicada no trânsito para facilitar a convivência entre esses dois. É o tipo de coisa que é muito mais fácil de mostrar do que de explicar, mas vou tentar… Em ruas com trilhos de bonde no centro, quando um automóvel quer virar à direita em um cruzamento (caso em que ele precisa cruzar os trilhos e a pista oposta; lembre-se, mão inglesa), ele deve se posicionar à esquerda, junto à faixa de segurança da transversal (efetivamente bloqueando o fluxo da transversal, mas isso é ok porque o sinal está fechado nela) e esperar que o sinal feche para ele; quando fechar (e abrir para a transversal), ele faz a curva normalmente, cruzando toda a pista da rua de onde ele veio. Isso é necessário porque, se o carro fosse esperar junto ao centro da pista para fazer a curva, ele bloquearia os trilhos. A manobra se chama “hook turn”, e a sinalização indica que ela deve ser usada dizendo “right turn from left only”.

A estrutura das ruas no centro é um “grid” retangular muito bom, o que facilita bastante a orientação. Existe uma tendência a se ter ruas largas alternando com ruazinhas estreitas, e isso leva a uma interessante nomenclatura: a rua pequena repete o nome da grande, com um “little” na frente. Assim, temos Collins e Little Collins, Lonsdale e Little Lonsdale, William e Little William e assim por diante.

Existem muitas obras grandes acontecendo no centro; a toda hora se passa por lugares em que a calçada ou a rua estão fechadas ou parcialmente fechadas, e existem vários guindastes ajudando a erguer prédios altos. Acredito que seja um bom sinal para a economia local.

A cidade é cortada pelo rio Yarra, que passa logo ao sul da city e desemboca na Port Phillip Bay, que é o pedaço de mar aqui ao lado da cidade. Qualquer coisa fora da city já é um subúrbio; um pouco ao sul fica Southbank (do outro lado do rio); ao leste, Richmond, Yarra, Kew e outros; ao norte, Carlton, Airport West e assim por diante. Detalhe: quando se vê um endereço de alguma coisa na Austrália, e o endereço é de alguma área metropolitana, o que vem antes da sigla do Estado é o subúrbio, não a cidade. Ou seja, “Melbourne, VIC” é só o centro, mesmo. O resto faz parte da área metropolitana de Melbourne, mas é endereçado diretamente e (me parece) é administrativamente independente.

E “VIC” é Victoria, um dos menores estados do país. Não são muitos estados: New South Wales (NSW, onde fica Sydney), Queensland (QLD, onde fica Brisbane), South Australia (SA, Adelaide), West Australia (WA, Perth e quase metade do país, basicamente um grande deserto), Northern Territory (NT), Tasmania (TAS) e o distrito federal, ACT (Australian Capital Territory), que é só Canberra (pronuncia-se com acento na primeira sílaba e com o “e” quase sumindo; algo como “Cânbrra”).

Bom, voltando ao domingo… vimos mais alguns apartamentos no centro, inclusive um muito grande e bom, mas com uma cozinha muito feia. Daí entramos no escritório de uma imobiliária e fomos convidados a ver um apartamento no Southbank; um ônibus nos levaria até lá de graça. Fomos, claro. Foi um passeio curto, e o apartamento era bom, bonito e novinho, com uma bela vista do sul da cidade, mas muito caro.

Aproveitamos que estávamos ali para ir ao escritório da imobiliária que atendia aquela área (no caminho, pegamos mais uma das famosas chuvas de dois minutos que costumam cair por aqui). Fomos atendidos por corretoras muito amigáveis, e acabamos vendo mais um apartamento por ali. Era no térreo, e dava direto para a rua, quase como se fosse uma casa. Tinha até um pequeno jardim cercado, e era bem ensolarado. Era um pouco barulhento, por causa da proximidade da rua, e tinha jeito de ser bem quente no verão, mas ficamos bem interessados e acabamos preenchendo um application form para ele.

Voltamos para o centro a pé mesmo, e fomos tentar ir a outra imobiliária, mas já estava fechada. Almoçamos, portanto, e decidimos voltar para o lado sul para ver mais um apartamento da mesma imobiliária anterior; esse ficava um pouco mais longe, em uma área chamada St. Kilda. O apartamento era normal, sem nada muito excepcional, e por ser um pouco longe do centro, decidimos que não valia a pena.

A esse ponto já estava acabando o dia (tem anoitecido por volta das 17:30), e voltamos para o centro. Aproveitamos o final do dia para passar em algumas lojas de eletrodomésticos e olhar o preço de algumas coisas que possivelmente precisaríamos comprar depois da mudança: geladeira, lavadora, secadora… em geral, são caras… Vimos geladeiras começando em 500 dólares, e lavadoras e secadoras começando em uns 600.

Uma coisa interessante a mencionar… às vezes, algumas coisas peculiares chamam a atenção na primeira vez que vemos, mas não se dá muita bola. Na segunda vez, se pensa “ué, de novo?”. Agora, na terceira, se começa a achar estranho. Pois bem. No nosso primeiro dia aqui, estávamos passando em frente a um McDonald’s e um passarinho passou voando na nossa frente e entrou lá. Achei que fosse acidental e não liguei muito. Outro dia estávamos comendo em um McDonald’s e, lá dentro, dois passarinhos voavam e comiam farelos nas mesas e no chão. Peculiar, pensei. E em outro dia estávamos em um Hungry Jack’s (o nome local do Burger King) no subsolo de um shopping e, novamente, dois passarinhos circulavam pelo local. Até joguei um pedaço de pão para um deles, que pegou logo que caiu e levou embora para comer com calma.

Nos dias seguintes isso se repetiu várias vezes, em shoppings e outros fast-foods. Aparentemente os pássaros daqui aprenderam que esses lugares são quentinhos e têm bastante comida, então são perfeitos para eles. Fico pensando se esses pássaros tem problemas de colesterol alto.

Falando em pássaros, é muito comum ver gaivotas nas ruas, disputando espaço com os pardais e as pombas. Mas ainda não vi nenhuma em um McDonald’s.

E o final do dia foi normal… voltamos para o hotel, comemos e dormimos, novamente muito cedo.

Ah, um detalhe: eletricidade. A corrente aqui é de 240 volts, e a tomada tem sempre três pinos (dois inclinados e um reto, como algumas tomadas de lavadoras de roupa e aparelhos de ar-condicionado no Brasil). Alguns aparelhos que trouxemos tinham plugs no nosso padrão, e pelo menos um (o carregador do Palm) só funciona em 110V. Portanto, trouxemos do Brasil um transformador (comprado baratinho na loja de um chinês) e compramos aqui um adaptador para a tomada. O adaptador funcionou direitinho, mas o transformador… funcionou por uns 15 segundos e depois começou a fazer barulhos que nenhum transformador deveria fazer. Lado bom: aqui, todas as tomadas tem um botão de liga-desliga; assim deu para desligar sem tocar no transformador… Ele saiu da tomada para o lixo.

E por hoje é só. No próximo capítulo, a emocionante conclusão da busca pelo apartamento. Além disso: qual o nome da letra Z e os equivalentes locais da Tok&Stok e da CPMF.

Austrália 13 Jun 2004 22:36

29/5 – A caça da casa

Nosso primeiro sábado em Melbourne começou como um dia lindo: sol, frio e quase nenhuma nuvem no céu. E começou cedo… às seis da manhã estávamos completamente acordados e sem chance de dormir de novo. Efeitos colaterais da mudança de fuso…

Os planos para o dia estavam todos voltados para a busca de apartamento. Então, logo após tomarmos banho (como fazia frio naquele banheiro!), saímos à rua para comprar o jornal. No dia anterior, havíamos ouvido mais de uma recomendação para comprar o jornal de sábado, especificamente o “The Age”, pois nele é que saem os melhores anúncios classificados de imóveis. A compra do jornal, no entanto, se revelou um problema interessante; como era muito cedo (antes das 9), quase tudo estava fechado, inclusive as bancas. Depois de uma boa caminhada e várias bancas fechadas, acabamos perguntando para uma pessoa na rua (que estava com um jornal) e ela nos indicou o 7-11. Lá conseguimos comprar o jornal, e que jornal! É muito grande (em espessura e em, digamos, área; as páginas são maiores do que as dos brasileiros); sábado é o dia “principal” para os jornais aqui: é quando saem os cadernos especiais semanais, catálogos de lojas etc. E os classificados.

Jornal na mão, fomos a um McDonald’s para tomar café e estudar os anúncios. O estilo é um pouco diferente dos anúncios de imóveis a alugar no Brasil; por exemplo, aqui é comum (especialmente para imóveis mobiliados) que um corretor esteja no apartamento em um horário pré-definido para visitações. Pode, inclusive, ser por um período curto; por exemplo, das 11:45 às 12. Assim, fizemos uma lista dos apartamentos interessantes (bom preço, localização e tamanho) que estariam abertos para visitação durante o dia e preparamos um roteiro para tentar ver todos.

Mas antes tínhamos o appointment marcado no dia anterior, para ver um apartamento mobiliado de um quarto. O horário marcado era às 10:30, e ainda precisávamos achar o lugar. Caminhamos um pouco mais do que esperávamos (a numeração anda muuito devagar aqui), mas chegamos lá. O prédio ficava em uma rua estreita próxima a uma estação de trem (a mesma Spencer Station onde o ônibus nos deixou ao virmos do aeroporto) e não muito distante de um estádio de futebol (o que, acho, explicava as várias garrafas vazias que vimos espalhadas pela rua). Aliás, algum dia vou falar mais sobre o que é que eles chamam de futebol aqui.

A corretora chegou um pouco depois e nos levou para ver o lugar. Muito bom, móveis de qualidade, extremamente agradável, uma vista razoável, mas um pouco caro. A propósito, “mobiliado” quer dizer que inclui tudo: móveis, pratos, copos, talheres, eletrodomésticos, roupas de cama… é quase como um hotel, só que sem serviço de quarto. O aluguel desse apartamento era de A$ 340 por semana.

O que nos leva ao assunto dos preços dos aluguéis. O preço anunciado é sempre por semana, mas o pagamento sempre é mensal. O valor mensal não é quatro vezes o valor semanal, como se poderia inocentemente achar. Para se calcular o valor mensal, se multiplica o semanal por 52 (tendo assim o valor anual) e se divide o resultado por 12. Assim, 340 por semana é o mesmo que (arredondando um pouco) A$ 1475 por mês.

O processo de efetivamente alugar é até relativamente simples e mais ou menos igual em qualquer lugar em Victoria. Ao se interessar por um lugar após a visita, você preenche um “application form” (um para cada pessoa que vai morar no lugar), anexa cópias de documentos (de identidade e comprovação de renda) e entrega para a imobiliária. Ela vai avaliar os seus dados e (se houver) o seu histórico de crédito e aluguéis anteriores e, se achar que você é confiável, vai passar os dados para o proprietário, que pode aceitar ou não, por qualquer motivo. Preencher um application form não “reserva” o imóvel, e não há nenhuma garantia de ser aprovado só por ser o primeiro a se inscrever.

Se você for aprovado e ainda quiser o imóvel, o passo seguinte é assinar um “lease agreement”, que é o contrato propriamente dito, e fazer um pagamento que é geralmente igual ao valor de dois meses de aluguel. Metade desse valor é o aluguel do primeiro mês, e a outra metade age como uma caução (é chamada de “bond”): ela vai para um órgão do governo e, ao final do aluguel, vai ser devolvida ou usada (total ou parcialmente) para cobrir o conserto de danos causados ao imóvel. Não existe a figura do fiador, nem seguro-fiança, nem nada similar. Todos esses documentos (application form, lease agreement) são relativamente padronizados e descritos na legislação que controla aluguéis.

Falando em legislação, existe um folheto (muito bom) editado pelo governo que “resume” a lei e explica quais são os deveres e direitos do proprietário e do inquilino, além de responder às dúvidas mais comuns. O corretor precisa dar uma cópia desse folheto para o inquilino antes da assinatura do contrato, senão ele paga uma multa de A$ 500.

Um detalhe importante é o prazo do contrato. Se o aluguel for, por exemplo, por 12 meses, e o inquilino quiser (ou precisar) sair antes, ele deve continuar pagando o aluguel até o fim do contrato ou até encontrar alguém aceitável para assumir o seu lugar. A imobiliária pode ajudar a encontrar alguém, mas nesse caso é preciso pagar qualquer despesa que eles tenham, inclusive de anúncios.

Bom, e o resto do dia foi passado nesse processo de ir a prédios, falar com corretores e visitar apartamentos. Vimos vários, alguns mobiliados e outros não. Os não mobiliados geralmente incluem alguns itens de cozinha e lavanderia: fogão, forno, microondas, lavadora de louças, lavadora e secadora de roupas, ou algum subconjunto desses itens. Geladeira geralmente não é incluída, acho que vimos apenas um apartamento que tinha (fora os mobiliados, claro). Além disso, alguns tem vaga na garagem, outros não, e em alguns o valor do aluguel inclui o consumo de água, luz e/ou gás.

Para nos organizarmos um pouco e não precisarmos ficar lembrando de tudo, fomos preparados: fizemos um “questionário” no Palm, que preenchíamos com vários dados importantes sobre o apartamento (o que estava incluído, quando pegava sol, qual a área, se tinha carpete etc.), e tirávamos várias fotos de cada um com a câmera digital, para comparar mais tarde. Falando em área, isso é algo que recebe pouca importância aqui; quase nunca aparece no anúncio, e muitas vezes nem o corretor sabia.

Da série “detalhes peculiares”: duas vezes no mesmo dia eu casualmente olhei para o chão, vi algo brilhando, e acabei achando uma moeda de 5 centavos. Ou seja, no meu primeiro dia no país, já ganhei algum dinheirinho!

No final do dia, acabamos encontrando um supermercado perto do hotel (chamado Safeway); também achamos uma loja de “variedades” estilo Americanas, chamada Big W (depois descobrimos que os dois pertencem à mesma rede). Andamos bastante pelo supermercado olhando tudo, e em geral achamos as coisas um pouco caras, especialmente ao converter os preços para real. Vale aquilo que cheguei a comentar com algumas pessoas antes da viagem: o valor numérico dos preços aqui é mais ou menos o mesmo do Brasil, mas infelizmente a moeda vale mais. Por exemplo, uma garrafa de Coca-Cola, que no Brasil custa uns R$ 2, aqui custa uns A$ 2.

No supermercado, graças à famosa globalização, não tivemos muitas surpresas: vimos muitas marcas familiares por todos os lados. Omo, Nestlé, Yoplait, Coca-Cola (e família), Hellman’s, Nescafé etc. Mas claro que tem suas diferenças. Aqui se vende iogurte em potes de um quilo, por exemplo. Existe Fanta de maracujá. Praticamente não existem produtos light ou diet. E, para a nossa sorte, há os produtos “genéricos”.

Na verdade, são produtos de uma marca própria do supermercado (se chama “Home Brand”); são bem mais baratos que os produtos normais, e quase sempre são de qualidade similar. Eu chamei de genéricos porque eles vêm em embalagens bem simples, completamente brancas, apenas com o nome do produto em letras grandes: “Laundry Powder” (sabão em pó), ou “Softener” (amaciante), ou “Chicken Nuggets”, ou “Orange Juice”, ou “Diet Lemonade” (refrigerante de limão diet) etc. Temos comprado muitos produtos desses (todos que podemos, na verdade), e não temos nos decepcionado. Verdade que a “diet lemonade”, quando quente, tem um ligeiro sabor de detergente para louças, mas quando gelada isso some. Só a maionese é que não é boa, tem uma consistência estranha e um sabor meio adocicado. Detalhe: eles dizem que, se algum produto não for satisfatório, ele pode ser devolvido e eles devolvem o dinheiro. Vamos testar isso com a maionese…

Fizemos várias compras (principalmente de comestíveis) e voltamos para o hotel. Antes disso, no caixa, conhecemos mais um detalhe da vida aqui: o arredondamento de preços.

Vejam, não existe moeda de um centavo; a menor é a de cinco. Mas existem preços como 4,97 ou 1,99. Como se faz? Se arredonda para o múltiplo de cinco mais próximo. Os exemplos que dei ficariam, arredondados, em 4,95 e 2,00, respectivamente (ou seja, pode arredondar para cima ou para baixo). E a máquina registradora faz isso sozinha, aparece na nota um item chamado “rounding” com um valor positivo ou negativo de alguns centavos. Lição do dia, portanto: escolha bem as compras para que, na soma, o arredondamento seja sempre para baixo…

Tocando no assunto, também não existe nota de um dólar; qualquer valor abaixo de A$ 5 só existe em moedas. Há moedas de 1 e 2 dólares, e de 5, 10, 20 e 50 centavos. Notas, de 5, 10, 20, 50 e 100 dólares.

Bom, esse foi o fim de mais um dia. Voltamos para o hotel, comemos, lemos um pouco e dormimos, de novo muito cedo.

No próximo capítulo, a continuação da busca pelo apartamento perfeito. Além disso: os pássaros que comem fast-food, como virar à direita no centro da cidade, ruas grandes e pequenas e, finalmente, algo que tenho negligenciado vergonhosamente: como é a cidade, afinal de contas.

Austrália 08 Jun 2004 21:20

26 a 28/05 – A Viagem

Pensei em vários títulos para este texto: a noite sem fim, a quinta-feira que desapareceu, meia volta ao mundo em 12 horas… acabei optando por algo um pouco mais sério :-)

Então, vamos ao que interessa: como foi o processo de sair de São Paulo e chegar a Melbourne, em uma pequena maratona de vôos. O primeiro vôo saía de Guarulhos às 16h30 do dia 26, com destino a Santiago, no Chile. Começamos saindo cedo de casa, lá pelas 12h30, para evitar surpresas no trânsito de São Paulo e ter tempo para fazer o check-in com calma.

Em Guarulhos, tudo ocorreu mais ou menos como sempre; nada muito extraordinário. Os pais da Cris e um casal de amigos foram conosco até lá, então tivemos várias despedidas ao entrar na área de embarque (antes disso, aproveitamos para gastar os últimos reais que tínhamos no bolso na Casa do Pão de Queijo). De maneira geral, foi um “processo” fácil e agradável.

O vôo saiu mais ou menos no horário certo; a companhia aérea era a Lan Chile. O avião estava (felizmente) relativamente vazio, mas os assentos eram bem apertados, ao menos do ponto de vista das minhas pernas. Detalhe agradável: cada assento tinha um monitor de vídeo, em que se podia escolher qual filme assistir (podendo parar e avançar à vontade) ou mesmo selecionar algum vídeo-game (havia Tetris, jogos de cartas, campo minado, forca e outros); o controle remoto se soltava do braço da cadeira (ligado apenas por um fio) e virava o controle do jogo. Dava também para ver as informações do vôo (aquele mapinha mostrando a posição atual do avião, altitude, temperatura).

Outro detalhe interessante é que a Lan Chile não confia nos seus passageiros. Os cobertores distribuídos a bordo tinham, todos, etiquetas de alarme como as usadas em lojas de roupas.

Aproveitei as cinco horas de vôo para ler um pouco; eu havia levado um livro e várias revistas para me ocupar nas inúmeras horas de vôo. Mas aqueles vídeos individuais distraem muito. Li umas 50 páginas do livro, e as revistas não foram lidas até hoje.

No Chile havia troca de avião e várias horas de espera; ao desembarcar, fomos encaminhados diretamente para a área de embarque internacional, onde felizmente existiam lojas, restaurantes e lanchonetes; infelizmente, não tínhamos um centavo em dinheiro chileno, claro. Logo ao chegar ao terminal, algumas vistas conhecidas: um estande todo laranja com o logo do Terra por toda parte, vendendo 15 minutos de acesso à Internet por US$ 1,20. Ainda vi cartazes anunciando o Speedy Wi-Fi no aeroporto e CDs do “Terra Libre” sendo distribuidos.

Acabei lanchando algo no Dunkin Donuts (aceitava cartão), e depois ficamos esperando o próximo vôo. E esperando. E esperando. Mais ou menos no horário previsto para embarque, avisaram que por “problemas técnicos” o vôo iria atrasar (o que era mais ou menos óbvio, já que o avião nem tinha estacionado), e dariam uma previsão em uma hora. Mas acabaram chamando para o embarque antes disso. Saímos mais ou menos uma hora atrasados (mas chegamos a Sydney no horário certo; o piloto deve ter acelerado um pouco no caminho).

O vôo, de novo da Lan Chile, estava bem mais cheio que o primeiro. O assento tinha um pouco mais de espaço para as pernas (a palavra-chave sendo “pouco”), e estavam disponíveis os mesmos vídeos do outro avião. A jornada foi longa. Doze horas, todas à noite, graças às mudanças de fuso no caminho e ao fato de estarmos quase no inverno. Por causa disso, foi uma noite muito longa: para nós, anoiteceu lá pelas 18 horas, a caminho do Chile, e amanheceu umas 20 horas depois, entre a Nova Zelândia e a Austrália.

Antes da viagem eu comentei com várias pessoas que o vôo não era tão longo, já que o maior trecho tinha cerca de 12 horas. E isso é verdade. O problema, no entanto, é que antes dessas 12 horas há outras cinco, depois mais três (Auckland-Sydney) e mais 1h30 (Sydney-Melbourne). No total é um vôo bem cansativo. Não que eu esteja querendo desencorajar visitas, claro.

Detalhe: o tal vôo transpolar, na verdade, não passa nem perto do pólo. Nem sequer sobrevoa a Antártida. O caminho mais curto de Santiago a Auckland é todo sobre o Pacífico, apesar de chegar bem perto do continente.

Mas, voltando à viagem, depois de muito tempo, ganhamos um café da manhã e chegamos a Auckland. Lá não havia troca de avião, mas desembarcamos por uma hora enquanto o avião era limpo. Na saída, fomos gentilmente farejados por um cachorro policial muito simpático (procurando drogas, acredito) e depois pudemos passear um pouco. Em frente ao portão de embarque havia uma loja de produtos típicos da Nova Zelândia que, para minha decepção, não vendia nenhuma mercadoria relacionada ao “Senhor dos Anéis” (oferecia mel, itens com lã de ovelha, bebidas…). É interessante mencionar que a Nova Zelândia é um país bilíngüe: os avisos do governo são todos em inglês e na língua dos aborígines. Vimos isso, por exemplo, em um painel que mostrava vários exemplos de produtos cuja importação é proibida.

Tanto a Nova Zelândia quanto a Austrália, a propósito, são muito rigorosos quanto à importação de produtos animais e vegetais. Eles levam a sério a idéia de evitar que doenças de outras áreas do mundo cheguem aqui, e também que espécies animais ou vegetais “estrangeiras” afetem o equilíbrio ecológico.

Bom, depois dessa pausa, mais três horas de vôo e chegamos a Sydney em uma linda manhã de sol. O piloto fez uma bela passagem sobre a cidade, e pudemos ver os vários pontos turísticos do alto. Daí foi tudo muito simples: desembarque, fila da imigração, mais um cachorrinho, um atendimento rápido por uma velhinha simpática, e havíamos chegado! Depois disso foi só pegar as malas (70 quilos), passar pela alfândega e pelo raio-X, fazer um rápido check-in para o próximo vôo e pegar um ônibus para o terminal doméstico, onde ainda esperamos por uns 20 minutos até o embarque.

Outro detalhe interessante: logo que chegamos ao portão de embarque, uma TV ligada exibiu aquele comercial da Nike com as seleções do Brasil e de Portugal, com Ronaldinho, Roberto Carlos, Figo… Logo depois veio uma chamada da versão local do “Big Brother”.

Mais 1h30 de vôo e estávamos em Melbourne, onde chovia e fazia frio. Pegamos as malas, mas não pegamos carrinhos, porque são pagos. Isso tornou tudo um pouco mais desconfortável, porque tínhamos várias malas, e uma delas estava *bem* pesada…

A primeira coisa a fazer era conseguir um pouco de dinheiro local; troquei um traveller cheque de A$ 100 (por A$ 93 em dinheiro, graças à comissão cobrada no aeroporto…). Depois compramos um cartão telefônico, ligamos para os nossos pais no Brasil para dizer que tínhamos chegado vivos e bem (era meio-dia de sexta-feira aqui, 23h de quinta no Brasil) e compramos os tíquetes para o ônibus que nos levaria ao centro (A$ 13 cada um). Nesse meio tempo consegui um carrinho de bagagem abandonado, que ajudou muito no transporte das malas.

No ônibus para o centro, transcorreu tudo bem (apesar das várias dificuldades para embarcar com as malas); ele nos levou até a Spencer Station, uma estação de trem bem central. De lá pegamos um micro-ônibus grátis que faz o roteiro dos hotéis, e ele nos deixou em frente ao nosso. Fizemos reservas para dez dias em um “hostel”, albergue de “backpackers” (Toad Hall Hotel, 441 Elizabeth Street); tínhamos um quarto privativo, mas com banheiro e banho compartilhados, e sem amenidades como TV ou telefone no quarto (havia TVs em uma sala de estar e na cozinha, e telefones públicos em cada andar). E, como descobrimos ao chegar, sem elevador.

Depois de escalar 43 degraus com um pouco mais de 70 kg de malas e descansar um pouco, saímos para explorar um pouco os arredores, conseguir mais dinheiro e comer algo. A parte do dinheiro foi fácil, já que havia um escritório da American Express relativamente perto do hotel e lá era possível trocar os traveller cheques sem comissão (descobri isso ligando para o 1-800 da Amex do aeroporto).

E a busca por comida nos levou ao local óbvio: McDonald’s. O cardápio é muito similar ao do Brasil; o único sanduíche que parecia “típico” daqui é um que se chama McOz. Escolhi esse, mesmo sem saber como seria. Nas primeiras mordidas, parecia com o McMax vendido no Brasil: alface, tomate, maionese… Um pouco depois apareceu o ingrediente inesperado: beterraba. Sim, o sanduíche tem fatias de beterraba. Aparentemente é algo local, mesmo. E não fica ruim, na verdade. Mas não pedi esse sanduíche de novo.

Alimentados e surpreendentemente pouco sonolentos, fomos atrás do nosso primeiro objetivo: achar lugar para morar. Achamos anúncios com endereços de imobiliárias e fomos atrás delas. Em uma, conseguimos marcar um horário na manhã seguinte para visitar um apartamento. Em outra, conversamos com um cara de sotaque fortíssimo e pegamos uma listagem de apartamentos disponíveis. E aí então “batemos” no problema de que, aqui, quase tudo fecha às 17h (incluindo lojas, mesmo algumas em shoppings).

Pegamos um pouco de chuva no caminho de volta para o hotel (muito pouco; aqui parece chover em blocos de dois minutos), e fomos procurar onde comprar algo para comer. Não achamos nenhum supermercado por perto, então compramos sanduíches no Subway e bebidas em uma 7-11 (loja de conveniência, fica aberta 24 horas; há várias no centro). Voltamos para o hotel, comemos, e basicamente desmaiamos de sono.

Na próxima parte: nosso primeiro sábado de sol, como funcionam aluguéis e como se vive em um país sem moedas de 1 centavo.

Austrália 07 Jun 2004 16:08

Ping

Sim, continuo vivo!

A viagem foi longa :-) Mas foi tudo ok. A primeira semana é que passou meio voando, com a quantidade de coisas por fazer. Agora, finalmente, quase tudo está organizado… apartamento alugado e lentamente sendo mobiliado (não vem com tantos eletrodomésticos quanto nos EUA, tive que comprar uma geladeira), telefone funcionando e ADSL contratado :-) A linha telefônica foi instalada em uma hora e meia, mas o ADSL vai demorar uma semana… estou usando um CD de 30 dias grátis de um provedor de dial-up, por enquanto.

Só estou mandando essa mensagem para dar um sinal de vida; fiz várias anotações sobre os primeiros dias, e depois vou escrever com mais detalhes. Nem deu muito tempo de fazer turismo, ainda. O único detalhe interessante é que tem feito um belo frio, e o tempo aqui é mais imprevisível que o de Porto Alegre. Fora isso, tudo ok.

Quem quiser o meu novo endereço e/ou telefone, mande um e-mail que eu respondo rapidinho.