Austrália 13 Jun 2004 23:25

30/5 – A caça da casa II

Mais um dia de acordar muito cedo, e isso em pleno domingo. Ainda graças ao fuso, claro. A programação prevista para o dia era mais ou menos a do dia anterior: visitar apartamentos, fazer anotações e bater fotos. E continuava frio.

Só para situar, quando eu falo em frio, eu estou falando em temperaturas entre 7 e 15 graus, mais ou menos, quase sempre com vento (que é o que incomoda mais, na verdade). Todos os lugares fechados têm aquecimento, então só se sente o frio ao ar livre, mesmo, mas é justamente ao ar livre que passaríamos a maior parte do dia. À noite chega a fazer uns 5 graus.

Antes disso, tem algo que eu deveria contar: como é a cidade. O fato é que não vimos muito, na verdade; só a área do centro. Essa área, que tem mais ou menos 10 por 10 quadras, é o que se chama de CBD, Central Business District. Ou, mais comumente, “the city”. É uma área primariamente comercial, com muitos prédios de escritórios, mas com um número crescente de prédios de apartamentos, também. Existem várias construções antigas, mas não existem casas. Apesar de ser o “centro”, é uma área agradável: sem congestionamento de carros, sem multidões muito grandes nas ruas (mas não vazio como Toronto), praticamente sem mendigos (parece haver alguns “regulares”, que estão sempre no mesmo lugar), sem camelôs e sem muitos ônibus: o transporte público aqui consiste principalmente de bondes (“trams”).

Bondes são uma peculiaridade de Melbourne, e deixam o trânsito um pouco mais confuso, já que eles compartilham as ruas com os carros. No centro a maior parte dos pontos de bonde são “protegidos”, com uma área própria para embarque e desembarque, mas existem muitos outros (especialmente fora do centro) em que os passageiros sobem e descem no meio da rua; a regra é que os carros devem dar preferência para os passageiros, e parece funcionar bem. Não há cobrador nos bondes, então em geral se “confia” que todo mundo tenha pago (há alguma fiscalização, mas nunca vi ninguém conferindo os bilhetes). Supostamente, ao entrar no bonde, todo mundo deve passar o bilhete em uma maquininha que “valida”, indica se ainda é valido, mas nem todo mundo faz isso. Também existem máquinas dentro dos bondes que vendem bilhetes (que valem para bondes, ônibus e trens). Um bilhete válido por duas horas custa 3 dólares; um para o dia todo custa 5,80; há também semanais e mensais.

E, falando em carros, outra peculiaridade (do país todo) é que se dirige do outro lado da rua (“mão inglesa”). Nos primeiros dias isso é algo que confunde um pouco, mas em pouco tempo a gente se acostuma a olhar para o lado certo ao cruzar a rua. O que ainda parece um pouco estranho são os carros com a direção no que, para a gente, seria o banco do passageiro. Ainda não tentei dirigir, mas imagino que o maior problema vai ser a tendência a tentar entrar na pista errada ao dobrar à direita ou esquerda…

E, falando em carros e bondes, aqui existe uma regra complicada no trânsito para facilitar a convivência entre esses dois. É o tipo de coisa que é muito mais fácil de mostrar do que de explicar, mas vou tentar… Em ruas com trilhos de bonde no centro, quando um automóvel quer virar à direita em um cruzamento (caso em que ele precisa cruzar os trilhos e a pista oposta; lembre-se, mão inglesa), ele deve se posicionar à esquerda, junto à faixa de segurança da transversal (efetivamente bloqueando o fluxo da transversal, mas isso é ok porque o sinal está fechado nela) e esperar que o sinal feche para ele; quando fechar (e abrir para a transversal), ele faz a curva normalmente, cruzando toda a pista da rua de onde ele veio. Isso é necessário porque, se o carro fosse esperar junto ao centro da pista para fazer a curva, ele bloquearia os trilhos. A manobra se chama “hook turn”, e a sinalização indica que ela deve ser usada dizendo “right turn from left only”.

A estrutura das ruas no centro é um “grid” retangular muito bom, o que facilita bastante a orientação. Existe uma tendência a se ter ruas largas alternando com ruazinhas estreitas, e isso leva a uma interessante nomenclatura: a rua pequena repete o nome da grande, com um “little” na frente. Assim, temos Collins e Little Collins, Lonsdale e Little Lonsdale, William e Little William e assim por diante.

Existem muitas obras grandes acontecendo no centro; a toda hora se passa por lugares em que a calçada ou a rua estão fechadas ou parcialmente fechadas, e existem vários guindastes ajudando a erguer prédios altos. Acredito que seja um bom sinal para a economia local.

A cidade é cortada pelo rio Yarra, que passa logo ao sul da city e desemboca na Port Phillip Bay, que é o pedaço de mar aqui ao lado da cidade. Qualquer coisa fora da city já é um subúrbio; um pouco ao sul fica Southbank (do outro lado do rio); ao leste, Richmond, Yarra, Kew e outros; ao norte, Carlton, Airport West e assim por diante. Detalhe: quando se vê um endereço de alguma coisa na Austrália, e o endereço é de alguma área metropolitana, o que vem antes da sigla do Estado é o subúrbio, não a cidade. Ou seja, “Melbourne, VIC” é só o centro, mesmo. O resto faz parte da área metropolitana de Melbourne, mas é endereçado diretamente e (me parece) é administrativamente independente.

E “VIC” é Victoria, um dos menores estados do país. Não são muitos estados: New South Wales (NSW, onde fica Sydney), Queensland (QLD, onde fica Brisbane), South Australia (SA, Adelaide), West Australia (WA, Perth e quase metade do país, basicamente um grande deserto), Northern Territory (NT), Tasmania (TAS) e o distrito federal, ACT (Australian Capital Territory), que é só Canberra (pronuncia-se com acento na primeira sílaba e com o “e” quase sumindo; algo como “Cânbrra”).

Bom, voltando ao domingo… vimos mais alguns apartamentos no centro, inclusive um muito grande e bom, mas com uma cozinha muito feia. Daí entramos no escritório de uma imobiliária e fomos convidados a ver um apartamento no Southbank; um ônibus nos levaria até lá de graça. Fomos, claro. Foi um passeio curto, e o apartamento era bom, bonito e novinho, com uma bela vista do sul da cidade, mas muito caro.

Aproveitamos que estávamos ali para ir ao escritório da imobiliária que atendia aquela área (no caminho, pegamos mais uma das famosas chuvas de dois minutos que costumam cair por aqui). Fomos atendidos por corretoras muito amigáveis, e acabamos vendo mais um apartamento por ali. Era no térreo, e dava direto para a rua, quase como se fosse uma casa. Tinha até um pequeno jardim cercado, e era bem ensolarado. Era um pouco barulhento, por causa da proximidade da rua, e tinha jeito de ser bem quente no verão, mas ficamos bem interessados e acabamos preenchendo um application form para ele.

Voltamos para o centro a pé mesmo, e fomos tentar ir a outra imobiliária, mas já estava fechada. Almoçamos, portanto, e decidimos voltar para o lado sul para ver mais um apartamento da mesma imobiliária anterior; esse ficava um pouco mais longe, em uma área chamada St. Kilda. O apartamento era normal, sem nada muito excepcional, e por ser um pouco longe do centro, decidimos que não valia a pena.

A esse ponto já estava acabando o dia (tem anoitecido por volta das 17:30), e voltamos para o centro. Aproveitamos o final do dia para passar em algumas lojas de eletrodomésticos e olhar o preço de algumas coisas que possivelmente precisaríamos comprar depois da mudança: geladeira, lavadora, secadora… em geral, são caras… Vimos geladeiras começando em 500 dólares, e lavadoras e secadoras começando em uns 600.

Uma coisa interessante a mencionar… às vezes, algumas coisas peculiares chamam a atenção na primeira vez que vemos, mas não se dá muita bola. Na segunda vez, se pensa “ué, de novo?”. Agora, na terceira, se começa a achar estranho. Pois bem. No nosso primeiro dia aqui, estávamos passando em frente a um McDonald’s e um passarinho passou voando na nossa frente e entrou lá. Achei que fosse acidental e não liguei muito. Outro dia estávamos comendo em um McDonald’s e, lá dentro, dois passarinhos voavam e comiam farelos nas mesas e no chão. Peculiar, pensei. E em outro dia estávamos em um Hungry Jack’s (o nome local do Burger King) no subsolo de um shopping e, novamente, dois passarinhos circulavam pelo local. Até joguei um pedaço de pão para um deles, que pegou logo que caiu e levou embora para comer com calma.

Nos dias seguintes isso se repetiu várias vezes, em shoppings e outros fast-foods. Aparentemente os pássaros daqui aprenderam que esses lugares são quentinhos e têm bastante comida, então são perfeitos para eles. Fico pensando se esses pássaros tem problemas de colesterol alto.

Falando em pássaros, é muito comum ver gaivotas nas ruas, disputando espaço com os pardais e as pombas. Mas ainda não vi nenhuma em um McDonald’s.

E o final do dia foi normal… voltamos para o hotel, comemos e dormimos, novamente muito cedo.

Ah, um detalhe: eletricidade. A corrente aqui é de 240 volts, e a tomada tem sempre três pinos (dois inclinados e um reto, como algumas tomadas de lavadoras de roupa e aparelhos de ar-condicionado no Brasil). Alguns aparelhos que trouxemos tinham plugs no nosso padrão, e pelo menos um (o carregador do Palm) só funciona em 110V. Portanto, trouxemos do Brasil um transformador (comprado baratinho na loja de um chinês) e compramos aqui um adaptador para a tomada. O adaptador funcionou direitinho, mas o transformador… funcionou por uns 15 segundos e depois começou a fazer barulhos que nenhum transformador deveria fazer. Lado bom: aqui, todas as tomadas tem um botão de liga-desliga; assim deu para desligar sem tocar no transformador… Ele saiu da tomada para o lixo.

E por hoje é só. No próximo capítulo, a emocionante conclusão da busca pelo apartamento. Além disso: qual o nome da letra Z e os equivalentes locais da Tok&Stok e da CPMF.

2 Responses to “30/5 – A caça da casa II”

  1. on 05 Dec 2006 at 00:24:21 1.Rafaella said …

    Voce pode me ajudar?
    Acabei de chegar na australia e nao tenho adaptadores de tomada, onde posso acha-los?
    Ha deles em supermercados?
    Obrigada

  2. on 05 Dec 2006 at 08:45:18 2.Wilson said …

    Sim, você deve conseguir adaptadores em supermercados grandes, ou em lojas de utilidades (aquelas lojas de chineses que têm em cidades grandes; não sei onde você está…).

    Falhando isso, procure uma loja chamada “Dick Smith”. Lá com certeza vai ter o tipo de adaptador que você precisa, eles têm todo tipo de equipamento elétrico e eletrônico.

    Boa sorte!