Austrália 13 Jun 2004 22:36
29/5 – A caça da casa
Nosso primeiro sábado em Melbourne começou como um dia lindo: sol, frio e quase nenhuma nuvem no céu. E começou cedo… às seis da manhã estávamos completamente acordados e sem chance de dormir de novo. Efeitos colaterais da mudança de fuso…
Os planos para o dia estavam todos voltados para a busca de apartamento. Então, logo após tomarmos banho (como fazia frio naquele banheiro!), saímos à rua para comprar o jornal. No dia anterior, havíamos ouvido mais de uma recomendação para comprar o jornal de sábado, especificamente o “The Age”, pois nele é que saem os melhores anúncios classificados de imóveis. A compra do jornal, no entanto, se revelou um problema interessante; como era muito cedo (antes das 9), quase tudo estava fechado, inclusive as bancas. Depois de uma boa caminhada e várias bancas fechadas, acabamos perguntando para uma pessoa na rua (que estava com um jornal) e ela nos indicou o 7-11. Lá conseguimos comprar o jornal, e que jornal! É muito grande (em espessura e em, digamos, área; as páginas são maiores do que as dos brasileiros); sábado é o dia “principal” para os jornais aqui: é quando saem os cadernos especiais semanais, catálogos de lojas etc. E os classificados.
Jornal na mão, fomos a um McDonald’s para tomar café e estudar os anúncios. O estilo é um pouco diferente dos anúncios de imóveis a alugar no Brasil; por exemplo, aqui é comum (especialmente para imóveis mobiliados) que um corretor esteja no apartamento em um horário pré-definido para visitações. Pode, inclusive, ser por um período curto; por exemplo, das 11:45 às 12. Assim, fizemos uma lista dos apartamentos interessantes (bom preço, localização e tamanho) que estariam abertos para visitação durante o dia e preparamos um roteiro para tentar ver todos.
Mas antes tínhamos o appointment marcado no dia anterior, para ver um apartamento mobiliado de um quarto. O horário marcado era às 10:30, e ainda precisávamos achar o lugar. Caminhamos um pouco mais do que esperávamos (a numeração anda muuito devagar aqui), mas chegamos lá. O prédio ficava em uma rua estreita próxima a uma estação de trem (a mesma Spencer Station onde o ônibus nos deixou ao virmos do aeroporto) e não muito distante de um estádio de futebol (o que, acho, explicava as várias garrafas vazias que vimos espalhadas pela rua). Aliás, algum dia vou falar mais sobre o que é que eles chamam de futebol aqui.
A corretora chegou um pouco depois e nos levou para ver o lugar. Muito bom, móveis de qualidade, extremamente agradável, uma vista razoável, mas um pouco caro. A propósito, “mobiliado” quer dizer que inclui tudo: móveis, pratos, copos, talheres, eletrodomésticos, roupas de cama… é quase como um hotel, só que sem serviço de quarto. O aluguel desse apartamento era de A$ 340 por semana.
O que nos leva ao assunto dos preços dos aluguéis. O preço anunciado é sempre por semana, mas o pagamento sempre é mensal. O valor mensal não é quatro vezes o valor semanal, como se poderia inocentemente achar. Para se calcular o valor mensal, se multiplica o semanal por 52 (tendo assim o valor anual) e se divide o resultado por 12. Assim, 340 por semana é o mesmo que (arredondando um pouco) A$ 1475 por mês.
O processo de efetivamente alugar é até relativamente simples e mais ou menos igual em qualquer lugar em Victoria. Ao se interessar por um lugar após a visita, você preenche um “application form” (um para cada pessoa que vai morar no lugar), anexa cópias de documentos (de identidade e comprovação de renda) e entrega para a imobiliária. Ela vai avaliar os seus dados e (se houver) o seu histórico de crédito e aluguéis anteriores e, se achar que você é confiável, vai passar os dados para o proprietário, que pode aceitar ou não, por qualquer motivo. Preencher um application form não “reserva” o imóvel, e não há nenhuma garantia de ser aprovado só por ser o primeiro a se inscrever.
Se você for aprovado e ainda quiser o imóvel, o passo seguinte é assinar um “lease agreement”, que é o contrato propriamente dito, e fazer um pagamento que é geralmente igual ao valor de dois meses de aluguel. Metade desse valor é o aluguel do primeiro mês, e a outra metade age como uma caução (é chamada de “bond”): ela vai para um órgão do governo e, ao final do aluguel, vai ser devolvida ou usada (total ou parcialmente) para cobrir o conserto de danos causados ao imóvel. Não existe a figura do fiador, nem seguro-fiança, nem nada similar. Todos esses documentos (application form, lease agreement) são relativamente padronizados e descritos na legislação que controla aluguéis.
Falando em legislação, existe um folheto (muito bom) editado pelo governo que “resume” a lei e explica quais são os deveres e direitos do proprietário e do inquilino, além de responder às dúvidas mais comuns. O corretor precisa dar uma cópia desse folheto para o inquilino antes da assinatura do contrato, senão ele paga uma multa de A$ 500.
Um detalhe importante é o prazo do contrato. Se o aluguel for, por exemplo, por 12 meses, e o inquilino quiser (ou precisar) sair antes, ele deve continuar pagando o aluguel até o fim do contrato ou até encontrar alguém aceitável para assumir o seu lugar. A imobiliária pode ajudar a encontrar alguém, mas nesse caso é preciso pagar qualquer despesa que eles tenham, inclusive de anúncios.
Bom, e o resto do dia foi passado nesse processo de ir a prédios, falar com corretores e visitar apartamentos. Vimos vários, alguns mobiliados e outros não. Os não mobiliados geralmente incluem alguns itens de cozinha e lavanderia: fogão, forno, microondas, lavadora de louças, lavadora e secadora de roupas, ou algum subconjunto desses itens. Geladeira geralmente não é incluída, acho que vimos apenas um apartamento que tinha (fora os mobiliados, claro). Além disso, alguns tem vaga na garagem, outros não, e em alguns o valor do aluguel inclui o consumo de água, luz e/ou gás.
Para nos organizarmos um pouco e não precisarmos ficar lembrando de tudo, fomos preparados: fizemos um “questionário” no Palm, que preenchíamos com vários dados importantes sobre o apartamento (o que estava incluído, quando pegava sol, qual a área, se tinha carpete etc.), e tirávamos várias fotos de cada um com a câmera digital, para comparar mais tarde. Falando em área, isso é algo que recebe pouca importância aqui; quase nunca aparece no anúncio, e muitas vezes nem o corretor sabia.
Da série “detalhes peculiares”: duas vezes no mesmo dia eu casualmente olhei para o chão, vi algo brilhando, e acabei achando uma moeda de 5 centavos. Ou seja, no meu primeiro dia no país, já ganhei algum dinheirinho!
No final do dia, acabamos encontrando um supermercado perto do hotel (chamado Safeway); também achamos uma loja de “variedades” estilo Americanas, chamada Big W (depois descobrimos que os dois pertencem à mesma rede). Andamos bastante pelo supermercado olhando tudo, e em geral achamos as coisas um pouco caras, especialmente ao converter os preços para real. Vale aquilo que cheguei a comentar com algumas pessoas antes da viagem: o valor numérico dos preços aqui é mais ou menos o mesmo do Brasil, mas infelizmente a moeda vale mais. Por exemplo, uma garrafa de Coca-Cola, que no Brasil custa uns R$ 2, aqui custa uns A$ 2.
No supermercado, graças à famosa globalização, não tivemos muitas surpresas: vimos muitas marcas familiares por todos os lados. Omo, Nestlé, Yoplait, Coca-Cola (e família), Hellman’s, Nescafé etc. Mas claro que tem suas diferenças. Aqui se vende iogurte em potes de um quilo, por exemplo. Existe Fanta de maracujá. Praticamente não existem produtos light ou diet. E, para a nossa sorte, há os produtos “genéricos”.
Na verdade, são produtos de uma marca própria do supermercado (se chama “Home Brand”); são bem mais baratos que os produtos normais, e quase sempre são de qualidade similar. Eu chamei de genéricos porque eles vêm em embalagens bem simples, completamente brancas, apenas com o nome do produto em letras grandes: “Laundry Powder” (sabão em pó), ou “Softener” (amaciante), ou “Chicken Nuggets”, ou “Orange Juice”, ou “Diet Lemonade” (refrigerante de limão diet) etc. Temos comprado muitos produtos desses (todos que podemos, na verdade), e não temos nos decepcionado. Verdade que a “diet lemonade”, quando quente, tem um ligeiro sabor de detergente para louças, mas quando gelada isso some. Só a maionese é que não é boa, tem uma consistência estranha e um sabor meio adocicado. Detalhe: eles dizem que, se algum produto não for satisfatório, ele pode ser devolvido e eles devolvem o dinheiro. Vamos testar isso com a maionese…
Fizemos várias compras (principalmente de comestíveis) e voltamos para o hotel. Antes disso, no caixa, conhecemos mais um detalhe da vida aqui: o arredondamento de preços.
Vejam, não existe moeda de um centavo; a menor é a de cinco. Mas existem preços como 4,97 ou 1,99. Como se faz? Se arredonda para o múltiplo de cinco mais próximo. Os exemplos que dei ficariam, arredondados, em 4,95 e 2,00, respectivamente (ou seja, pode arredondar para cima ou para baixo). E a máquina registradora faz isso sozinha, aparece na nota um item chamado “rounding” com um valor positivo ou negativo de alguns centavos. Lição do dia, portanto: escolha bem as compras para que, na soma, o arredondamento seja sempre para baixo…
Tocando no assunto, também não existe nota de um dólar; qualquer valor abaixo de A$ 5 só existe em moedas. Há moedas de 1 e 2 dólares, e de 5, 10, 20 e 50 centavos. Notas, de 5, 10, 20, 50 e 100 dólares.
Bom, esse foi o fim de mais um dia. Voltamos para o hotel, comemos, lemos um pouco e dormimos, de novo muito cedo.
No próximo capítulo, a continuação da busca pelo apartamento perfeito. Além disso: os pássaros que comem fast-food, como virar à direita no centro da cidade, ruas grandes e pequenas e, finalmente, algo que tenho negligenciado vergonhosamente: como é a cidade, afinal de contas.

