Austrália 08 Jun 2004 21:20

26 a 28/05 – A Viagem

Pensei em vários títulos para este texto: a noite sem fim, a quinta-feira que desapareceu, meia volta ao mundo em 12 horas… acabei optando por algo um pouco mais sério :-)

Então, vamos ao que interessa: como foi o processo de sair de São Paulo e chegar a Melbourne, em uma pequena maratona de vôos. O primeiro vôo saía de Guarulhos às 16h30 do dia 26, com destino a Santiago, no Chile. Começamos saindo cedo de casa, lá pelas 12h30, para evitar surpresas no trânsito de São Paulo e ter tempo para fazer o check-in com calma.

Em Guarulhos, tudo ocorreu mais ou menos como sempre; nada muito extraordinário. Os pais da Cris e um casal de amigos foram conosco até lá, então tivemos várias despedidas ao entrar na área de embarque (antes disso, aproveitamos para gastar os últimos reais que tínhamos no bolso na Casa do Pão de Queijo). De maneira geral, foi um “processo” fácil e agradável.

O vôo saiu mais ou menos no horário certo; a companhia aérea era a Lan Chile. O avião estava (felizmente) relativamente vazio, mas os assentos eram bem apertados, ao menos do ponto de vista das minhas pernas. Detalhe agradável: cada assento tinha um monitor de vídeo, em que se podia escolher qual filme assistir (podendo parar e avançar à vontade) ou mesmo selecionar algum vídeo-game (havia Tetris, jogos de cartas, campo minado, forca e outros); o controle remoto se soltava do braço da cadeira (ligado apenas por um fio) e virava o controle do jogo. Dava também para ver as informações do vôo (aquele mapinha mostrando a posição atual do avião, altitude, temperatura).

Outro detalhe interessante é que a Lan Chile não confia nos seus passageiros. Os cobertores distribuídos a bordo tinham, todos, etiquetas de alarme como as usadas em lojas de roupas.

Aproveitei as cinco horas de vôo para ler um pouco; eu havia levado um livro e várias revistas para me ocupar nas inúmeras horas de vôo. Mas aqueles vídeos individuais distraem muito. Li umas 50 páginas do livro, e as revistas não foram lidas até hoje.

No Chile havia troca de avião e várias horas de espera; ao desembarcar, fomos encaminhados diretamente para a área de embarque internacional, onde felizmente existiam lojas, restaurantes e lanchonetes; infelizmente, não tínhamos um centavo em dinheiro chileno, claro. Logo ao chegar ao terminal, algumas vistas conhecidas: um estande todo laranja com o logo do Terra por toda parte, vendendo 15 minutos de acesso à Internet por US$ 1,20. Ainda vi cartazes anunciando o Speedy Wi-Fi no aeroporto e CDs do “Terra Libre” sendo distribuidos.

Acabei lanchando algo no Dunkin Donuts (aceitava cartão), e depois ficamos esperando o próximo vôo. E esperando. E esperando. Mais ou menos no horário previsto para embarque, avisaram que por “problemas técnicos” o vôo iria atrasar (o que era mais ou menos óbvio, já que o avião nem tinha estacionado), e dariam uma previsão em uma hora. Mas acabaram chamando para o embarque antes disso. Saímos mais ou menos uma hora atrasados (mas chegamos a Sydney no horário certo; o piloto deve ter acelerado um pouco no caminho).

O vôo, de novo da Lan Chile, estava bem mais cheio que o primeiro. O assento tinha um pouco mais de espaço para as pernas (a palavra-chave sendo “pouco”), e estavam disponíveis os mesmos vídeos do outro avião. A jornada foi longa. Doze horas, todas à noite, graças às mudanças de fuso no caminho e ao fato de estarmos quase no inverno. Por causa disso, foi uma noite muito longa: para nós, anoiteceu lá pelas 18 horas, a caminho do Chile, e amanheceu umas 20 horas depois, entre a Nova Zelândia e a Austrália.

Antes da viagem eu comentei com várias pessoas que o vôo não era tão longo, já que o maior trecho tinha cerca de 12 horas. E isso é verdade. O problema, no entanto, é que antes dessas 12 horas há outras cinco, depois mais três (Auckland-Sydney) e mais 1h30 (Sydney-Melbourne). No total é um vôo bem cansativo. Não que eu esteja querendo desencorajar visitas, claro.

Detalhe: o tal vôo transpolar, na verdade, não passa nem perto do pólo. Nem sequer sobrevoa a Antártida. O caminho mais curto de Santiago a Auckland é todo sobre o Pacífico, apesar de chegar bem perto do continente.

Mas, voltando à viagem, depois de muito tempo, ganhamos um café da manhã e chegamos a Auckland. Lá não havia troca de avião, mas desembarcamos por uma hora enquanto o avião era limpo. Na saída, fomos gentilmente farejados por um cachorro policial muito simpático (procurando drogas, acredito) e depois pudemos passear um pouco. Em frente ao portão de embarque havia uma loja de produtos típicos da Nova Zelândia que, para minha decepção, não vendia nenhuma mercadoria relacionada ao “Senhor dos Anéis” (oferecia mel, itens com lã de ovelha, bebidas…). É interessante mencionar que a Nova Zelândia é um país bilíngüe: os avisos do governo são todos em inglês e na língua dos aborígines. Vimos isso, por exemplo, em um painel que mostrava vários exemplos de produtos cuja importação é proibida.

Tanto a Nova Zelândia quanto a Austrália, a propósito, são muito rigorosos quanto à importação de produtos animais e vegetais. Eles levam a sério a idéia de evitar que doenças de outras áreas do mundo cheguem aqui, e também que espécies animais ou vegetais “estrangeiras” afetem o equilíbrio ecológico.

Bom, depois dessa pausa, mais três horas de vôo e chegamos a Sydney em uma linda manhã de sol. O piloto fez uma bela passagem sobre a cidade, e pudemos ver os vários pontos turísticos do alto. Daí foi tudo muito simples: desembarque, fila da imigração, mais um cachorrinho, um atendimento rápido por uma velhinha simpática, e havíamos chegado! Depois disso foi só pegar as malas (70 quilos), passar pela alfândega e pelo raio-X, fazer um rápido check-in para o próximo vôo e pegar um ônibus para o terminal doméstico, onde ainda esperamos por uns 20 minutos até o embarque.

Outro detalhe interessante: logo que chegamos ao portão de embarque, uma TV ligada exibiu aquele comercial da Nike com as seleções do Brasil e de Portugal, com Ronaldinho, Roberto Carlos, Figo… Logo depois veio uma chamada da versão local do “Big Brother”.

Mais 1h30 de vôo e estávamos em Melbourne, onde chovia e fazia frio. Pegamos as malas, mas não pegamos carrinhos, porque são pagos. Isso tornou tudo um pouco mais desconfortável, porque tínhamos várias malas, e uma delas estava *bem* pesada…

A primeira coisa a fazer era conseguir um pouco de dinheiro local; troquei um traveller cheque de A$ 100 (por A$ 93 em dinheiro, graças à comissão cobrada no aeroporto…). Depois compramos um cartão telefônico, ligamos para os nossos pais no Brasil para dizer que tínhamos chegado vivos e bem (era meio-dia de sexta-feira aqui, 23h de quinta no Brasil) e compramos os tíquetes para o ônibus que nos levaria ao centro (A$ 13 cada um). Nesse meio tempo consegui um carrinho de bagagem abandonado, que ajudou muito no transporte das malas.

No ônibus para o centro, transcorreu tudo bem (apesar das várias dificuldades para embarcar com as malas); ele nos levou até a Spencer Station, uma estação de trem bem central. De lá pegamos um micro-ônibus grátis que faz o roteiro dos hotéis, e ele nos deixou em frente ao nosso. Fizemos reservas para dez dias em um “hostel”, albergue de “backpackers” (Toad Hall Hotel, 441 Elizabeth Street); tínhamos um quarto privativo, mas com banheiro e banho compartilhados, e sem amenidades como TV ou telefone no quarto (havia TVs em uma sala de estar e na cozinha, e telefones públicos em cada andar). E, como descobrimos ao chegar, sem elevador.

Depois de escalar 43 degraus com um pouco mais de 70 kg de malas e descansar um pouco, saímos para explorar um pouco os arredores, conseguir mais dinheiro e comer algo. A parte do dinheiro foi fácil, já que havia um escritório da American Express relativamente perto do hotel e lá era possível trocar os traveller cheques sem comissão (descobri isso ligando para o 1-800 da Amex do aeroporto).

E a busca por comida nos levou ao local óbvio: McDonald’s. O cardápio é muito similar ao do Brasil; o único sanduíche que parecia “típico” daqui é um que se chama McOz. Escolhi esse, mesmo sem saber como seria. Nas primeiras mordidas, parecia com o McMax vendido no Brasil: alface, tomate, maionese… Um pouco depois apareceu o ingrediente inesperado: beterraba. Sim, o sanduíche tem fatias de beterraba. Aparentemente é algo local, mesmo. E não fica ruim, na verdade. Mas não pedi esse sanduíche de novo.

Alimentados e surpreendentemente pouco sonolentos, fomos atrás do nosso primeiro objetivo: achar lugar para morar. Achamos anúncios com endereços de imobiliárias e fomos atrás delas. Em uma, conseguimos marcar um horário na manhã seguinte para visitar um apartamento. Em outra, conversamos com um cara de sotaque fortíssimo e pegamos uma listagem de apartamentos disponíveis. E aí então “batemos” no problema de que, aqui, quase tudo fecha às 17h (incluindo lojas, mesmo algumas em shoppings).

Pegamos um pouco de chuva no caminho de volta para o hotel (muito pouco; aqui parece chover em blocos de dois minutos), e fomos procurar onde comprar algo para comer. Não achamos nenhum supermercado por perto, então compramos sanduíches no Subway e bebidas em uma 7-11 (loja de conveniência, fica aberta 24 horas; há várias no centro). Voltamos para o hotel, comemos, e basicamente desmaiamos de sono.

Na próxima parte: nosso primeiro sábado de sol, como funcionam aluguéis e como se vive em um país sem moedas de 1 centavo.

One Response to “26 a 28/05 – A Viagem”

  1. on 08 Jun 2004 at 22:14:55 1.Rafael D'Ávila said …

    Boa sorte na tua nova empreitada Wilson! Com toda a certeza, ambos terão muito sucesso ai do outro lado do globo, e com tua competência profissional que eu pude conhecer bem no Terra, certamente terás muitas alegrias e, tomara, em breve!

    Grande abraço!