Monthly ArchiveDecember 2003



Brasil 21 Dec 2003 23:58

Privacidade

Já repararam em como tem gente por aí querendo informações sobre a gente? Por exemplo: porque é que, quando eu pago algo com cartão de crédito, me pedem para colocar o meu telefone ao lado da assinatura? A operadora do cartão já autorizou a transação; nesse ponto, só o que o atendente tem a fazer é conferir a assinatura, nada mais. O que ela pode fazer com o meu telefone? Se alguém estiver usando um cartão roubado, vai colocar o telefone certo ali? É uma coleta de dados inútil.

Outro exemplo: sendo época de festas, também é época de amigo secreto (amigo oculto, em alguns lugares do país). Na empresa, fizemos um utilizando os serviços de um site, onde se pode organizar o grupo, fazer o sorteio etc., tudo automaticamente. Mas todo mundo precisa se registrar, e no registro é obrigatório entrar endereço, idade, CPF, RG… para quê, meu deus? O serviço é de graça! Que motivo eles podem ter para querer o número dos meus documentos?

Mais um, embora esse seja mais um exemplo de burocracia do que de invasão de privacidade… tenho cartão de crédito de um grande banco brasileiro. Fui pedir um cartão adicional, vinculado ao meu. Pedi por telefone, mas disseram que eu teria que preencher uma proposta e mandar pelo correio; ok, em poucos dias me mandaram o formulário. Só que junto com a proposta eu teria que mandar cópias de uma infinidade de documentos, de CPF a comprovantes de renda e endereço. Note que eu tenho um cartão de crédito deles, e não estava pedindo uma linha adicional de crédito; só mais um pedaço de plástico para efetuar gastos na mesma conta. Eles já sabem onde eu moro (afinal, as faturas deles chegam), e sabem que eu pago tudo direitinho. Para quê tudo isso? Fiquei seriamente tentado a mandar uma fatura deles mesmos como comprovante de residência. Mas desisti, liguei para um concorrente e em dez dias eu estava com o cartão na mão.

Algumas vezes eu tentei argumentar contra essas coisas, mas cheguei à conclusão de que não só dá muito trabalho, como acaba me fazendo passar por antipático. Já me recusei a colocar o meu telefone ao assinar um recibo de cartão de crédito, por exemplo, o que quase rendeu uma ligação para o 0800 da empresa. Também já tentei me recusar a dar o meu CPF para uma locadora de automóveis (eles já tinham minha carteira de motorista e o meu cartão de crédito, para quê mais?), mas eu precisava mais do carro que dos meus princípios.

Então o que eu faço hoje em dia é resistência passiva. Se me pedem para colocar o telefone, eu coloco; mas o telefone de uma pizzaria próxima à minha casa. Se um site pede o número do meu CPF sem motivo algum, eu entro um número visivelmente falso. Endereço e telefone, idem, a não ser que eles precisem disso para me entregar algo. Não é que eu queira enganar alguém; o problema é só que eles querem saber muito mais de mim do que eles precisam. Por que é que uma floricultura precisa do meu CPF? A Amazon.com nunca pediu o número do meu passaporte, eles só querem o cartão de crédito e o endereço de entrega. E os livros chegam.

Vamos acabar com essa passividade, gente. Se eles querem os nossos dados, que digam para que é. Se não tem motivo nenhum, que não peçam. Chega de espalhar o nosso CPF e o nosso RG por aí, para qualquer um copiar. Chega de “privacidade zero”.

Brasil 13 Dec 2003 21:28

Voadores

Na próxima quarta-feira, dia 17/12, os EUA (junto com boa parte do resto do mundo) vão comemorar os 100 anos do primeiro vôo usando um equipamento mais pesado do que o ar (um avião). O primeiro vôo, dizem eles, aconteceu em 17/12/1903, em Kitty Hawk, em um avião feito pelos irmãos Wright (Orville e Wilbur).

Por que, então, todas as nossas escolas ensinam que o inventor do avião foi Alberto Santos-Dumont, cujo avião voou pela primeira vez em 12/11/1906, quase três anos depois? Basicamente porque os Wright fizeram muito segredo sobre as suas pesquisas, e só revelaram o que tinham feito muito depois, quando Santos-Dumont já tinha a fama.

E quem está certo? Essa é uma pergunta interessante. Este artigo da Wired (em inglês) discute um pouco o assunto, inclusive com comentários de alguns brasileiros.

No final das contas, é quase certo que os Wright voaram antes de Santos-Dumont. Mas isso não importa muito, e não deveria ser motivo para não se admirar o trabalho do brasileiro. Havia uma diferença de objetivos: os americanos estavam atrás da fama e, especialmente, do dinheiro que uma máquina voadora trariam; Santos-Dumont, que já tinha dinheiro, apreciava muito a fama mas, no fundo, só queria voar; ele era um idealista, e os Wright, capitalistas.

Uma coisa que nem os brasileiros nem os americanos podem esquecer, no entanto, é que nem os Wright nem Santos-Dumont estavam sozinhos no desenvolvimento de aparelhos voadores; essa era uma idéia que estava para acontecer, e se não fossem eles, alguém teria feito o mesmo. Andy Grove, da Intel, disse em 2000 algo que se aplica a esse contexto: “Thomas Edison inventou um monte de coisas, mas você realmente acha que o mundo ia ser diferente hoje se ele não houvesse vivido?” Alguém teria chegado às mesmas invenções. Com o avião acontece o mesmo.

Então, os americanos tem todo o direito de celebrar os 100 anos agora, mas os brasileiros também tem todo o direito de celebrar os 100 anos do vôo do 14-Bis em 2006. Espero que as comemorações estejam à altura da ocasião.

Mas também espero que as nossas escolas hoje em dia já ensinem uma história da aviação mais realista e menos ufanista.

Pessoal 12 Dec 2003 10:07

Nada pode ser maior

Para quem é gremista, como eu, essa é uma semana de festa, apesar dos pesares recentes: dia 11/12 completamos 20 anos da maior conquista de um time gaúcho, o Campeonato Mundial Interclubes, vencido em Tóquio em um jogo emocionante contra o Hamburgo, da Alemanha.

O site oficial do time tem um texto excelente relembrando aquela noite, incluindo a ficha do jogo, vídeos dos gols e até o hino da vitória. Recomendo como preparação para torcer no jogo de domingo, quando vamos estar disputando algo muito mais prosaico, mas essencial para reconduzir o nosso time para o caminho das conquistas.

Sem esquecer de torcer para o São Caetano, também.

Mundo 10 Dec 2003 22:29

Inglês demais

A ONU diz que uma parte grande demais do conteúdo da Internet é em inglês (a notícia, ironicamente, está em inglês). Puxa, por que será ? Será que é porque a maior parte dos usuários da Internet falam inglês?

Ao menos, esse é o motivo para eu ter um outro blog em inglês: é o que a maioria do público entende.

Brasil 06 Dec 2003 14:08

Jornais II

Continuando o assunto da última vez… peguemos, por exemplo, o jornal de hoje, 6 de dezembro de 2003.

Uma das principais notícias, também bastante comentada na TV ontem, é sobre o acordo para aprovação da reforma tributária. Esse é um assunto que merece vários textos, mas o básico é: por que é que, aqui, reforma de impostos sempre quer dizer aumento de impostos? O governo pode negar quanto quiser, mas o fato é que a reforma a ser aprovada é uma maneira de tirar mais dinheiro do contribuinte. Vejamos: prorrogação da CPMF (alguém lembra ainda o que é aquele P no nome?), fundo para compensar estados com perdas por causa de exportações (perdas? que perdas? não é bom quando as empresas exportam? não gera empregos, movimenta a economia?)… sem contar o aumento da Cofins, que saiu antes. E o país continua enrolado em uma malha incompreensível de impostos que afogam todo mundo.

Um pouco mais adiante, curiosamente ainda no assunto impostos, temos uma matéria sobre o aumento inesperado do IPVA no RS esse ano. Mesmo com a desvalorização dos automóveis de um ano para o seguinte, as pessoas estão pagando mais neste ano do que no ano passado pelo mesmo carro. A explicação é que o governo mudou a forma de avaliar o valor dos carros…

Depois, temos o caso do MST, que comprou uma área de terras em São Gabriel vizinha à fazenda cuja desapropriação foi anulada pela justiça e que eles pretendiam ocupar. Só que eles compraram “anonimamente”, sem dizer que eram do MST, e ainda divulgaram que o vendedor tinha feito isso para ajudar o movimento. Agora o vendedor quer anular o negócio. Só um detalhe… se eles compraram terras, não são mais sem-terras, não ? E se eles tem dinheiro para comprar terras, por que não compram para assentar pessoas ?

Nas páginas policiais, temos a notícia de que a mulher acusada de matar crianças em rituais satânicos foi absolvida, no Pará. Não é isso que me deixa indignado, no entanto, e sim a reação das pessoas. Lógico que não se pode esperar uma reação racional de pessoas envolvidas, como por exemplo os pais das vítimas, mas pessoas mais neutras estão agindo de forma a desacreditar o sistema judiciário. Por exemplo, um padre se declarou “envergonhado” com o resultado. Só que, se um júri disse que ela é inocente, ela é inocente; legalmente, não há provas contra ela, e ela não pode ser tratada como culpada. Um padre, mais do que ninguém (exceto talvez advogados), deveria entender esse conceito. O absurdo maior é que advogados de entidades de defesa dos direitos das crianças dizem que isso acontece porque júris são formados por leigos em Direito, que julgam com base na emoção. Bom, o que é que eles queriam? Um julgamento feito apenas por advogados e juízes? E eles se dizem advogados? Deprimente.

E eu poderia continuar por bastante tempo ainda… essas foram só as matérias mais chamativas. Escondidas nos cantos de página ainda existem muitas outras notícias do gênero.

Acho que o jeito é cancelar a assinatura do jornal.

Brasil 03 Dec 2003 23:28

Jornais

Será que, quando a gente começa a ser incapaz de ler um jornal sem se indignar com a maior parte das notícias, é um sinal da idade? Ou é só um sintoma de como as coisas andam errado no nosso país?

Mais detalhes depois…