Monthly ArchiveSeptember 2003



Cultura 28 Sep 2003 22:07

Matriz Quântica

O lançamento do último filme da série Matrix está chegando, e eu estava pensando em algo… será que várias das coisas mais “estranhas” da física quântica não fariam bem mais sentido se nós estivéssemos, de fato, vivendo dentro de uma Matrix ?

Por exemplo, a idéia de que coisas que não estão sendo observadas podem temporariamente deixar de existir. Bom, obviamente, quando se vai fazer uma simulação em computador de qualquer coisa, não se gasta tempo desenhando o que não está visível. É bom senso, puro e simples. Inclusive, isso explica aquele experimento do gato de Schroedinger: o resultado realmente só é definido quando a caixa é aberta e alguém olha para dentro. Antes disso, o resultado não havia sido gerado e, portanto, não existia. E, aliás, o gato podia nem estar lá.

Ou aquele problema com a randomicidade dos eventos quânticos (Deus jogando dados, como disse Einstein). Em algum ponto, no limite da resolução da simulação, o programa precisa decidir o que fazer com as unidades mínimas simuladas, e um gerador de números randômicos provavelmente deixaria o universo mais interessante do que um conjunto de regras fixas. E, se alguém está observando o universo de fora, certamente esse alguém preferiria que o universo fosse interessante.

Outras coisas estranhas podem ser o resultado de bugs na simulação, ou mesmo de features que não se esperava que ninguém usasse e que acabam tendo comportamentos inesperados. Qual é o programador que nunca teve uma surpresa assim ?

Bom, só alguma coisa para pensar antes de ir dormir…

Cultura 01 Sep 2003 21:56

Turing

Neste fim de semana, assisti a peça “Quebrando Códigos”, sobre a vida de Alan Turing. O título da peça se refere ao trabalho do qual Turing participou durante a Segunda Guerra, “quebrando” os códigos secretos dos alemães, mas também aos códigos morais da época em que viveu (1912-1954), contra os quais batalhou e por causa dos quais sofreu muito. Homossexual, Turing se suicidou aos 42 anos, comendo uma maçã envenenada.

A peça começa pouco antes do seu suicídio, e conta a sua vida em retrospectiva, através das suas lembranças. Vemos desde a sua juventude, quando foi muito marcado pela perda e um querido amigo (supostamente a grande paixão de sua vida), passando pelo período em que trabalhou no serviço secreto até os últimos anos de sua vida, em que teve problemas com a justiça por causa de sua opção sexual, chegando a ser preso e condenado por má conduta moral. A peça se passa em um palco muito simples, com poucos elementos, e transmite convincentemente a idéia de estarmos “na mente” de Turing, acompanhando as recordações de momentos que marcaram sua vida.

Seria uma história triste com qualquer personagem, mas se torna mais triste ainda devido à genialidade de Turing. O computador em que eu estou escrevendo esse texto, assim como o que você está usando para ler, deriva de idéias que esse homem teve; ambos são, no fundo, Máquinas de Turing. Essas máquinas, inventadas por ele muito antes que fosse possível criar um computador de verdade, são idéias matemáticas criadas e descritas por Turing e que se tornaram fundamentais para a ciência da computação.

No fim, é uma história de uma pessoa genial, que trouxe muitas idéias novas para a matemática e para o campo então nascente da computação, mas que acabou tendo sua vida destruída por um código moral rígido e um estilo de vida visto, na época, como inaceitável. A quem tiver a chance, recomendo assistir a peça; a quem não tiver, recomendo ler e conhecer um pouco mais um dos homem que possibilitou o mundo digital em que vivemos.