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Dia 7, 19/03/1999 - New York

Faz frio de novo em Nova York, depois do vento do dia anterior. E hoje era dia de mudar de hotel sem mudar de cidade...

Explico: quando fiz a reserva para o hotel, procurei o mais barato possível com um nível razoável. O melhor que eu encontrei foi o Gershwin, mas eles só tinham vagas até a noite de quinta-feira (e isto foi em janeiro!). Então, para economizar, fiz a reserva para estes dias com este hotel, e reservei um hotel mais caro (Holiday Inn) só para o último dia. Isto implica, claro, em arrumar todas as malas com um dia de antecedência. Para evitar levar malas de um lado para o outro da cidade sem motivo, deixei as malas na "storage room" do Gershwin, levei só o essencial para o outro hotel e voltei no dia seguinte para pegar as malas e tomar o shuttle para o aeroporto.

Então... acordei cedinho, arrumei tudo e saí para comprar aquela câmera que eu mencionei nno outro dia, para uma amiga. Para economizar dinheiro, a loja enviou a câmera para a Califórnia e eu recebi ela lá, ao invés de sair com ela de NY. Como isto economiza ? Em vendas para fora do estado não se cobra "sales tax", o ICMS deles. Compare isto com a intenção do governo gaúcho de cobrar ICMS de carros vendidos em SC que entrem no estado... bom, deixa pra lá.

Bom, fiz o checkout logo antes do meio-dia, e fui matar tempo até as 3 da tarde, quando eu podia fazer o check-in no outro hotel. O "mínimo essencial" não era tão leve assim, ou seja, atrapalhava ficar carregando aquilo de um lado para o outro, então o que fiz foi almoçar calmamente lendo o jornal, e depois assistir um filme num cinema em Times Square (já arrumaram o outdoor que caiu no dia anterior). O filme foi "Forces of Nature", com a Sandra Bullock; é um "Casamento do Meu Melhor Amigo" com um enredo ligeiramente diferente mas com o mesmo fim.


Um dos trailers que passaram antes era do filme "Never Been Kissed", em que a Drew Barrymore faz o papel de uma jornalista que se disfarça de estudante de segundo grau para fazer uma matéria. O filme até parece engraçadinho, mas muito pouco realista: mesmo tirando a questão óbvia de alguém confundir uma jornalista com uma menina de 16 anos, convenhamos, a Drew Barrymore has "never been kissed" ? Come on... :-)

O Holiday Inn para onde eu fui fazia por merecer o preço mais alto: o quarto era maior (e sem o Picasso), o prédio era mais novo, e a localização era mais central. Lógico que tinha tanta personalidade quanto um McDonald's, mas em termos de conforto ganhava de longe.

Ah, não comentei antes... o sistema de aquecimento no outro prédio era baseado em radiadores a água quente (aqueles que aparecem em filmes e histórias em quadrinhos mais antigas); esquentava o quarto muito bem, mas fazia uns sons tão estranhos que no primeiro dia eu me assustei. Depois acostumei...

Depois do check-in, saí do hotel para visitar "downtown". Como eu disse outro dia, em NY downtown é a ponta sul da ilha. Ela tem peculiaridades: a cidade começou por ali, então aquela é a área mais antiga de NY, e tem uma aparência muito mais européia: ruas estreitas e sinuosas, calçadas pequenas, o lugar parece mais apertado.

Para o turista em NY é muito importante conhecer o sistema "quadriculado" das ruas, sabendo em que direção os números crescem e onde é leste e oeste. Mas tambem é muito importante lembrar de um número: "14". Na rua 14 é que o quadriculado começa para valer: até ali as ruas paralelas dificilmente são paralelas mesmo, as avenidas vão em qualquer direção e os quarteirões têm qualquer formato. Antes da rua 14 também existem inúmeras ruas e avenidas com nomes ao invés de némeros. Ao sul da 1st St., claro, todas as ruas tem nomes, mas mesmo antes disto a maior parte das ruas não cruza toda a ilha, e há espaço para outras. Por exemplo, entre a 11th. e a 12th. em alguns trechos há três outras ruas. O motivo disto é que a rua 14 era o limite da cidade quando se decidiu adotar um sistema melhor e se decidiu pelo quadriculado usado no resto da ilha; isto aconteceu em 1811.


E sim, existem muitas ruas ao sul da 1st. Na primeira vez em que estive em NY eu estava no Empire State, na rua 34, e decidi ir a pé até o World Trade Center porque, afinal de contas, dava para ver os prédios dali e não podia ter mais de 34 quadras até lá... tinha umas 60.

Tudo isto quer dizer que para o turista de primeira viagem, acostumado com a facilidade de se orientar na maior parte da ilha, downtown NY parece uma selva. Eu já sabia disto, então fui preparado, com mapa e com uma boa noção de onde ir. E fui de metrô.

No metrô eu vi algo que eu ia ver várias outras vezes durante a viagem, e acho que já vi muitas vezes: um grupo de 4 ou 5 meninas, ao redor dos seus 14, 15 anos, aparentemente voltando da escola, cantando. A palavra-chave aqui é "cantando". E alto. Quando eu vejo isto, invariavelmente as meninas são negras. Eu não consegui achar uma boa explicação sociológica para isto ainda, mas tenho certeza de que deve existir.


Seguindo meus instintos, ao sair do metrô eu fui na direção da água e cheguei ao South Street Seaport. "Sea" é meio exagero; ali já não é mais rio, mas ainda nao é mar: é a Baia de Nova York, que alguns quilômetros ao sudeste vai virar o Oceano Atlântico. Mas enfim, quem dá o nome são eles, e é um nome antigo: aquele é o coração do antigo porto de NY; o mercado de peixes que ainda existe ali funciona desde 1821. E a vista dali é muito bonita! Um pouco ao norte fica a Brooklyn Bridge e, logo em seguida, a Manhattan Bridge; ao sul fica o World Trade Center e inúmeros outros prédios e, lá ao longe, a Estátua da Liberdade. E do outro lado do rio fica o bairro do Broolklyn.

Caminhei um pouco por ali, tirei várias fotos (o pôr do sol estava chegando e as cores estavam muito bonitas), bati uma foto de uma turista para ela, e fui tentar descobrir como chegar na ponte.

Sobre a foto para a turista... todo mundo me pergunta, quando vê as minhas fotos, porque é que eu não peço para alguém bater uma foto minha, para que ao menos eu apareça em algumas (para quem não viu todas as fotos desta viagem: foram umas 200 fotos; eu apareço em duas, e quem viu a versão oficial, já nos álbuns, só viu uma). Os motivos são que (a) aquelas fotos são para mim, para eu lembrar da viagem, e de mim mesmo eu lembro; eu quero lembrar da paisagem; se eu estivesse acompanhado eu agiria diferente; (b) eu sei que eu estive lá, e quem vê as fotos acredita, em geral, logo, provas são desnecessárias; e (c) imagina se o outro cara sai correndo com a minha máquina ? :-)


Voltando ao assunto... a Brooklyn Bridge foi construída em 1883 para ligar as cidades de Nova York e Brooklyn; hoje esta última é parte da primeira. Na época não existiam automóveis, então a ponte era usada de outra maneira: havia duas pistas para charretes e cavalos, dois trilhos para bondes e uma passarela elevada para pedestres, no centro. As pistas das charretes incorporaram o espaço dos trilhos e viraram as atuais pistas para automóveis, mas a passarela para pedestres ainda existe, agora compartilhada também por ciclistas. Nesta passarela era que eu pretendia chegar, mas tive algum trabalho para achar o caminho certo, mesmo com mapa.

A vista de cima da ponte tambem é muito bonita ("o melhor remédio para a alma", segundo um poema de Walt Whitman), e mesmo com o frio que estava fazendo (o sol estava se pondo) caminhei até o segundo arco antes de voltar. O comprimento completo da ponte é de pouco mais de um quilômetro, o que é uma bela caminhada àquela hora :-)

Outra peculiaridade de downtown NY é que, contrariando o ditado de que "the City never sleeps", aquela área da cidade morre depois das 6 da tarde (quando os yuppies vão para casa, alguém comentou comigo). Então fiz um lanche rápido e peguei o metrô de volta para midtown, e aproveitei o início de noite para uma caminhada na rua 57, a rua do hotel. Depois disto, fui dormir pela última vez em NY...

Dia 8, 20/03/1999 - New York, San Francisco

Admito que eu estava cansado; o comentário que fiz ano passado sobre turismo ser stressante ainda vale. Logo, aproveitei o último dia em Nova York para dormir até tarde, re-empacotar os "mínimos essenciais" levados para o novo hotel e ir achar uma caixa eletrônico para pegar dinheiro.

Eu e a Jing tínhamos combinado um último almoço, onde eu pretendia cumprir a minha promessa de levar ela a um restaurante brasileiro. Foi um erro. Alguns anos atrás ela me levou a um restaurante chinês legítimo, recomendou alguns pratos, e ficou muito sentida quando eu não consegui comer muito porque era muito picante. A experiência desta vez foi mais ou menos parecida, só que invertendo os papéis.

Fomos a um restaurante chamado "Cabana Carioca", na rua 45, que tinha me sido muito bem recomendado. Em defesa do restaurante, eles realmente tem uma comida boa, ao menos para o meu gosto. Bom, ela pediu algo que envolvia um filé, batatas e palmito, que ela não sabia o que era (em inglês se chama "hearts of palm", mas não é algo muito comum). Para beber, guaraná. Bom, o guaraná era muito ruim, nisto eu concordo integralmente; não lembro a marca, mas era feito em New Jersey. Ela não gostou do palmito (até se esforçou para comer mais de um pedaço, mas nitidamente sem muito prazer), tambem não parece ter se agradado muito do filé, mas comeu as batatas. Eu comi uma galinha muito boa; para sobremesa, um cheese-cake que definitivamente não tinha nada de brasileiro (ela adorou).

Passado o fiasco, voltei para o hotel original para pegar as minhas malas e esperar o shuttle para o aeroporto; o meu vôo era às 4 da tarde, o shuttle era às 2. O meu hotel foi a primeira parada do shuttle, e o motorista estava alegre, elogiando o clima (estava um dia lindo, o mais quente da semana até ali), assobiando etc. Conforme foi passando o tempo e a gente foi se embrenhando no trânsito de meio de tarde em Manhattan ele foi perdendo o bom humor, e depois de uns 10 minutos já estava xingando os outros motoristas audivelmente; eu teria rido se não tivesse medo de ficar a pé ali, no meio da rua.

No caminho, duas vistas interessantes: passamos por um lugar chamado "Churrascaria Panorama", com luminosos enormes da Brahma na frente; e, um pouco depois, passamos por um abrigo nuclear! Na parede de um prédio tinha o sinal de radioatividade e o letreiro "Fallout shelter". Eu tinha lido que lugares assim ainda existiam, mas não esperava ver um...

E depois disto foi só dizer tchau para NY e pegar o vôo para San Francisco... vôo tranquilíssimo. Filme de bordo: "Enemy of the State", que agora está em cartaz aqui no Brasil. Recomendo, exceto para quem for meio paranóico.


O aeroporto de San Francisco não fica em San Francisco, mas em San Mateo, uns 15 minutos de carro ao sul (até porque em San Francisco não cabe um aeroporto). Cheguei lá por volta das 7:30 da noite, graças à maravilha dos fusos horários, e a Sandra estava me esperando no aeroporto. A Sandra é uma grande amiga minha que trabalhou por algum tempo na mesma empresa que eu (ela em São Paulo, eu em Porto Alegre) e agora está ficando rica em uma firma de consultoria na Califórnia (bricadeirinha, Sandra). Foi muito bom ver ela de novo depois de tanto tempo, a última vez foi quando eu estive em São Paulo em julho do ano passado.

Saindo do aeroporto fomos jantar em San Francisco, em um restaurante chamado "Fly Trap". A Sandra tem o objetivo pessoal de comer em cada um dos restaurantes citados em um livro com os 100 melhores restaurantes de San Francisco, e durante a viagem eu ajudei ela com alguns deles; este era um. Eu sei que o nome dele é muito estranho para um restaurante, mas posso garantir que não vi nenhuma mosca lá dentro. O menu explicava o nome contando a história do restaurante, que tem mais de 100 anos; não lembro todos os detalhes, mas o nome vem do papel pega-moscas que usavam neste restaurante para, claro, pegar moscas, muito tempo atrás. Ah, a comida era boa, mas nada excepcional; precos razoáveis.

Como eu pretendia ficar no apartamento da Sandra, a convite dela, e só tinha um quarto e, por conseqüência, só uma cama, o próximo passo foi arrumar uma cama. Para isto fomos até Mountain View, no apartamento da Nutec, e emprestamos um colchão que não estava sendo usado. Depois voltamos para San Francisco e fomos nos acomodar; eu, particularmente, estava cansado, porque aquele estava sendo um dia de 27 horas para mim.

O apartamento da Sandra não é muito grande, mas para um apartamento de um quarto acho que estava acima da média; a localização é excelente, também, bem no centro de San Francisco. Um pouco barulhento às vezes, certo, mas nada intolerável, e muito conveniente. O que me chamou a atenção foi o elevador do prédio: é enorme! Poderia ser um elevador de carga em um prédio comercial, e parece totalmente fora de lugar em um prédio com quatro apartamentos. Toda a população do prédio caberia com conforto dentro do elevador.

Detalhe interessante do dia: sorvete do Dilbert. Sorvete de nozes com pedaços de nozes ("Totally Nuts" era o nome comercial).

Próxima parte: o pôr do sol no Pacífico, o aluguel do carro, e a pirâmide maia tecnológica.

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