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Dia 5, 17/03/1999 - New York

St. Patrick's Day. Dia de se vestir de verde em Nova York. Eu até não tinha tanta roupa verde assim comigo, mas fiz o possível... Casaco impermeável verde, moleton verde por baixo, mais uma camiseta verde, e só.

Saí do hotel cedinho para ir cumprir o compromisso assumido com uma amiga de procurar uma maquina fotográfica nova para ela. Ela tinha dado todas as especificações necessárias, e até recomendado uma loja que não era muito longe do hotel. A loja, B&H Photo and Video, era enorme, do tamanho de um supermercado medio, e é uma loja de judeus. Quando eu digo isto eu não quero dizer só que os donos são judeus, mas que cada funcionário lá dentro estava vestido com trajes típicos judeus, incluindo aquela "mini-boina" que eles usam, barba, cabelo comprido etc. Olhando de fora eu achei que fosse uma excursão de Israel que tinha parado ali para compras, mas não era isso... Bom, os preços eram bons, o equipamento tambem, e o rapaz que me atendeu se chamava José e era brasileiro. Mundo pequeno.

A seguir, o programa atrasado do dia anterior, o Intrepid Sea-Air-Space Museum, aquele do porta-aviões. Fiz todo o mesmo trajeto novamente, mas, ao chegar lá, estava aberto :-)

O USS Intrepid é um porta-aviões que foi usado em combate durante a Segunda Guerra, no Pacífico, e foi aposentado em 1965; no final da década de 80 é que ele virou este museu (não sei onde se mantém um porta-aviões aposentado por 20 anos, mas ele parecia bem conservado).


O principal objeto de exposição deles, que fica no convés do porta-aviões, é um Blackbird, um avião que era usado como espião no tempo da guerra fria, e que é o avião mais rapido já construído. Como ele era muito secreto nunca se fizeram testes regulares com ele, mas sabe-se que ele voava rotineiramente a mais de 50km de altitude e a mais de 3.500 km/h. Ele é todo preto, devido a uma tinta especial desenvolvida para aguentar a temperatura que ele atinge durante o vôo (quando, diz-se, ele fica com uma tonalidade ligeiramente violeta). Ele esquenta tanto que, para compensar a dilatação, todo o avião tem "frestas" que só se fecham durante o vôo. Isso quer dizer, entre outras coisas, que o avião decola com o tanque de combustível pingando, e precisa reabastecer no ar antes das missões.


Outro objeto interessante, este fora do navio, é um pedaço do Muro de Berlin. É o segundo que eu lembro de ter visto (outro fica em Mountain View, ao sul de San Francisco), mas já ouvi dizer que se se juntar todos os pedacos do Muro de Berlim que andam por aí se faz uma Muralha da China. E, de volta ao navio, no andar de baixo temos a escultura original do evento de Iwo Jima, baseada na foto tirada quando os soldados americanos tomaram o lugar durante a Segunda Guerra. Depois foi revelado que a foto na verdade foi uma encenação, feita porque o fotógrafo se atrasou para a colocação da bandeira pela primeira vez...

É possível andar dentro do porta-aviões, subir à torre e ver onde ficavam os postos de comando, rádio, a roda do leme etc. Mas é muito apertado dentro do navio. Eu estava meio ressabiado da minha ultima experiência dentro de um navio militar (na verdade, um submarino), em que bati a cabeca no teto algumas vezes, então me movi muuuito devagar lá dentro e não tive incidentes. Recomendo muito cuidado com as escadas, também.


Como falei acima, era dia de St. Patrick; este é o santo padroeiro da cidade de Nova York e também dos irlandeses, que representam uma parcela considerável da população local. Neste dia a 5a. Avenida é fechada para o desfile de comemoração, e acredito que muita gente faça feriado, a julgar pela quantidade de pessoas nas ruas assistindo tudo.

Este desfile é o que se aproxima mais, em Nova York, de um desfile de carnaval: há musica, as pessoas se vestem a rigor (de verde, ou com enfeites verdes, ou mesmo com o rosto pintado de verde), e há amplo consumo de bebidas, especialmente cerveja. No entanto, se se olhar para o desfile propriamente dito, ele parece mais com um desfile de 7 de setembro.


Explica-se: na época da vinda dos imigrantes para os EUA em geral, e Nova York em particular, alguns grupos étnicos tinham a tendência de ir para algumas profissões específicas: judeus eram médicos ou repórteres ou joalheiros, árabes eram comerciantes, italianos eram mafiosos ou pizzaiolos etc. Irlandeses eram policiais. Seguindo uma tendência normal de passagem de profissões de pais para filhos, ainda hoje uma porcentagem significativa da força policial americana é composta de descendentes de irlandeses. Assim, muitos dos blocos do desfile eram de forças policiais de várias partes do país, em geral formando uma banda, muitas vezes usando saias e tocando gaitas de foles (parece que não são só os escoceces que fazem isto, não). Os outros "blocos" eram times esportivos, escolas, grupos de escoteiros, clubes de idosos, militares, veteranos de guerra etc. Sobre o consumo de bebidas, bem, uma parte importante do estereótipo do irlandês (ruivo, sardento, policial) é "gosta de cerveja". Parece ser verdade.

Onde entra o verde nesta história ? Nem imagino. Uma das faixas da bandeira da Irlanda é verde, mas não sei se isto tem algo a ver. Outro simbolo do dia é um trevo de quatro folhas, que vem de alguma forma da mitologia dos leprechauns (duendes irlandeses que guardam um pote de ouro), mas também não sei qual a ligação disto com o santo. Aceito sugestões.


Fora o desfile, onde vi o prefeito de Nova York, não aconteceu mais nada de muito importante no dia. O jantar foi interessante... comi em um restaurante chinês (chamado "Wok and Roll"), e o prato que eu escolhi foi um "chicken with cashew nuts" (galinha com castanhas de caju). Basicamente, é o frango xadrez que se come aqui (galinha em cubos com um monte de vegetais), com castanhas de caju no lugar do amendoim. Achei muito estranho, até porque eu tinha o hábito de pensar em caju como um produto mais ou menos tropical, e não algo que eu fosse encontrar na culinária chinesa. Mas, sinceramente, a comida fica muito boa.

Detalhes interessantes do dia... o Empire State estava iluminado de verde nos andares mais altos, em comemoração do dia de St. Patrick. Depois vi pelo menos mais dois prédios iluminados da mesma forma.

Programa da noite: cinema. Fui assistir "Central do Brasil", que eu ainda não tinha visto e estava passando perto do hotel. Cinema quase cheio, com americanos, e as pessoas pareceram gostar do filme. Gostei da história e da interpretação, mas acho que era exagero querer um Oscar (isto foi alguns dias antes da entrega do prêmio, a propósito). A crítica de cinema do New York Times discorda de mim nesta última parte: "Central Station" tinha a melhor nota entre todos os filmes listados no jornal (9.7), com uma nota bem melhor que o filme daquele italiano engraçadinho. Detalhe da versão americana: os palavrões usados no filme eram muito suavizados na legenda.

O cinema onde o filme estava passando era, claro, um cinema mais ou menos alternativo, mas creio que isto absolutamente não tira do filme o mérito de passar várias semanas em cartaz lá. O preço do ingresso, 8 dólares, é que foi ligeiramente extorsivo (eu estava acompanhando a cotação do real pelo New York Times, e naquela época o dólar estava ao redor de R$1,87). Por outro lado, os cinemas mais comerciais de NY cobram $9.50.

Dia 6, 18/03/1999 - New York

Aproveitei o dia para dormir até um pouco mais tarde, porque eu estava precisando... Quando saí do hotel foi recebido por um lindo dia de sol, com uma temperatura agradavelmente ao redor dos 12 graus, maravilhosa comparando com os dias anteriores.

Um dos programas que eu pretendia fazer era visitar os estudios da NBC, no Rockfeller Center; eles tem tours guiadas pelos estúdios de hora em hora. Fui para lá, e descobri que só tinham lugar para dali a duas horas. Muito bem... reservei o lugar e aproveitei as duas horas que sobraram para aproveitar o sol. Fui andar no parque, almocei um cachorro-quente na rua, visitei a Bloomingdale's... em resumo, andei sem muito destino. Durante a caminhada ainda vi o Will Smith (do "Men in Black") na rua, sendo entrevistado por um repórter da Cinemax... primeira pessoa famosa que vi em NY!

Voltando à NBC... ela é uma das três grandes redes de TV dos EUA (os outras são a ABC e a CBS, depois seguem a Fox, a UPN e a Warner), e foi a primeira a ser criada e a líder de audiência já a algum tempo. Seria o equivalente da Globo aqui, mais ou menos. A tour dos estúdios começa com um vídeo contando a história da rede, que foi fundada, como uma emissora de rádio, por um imigrante russo chamado David Sarnoff. Curiosamente, a NBC foi a primeira emissora de rádio comercial dos EUA, e o principal problema dele para começar os negócios foi achar alguém que acreditasse na idéia de que as pessoas iam querer ficar ouvindo algo que não estava sendo dito para ninguém em particular; também não era muito claro como é que se ia fazer dinheiro com isto. Em resumo, este é o tipo de cara que teria feito um website comercial em 1994.

Ele finalmente conseguiu apoio da General Eletric (que, acredito, pretendia fabricar rádios), fez muito dinheiro e veio a ser quem abriu a primeira emissora comercial de TV nos EUA, alguns anos depois, e o primeiro a transmitir em cores (o que é o motivo do símbolo da NBC até hoje ter as cores do arco-íris). Eles pretendem ser os primeiros a transmitir regularmente em sinal digital para HDTV, seguindo a tradição...

Depois segue-se para um rápido tour de alguns dos estúdios, os que estivessem vazios naquele horário. Passamos pelo estúdio de esportes, o do Dateline (programa de notícias deles, passa na Superstation aqui), o da Rosie O'Donnell (que tem um talk-show mais ou menos no estilo do Ratinho sem tanta baixaria, até porque o FCC não deixa), e vimos a montagem do Saturday Night Live para o programa do sábado seguinte. Como este último é apresentado ao vivo e cada vez com um cenário diferente, existe uma logística toda especial para a preparação. Quando passamos por lá eles estavam preparando as paredes, e tambem tirando as fotos "oficiais" dos convidados da semana, que era a banda Garbage. Um comentário interessante é que os estúdios são muito menores do que parecem na TV; a guia explicou alguns dos truques que se usa para passar esta impressão (nunca mostrar mais de uma parede na mesma tomada, fazer cortes de câmera enquanto as pessoas caminham para o trajeto parecer mais longo, mover as câmeras junto com as pessoas etc.)

Ao sair dali eu já estava atrasado para ir almoçar de novo com a Jing, a amiga chinesa que citei antes. Não comemos comida chinesa, mas eu aproveitei a ocasião para perguntar para ela sobre a "chicken with cashew nuts" do dia anterior. Ela disse que, de fato, aquele é um prato tradicional chinês, com castanhas e tudo, mas que na China galinha é uma comida para ocasiões especiais; a carne consumida normalmente é a de porco. Quando comentei sobre o nosso frango xadrez com amendoins, ela deu muita risada e disse que nunca se usa amendoins em comida na China. Vivendo e aprendendo...

O resto do dia foi dedicado a uma pequena tour de livrarias e estabelecimentos similares, e a tentativas de escapar do vento frio que tinha tomado conta da cidade; o sol estava bonito, mas a sensação térmica com aquele vento todo era baixíssima. Depois vi na TV que o vendaval tinha derrubado pedacos do suporte de um outdoor em Times Square (justamente no alto do prédio que dá nome ao lugar), e a área toda tinha sido fechada até conseguirem tirar o outdoor de lá. Comentaram que era a segunda vez em menos de um ano que Times Square precisa ser fechada ao trânsito no meio da tarde por algum acidente; a outra foi no meio do ano passado, quando um andaime desabou. Ah, e o resultado da tour das livrarias foi o livro novo do Dilbert :-)

Detalhe do dia: liguei a televisão e estava tocando "Águas de Março" na voz da Elis Regina e mais alguém cantando junto em inglês. Era uma campanha publicitária da Banana Republic.

Não percam na próxima parte: a troca de hotel, o primeiro beijo da Drew Barrymore, Nova York antiga e a chegada à costa oeste.

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