Penúltimo dia em Paris... desta vez eu novamente tentei dormir até um pouco mais tarde, mas fui impedido pelo barulho de obras vindo aparentemente do andar de cima: furadeiras, martelos etc. O lado bom disto é que me forçou a ir para a rua ver um pouco mais da cidade :-)
O roteiro programado para o dia incluía "museus que não sejam o Louvre", porque o Louvre estava fechado. E comecei pelo Museu Rodin, que fica bem perto dos Invalides (mas eu não sabia disto até esta manhã, quando resolvi procurá-lo em um mapa). Peguei o metrô e cheguei lá relativamente cedo, pouco depois que ele abriu.
Estava fazendo uma manhã gloriosa de sol, que me parece ser a situação ideal para visitar este museu em particular, porque um bom número de peças estão ao ar livre, no jardim do museu. Aliás, a primeira que se vê ao passar pelos muros é justamente "O Pensador", impavidamente ponderando sobre os mistérios da vida em frente ao museu. Depois descobri que dentro do museu havia também um "mini-Pensador" em bronze, num tamanho bem menor.
Como seria de esperar, as obras que atraíam mais atenção eram as mais conhecidas: O Pensador e O Beijo. Esta última, quando cheguei, tinha uma turma de uns 20 estudantes sentada ao redor e uma professora explicando entusiasmadamente algo, acredito que sobre a própria estátua. E descobri que em frente havia também um "mini-Beijo", igualzinho mas com o nome de "Francesca e Paolo". Pergunta: quem são Francesca e Paolo? Em outro museu eu vi um quadro que mostrava um casal, também com este título, mas não sei se são personagens de alguma história, ou pessoas reais, ou...
O museu todo é dedicado a obras de Rodin e da Camille Claudel, e tem muita coisa muito bonita lá dentro; esculturas com muitos detalhes, expressões faciais incríveis... ele era realmente muito bom; coloco este museu na categoria "não perca", para quem for a Paris.
Dali eu fui para o Musée d'Orsay, que fica mais ou menos de frente para o Louvre, mas do outro lado do Sena, e que "complementa" a coleção do Louvre (no caminho ainda consegui dar informações, de novo em francês, para mais uma turista...). No Louvre existem obras antigas, com datas anteriores a 1848; no Orsay existem obras que vão de 1848 até o final da 2a. Guerra. O que eu não sei é porque a data da divisão é 1848... mas isto quer dizer que o Orsay tem artistas mais modernos, como por exemplo Van Gogh, Renoir e até Rodin. Ele fica em um prédio que era uma estação de trem, e foi remodelado para servir de museu, então ele tem uma arquitetura bem interessante, diferente do estilo dos outros museus em que estive.
Fora algumas obras conhecidíssimas dos artistas citados acima, não existe nada extremamente chamativo neste museu; estava acontecendo uma exposição de fotografias do início do século que eu não fui ver (e a Deby nunca vai me perdoar por isto), e eu pulei completamente a parte sobre estilos arquitetônicos. Mas (aviso: crítica de arte amadorística a frente :-) deu para notar uma mudança de estilo nas pinturas expostas, fugindo bem mais dos temas que os italianos e franceses do Louvre seguiam (mulheres, Bíblia, batalhas) e indo para idéias mais abstratas, temas mais "neutros", menos realismo.
Outra "coisa" que tinha bastante neste museu eram crianças. Vi inúmeras turmas de crianças com professoras sendo levadas de sala em sala do museu, algumas com folhas de exercícios a serem respondidos com base no que fosse visto ali. É uma maneira de estudar arte e história que nós simplesmente não temos aqui... garanto que eu saberia diferenciar Monet de Manet muito melhor se pudesse ter ido a um museu e visto obras dos dois lado a lado :-) E as crianças pareciam estar adorando, aliás.
Depois de explorar o quanto pude este museu, e de almoçar na lancheria dele, peguei o trem até o Boulevard St. Germain e fui visitar o Panthéon, que é uma construção num estilo grego (jônico, se não me falha muito a memória) que serve, em poucas palavras, como um cemitério para homens importantes. Ali estão enterrados, por exemplo, Voltaire e Victor Hugo, entre dezenas de outros nomes completamente desconhecidos para mim.
Numa união meio eclética demais para mim, no centro da "nave" do prédio, abaixo da cúpula central, estava pendurado um Pêndulo de Foucault. Este tipo de pêndulo é nada mais do que um pêndulo muito alto, que oscila lentamente por um longo tempo, e que ao fazer isto demonstra a existência da rotação da Terra ao descrever um círculo completo em 24 horas. Havia marcações indicando a posição do pêndulo hora a hora, e ao menos quando eu estive lá ele estava certo :-)
Curiosidade: a maior parte da "nave" estava fechada ao público, só um pequeno corredor junto à parede estava aberto. Eu imaginei, logicamente, que fosse para preservar o edifício. Mas, lá no subsolo, entre os túmulos, tinha um painel contando a história verdadeira: o prédio é relativamente antigo, e o teto não é completamente impermeável; isto quer dizer que houve infiltração de água, e que a estrutura metálica dele enferrujou; ao enferrujar, ela se expandiu, e em alguns pontos as pedras estão quebrando e caindo; tinha uma foto de um bloco de 8kg que caiu alguns anos atrás... Então, no corredor onde se pode andar há redes logo abaixo do teto para segurar o que cair, e o centro está fechado não para proteger o prédio, mas as pessoas!
Saindo deste perigoso prédio, fui caminhar mais ou menos ao acaso no Quartier Latin, chamado assim porque era a parte da cidade onde ficavam os estudantes antigamente, e estes em geral falavam latim entre si; é o bairro "boêmio" de Paris. Também é uma das poucas partes da cidade onde a maior parte das ruas conserva o traçado medieval, o que quer dizer na prática que ele é formado de um labirinto de ruazinhas estreitas não muito amigáveis a automóveis (e menos ainda a caminhões). Mas é um lugar bonito, passa um certo "clima" de Paris justamente por causa das ruas estreitas.
Nesta caminhada ao acaso eu cheguei ao Palácio de Luxemburgo, que fica junto aos Jardins de Luxemburgo, um parque adornado por várias estátuas do século 18 e onde fica a famosa "Fontaine des Médicis". Também parece ser o parque preferido da população parisiense em dias de sol. Existe uma área aberta bem grande ao redor de um laguinho artificial, e ao redor desta área existem cadeiras (soltas) para as pessoas sentarem. Como nesta época do ano o sol não sobe muito do horizonte, e acredito que dias muito ensolarados não sejam tão comuns, quando acontece um dia bonito as pessoas ocupam todas estas cadeiras e ficam ali sentadas, lendo ou conversando, sempre de frente para o sol, até acompanhando o movimento dele. Ou seja, o parque vira um jardim de girassóis humanos, todos acompanhando fielmente o movimento do sol para aproveitar o máximo possível da luz e calor. Muito divertido de olhar :-)
Falando sobre parques, e encaixando em algo que eu citei lá na parte 2... Paris é uma cidade que tem um problema de poluição grande. Não é uma cidade tão grande geograficamente, mas tem muitos carros, e em certos dias o vento não dispersa os poluentes e a qualidade do ar cai rápido. Vi em vários pontos da cidade painéis luminosos que mostravam a qualidade do ar no dia, e nunca vi algo como "bom" ou "ótimo". Neste dia em particular, o ar estava descrito como "très mediocre", o que, tomado literalmente, não faz muito sentido... Em alguns casos, algumas áreas podem ser fechadas a tráfego pesado, que foi o que aconteceu no dia do city tour, e em casos piores é decretado um "rodízio relâmpago" e só carros com final de placa par ou ímpar podem sair às ruas.
E por este dia o programa foi só este... de noite era hora de arrumar as malas, e me preparar para a looonga viagem de volta no dia seguinte :-)
Final de viagem, hora de ir para casa... o vôo de volta era só à noite, então aproveitei o dia para "tirar férias das férias", ou seja, relaxar e deixar os meus pés descansarem. Assim sendo, eu não tinha nenhum programa definido para o dia.
O que eu fiz... tomei café com toda a calma do mundo, fiz o checkout no hotel, deixei as minhas malas com o pessoal da agência de viagem que ia nos levar para o aeroporto mais tarde, comprei um livro ("Strange Highways", Dean Koontz) e fui fazer papel de girassol no parque de ontem! A idéia era ótima porque estava novamente um dia lindo de sol, com uma temperatura bem agradável, beirando nos 15 graus.
Cheguei lá perto do meio-dia, escolhi um bom lugar, sentei e fiquei lendo, notando que conforme passava o tempo o lugar ia ficando cada vez mais cheio, com gente de todos os tipos: jovens, estudantes, idosos, artistas (reconhecíveis por estarem com pranchetas e, em alguns casos, desenhando), mães com crianças, pais com crianças, crianças sozinhas etc. Muitos pássaros, também, principalmente pombas, pardais e gaivotas (ali é bem longe do mar, mas tem o rio, elas devem ter subido rio acima e gostado da cidade).
Saí para almoçar perto das duas horas, e quando voltei não achei mais lugares ao sol... mas depois de circular um pouquinho consegui uma cadeira nova num lugar bom, e fiquei lendo mais algum tempo. Depois, quando o sol começou a baixar e chegou perto da hora de ir para o aeroporto, saí para uma caminhada rápida nos arredores e peguei o ônibus de volta para o hotel.
Lá a parada foi rápida, e logo estávamos no ônibus para o aeroporto. Depois disto, o resto da viagem foi realmente normal... o vôo foi looongo e estava completamente cheio, não dormi quase nada, e o pouco que dormi foi justamente durante o filme de bordo (que, aliás, foi o mesmo da ida). Todo mundo do grupo estava mais ou menos junto, mas todos estavam também mais ou menos quietos, todo mundo cansado da viagem. Falando no grupo, o perfil dele é interessante... pelo que pude averiguar, todo mundo no grupo tinha um visto válido para os EUA, e esteve lá pelo menos uma vez no último ano (a maioria em Miami); e um bom número de pessoas já estava pensando em para onde seria a próxima viagem, com a Itália sendo um destino bastante citado. Ou seja, gente mais acostumada do que eu a viajar por turismo...
E acho que é só isto, encerramos aqui mais esta edição dos "diários de viagem"; acho que esta seqüência foi a mais longa até agora, espero ter agradado e conseguido manter o interesse até o final. E agora tenho que pensar em um bom destino para a viagem de férias do ano que vem; estou aceitando votos :-)
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