E hoje, começo de uma nova semana, para variar um pouco amanheceu um lindo dia de sol, parecendo que vai esquentar um pouco. Definitivamente o melhor dia no aspecto "clima" desde a chegada em Paris.
Como segunda-feira é o dia em que a maior parte dos museus e outros monumentos de Paris fecha (exceções são o Louvre e o Museu Picasso, entre poucos outros, que fecham em terças), decidi aproveitar ao menos parte do dia para compras. Como eu tenho uma irmã mais nova, eu não tinha como voltar de Paris sem ao menos um perfume. E ela, para garantir isto, já tinha escolhido o perfume em questão de antemão, era só ir comprar mesmo.
Antes disto, no entanto, eu fui aproveitar alguns dos poucos lugares que não fecham e cuja visitação tinha uma chance de ser relativamente rápida, e ficavam no caminho que eu pretendia fazer. A esta altura os meus pés já estavam se queixando do tipo de tratamento que eles vinham tendo, então minimizar deslocamentos a pé estava começando a ser uma preocupação minha.
O primeiro lugar foi o Hôtel des Invalides, que mencionei algumas vezes nos primeiros dias. Aquele lugar foi construído por Napoleão para abrigar os veteranos de guerra que ficassem incapacitados de trabalhar (os "invalides"), mas como quase tudo que Napoleão fez, é um pouco exagerado. O Dôme do qual eu tanto falei é uma cúpula dourada muito grande e muito bonita, que é realmente folhada a ouro; a restauração dela, alguns anos atrás, gastou 27kg de ouro. Diretamente abaixo da cúpula fica o túmulo do próprio Napoleão, que certamente não tinha isto em mente na época.
Se a cúpula já oferece uma vista inigualável de fora, por dentro é um fenômeno. De novo tive o problema de andar olhando para cima para ver as pinturas do teto... Lá dentro, além do túmulo do Napoleão Bonaparte (que é, digamos assim, a peça central), também estão os túmulos de outros Napoleões (descendentes) e de generais importantes da época. Agora, os túmulos não são exatamente o que se espera de um túmulo. No de Napoleão, por exemplo, poderia morar uma família de 3 pessoas; é uma estrutura alta de madeira, no formato aproximado de um caixão, mas muito maior. Ele está, como comentei, diretamente abaixo do centro da cúpula, numa área separada abaixo do nível do solo (mas aberta em cima), cercada de estátuas femininas, que me pareceram de anjos, lamentando a morte dele; entre as estátuas há painéis mostrando cenas da vida dele e contando as principais obras feitas por ele na França (construção de pontes, escolas etc.). Os túmulos dos outros são menores, já parecem realmente feitos para uma só pessoa, mas se esta pessoa estivesse viva ela poderia ter todos os confortos do mundo moderno lá dentro.
Logo ao lado da cúpula fica uma área que ainda hoje serve de moradia para veteranos de guerra, mas agora são veteranos da 2a. Guerra; esta área, claro, está fechada a turistas. E atrás do conjunto fica o Museu do Exército, onde eu cheguei a entrar mas não fiquei muito tempo. A ala que eu vi mostrava muitas vestimentas e armas usadas pelos militares franceses antigos em batalha. Naquela época as roupas era feitas muito mais pela elegância do que pela praticidade, de forma que parecem meio ridículas se comparadas às de hoje. Quero dizer, hoje em dia um soldado vestido de vermelho e azul num campo de batalha não dura 1 minuto, mas naquela época tentar se esconder provavelmente seria algo desonrado; uma batalha era realmente uma disputa de homens, e não de armas (não estou, em nenhum momento, dizendo que isto tornava guerras antigas mais honrosas, mais humanas ou menos violentas que as de hoje; estou só comentando que os métodos mudaram, e com ele as atitudes dos "guerreiros"). Ainda lá dentro aprendi a respeito de diversas "expedições exploratórias" que a França mandou ao México lá pelos séculos 16 e 17; eu achava que todo o massacre aos astecas tinha sido feito pelos espanhóis, mas aparentemente os franceses também deram uma mãozinha onde puderam...
Saindo do museu, fui na direção da Ponte Alexandre III, que é outro lugar que eu já citei antes. Esta ponte fica numa localização privilegiada: de um lado dela fica o Dôme dos Invalides, e do outro a rua que passa entre o Grand Palais e o Petit Palais, dois centros de convenções que ficam próximo aos Champs Elysees e que tem uma arquitetura muito bonita. A ponte tem quatro "pilares", um em cada "canto" da mesma, suportando esculturas douradas "dinâmicas" e muito bonitas, todas olhando na mesma direção que o Dôme (ou seja, de costas para o Dôme, recepcionando quem chega nele); além disto, cada poste da ponte é finamente trabalhado, e cada pequeno suporte da amurada lateral tem detalhes dourados. A ponte toda é uma grande obra de arte ao livre, muito bonita.
Passando por ali, cheguei à area da Ave. des Champs Elysees, onde eu pretendia fazer as compras. Quem leu a mensagem onde eu comentava sobre os preços naquela rua deve estar achando que eu estava maluco, mas continuem lendo. Eu fui comprar perfumes naquela perfumaria do final do city tour (parte 2), já que eu ainda tinha o cupom de desconto deles, e perfume é uma coisa que aqui é mais barato de comprar no Brasil. Comprei um perfume para mim, um para a minha irmã e ainda me arrisquei a escolher um para a minha mãe. Numa loja ao lado comprei alguns cartões postais para mais tarde mandar para os amigos, e segui andando pela avenida.
Um pouco adiante, perto do Arco, ficava a loja oficial da Copa 98. Eu achei interessante como se vê pouca coisa em Paris se referenciando à Copa, que não está tão longe assim. Tem esta loja, alguns souvenirs em lojas deste tipo de coisa, as fotos dos jogadores no açúcar do hotel, e me parece que só. Ah, e volta e meia se vê coisas como "X, o Y oficial da Copa", onde X e Y podem ser "Danone" e "iogurte", "McDonald's" e "restaurante", "Kodak" e "filme", "Visa" e "cartão de crédito" etc., mas isto também tem no Brasil. Então, sendo uma das poucas chances, entrei na loja.
Tinha tudo que é tipo de mercadoria, desde as tradicionais (camisetas, chaveiros, bonés, bolas) até algumas mais estranhas, como jogo de dominó, moedas comemorativas, baralho etc. Mas qualquer coisa com o logotipo da Copa ou o desenho daquele mascote estranho deles fica imediatamente mais caro por um bom número de francos, claro. Acabei comprando uma camiseta pólo com um discretíssimo emblema da Copa, e dois adesivos para os meus irmãos. Ainda teve um incidente interessante... enquanto eu andava pela loja, tinha uma equipe de filmagem também olhando tudo, filmando muitas coisas, e depois fazendo uma entrevista com alguém que parecia o gerente da loja, exatamente na frente da camiseta que eu queria... mas durou pouco.
E, depois deste pesadelo consumista, só me restava tentar economizar alguns francos no almoço, que portanto foi em um Burger King. Nos EUA o Burger King é o principal concorrente do McDonald's, e faz anúncios bastante explícitos comparando os sanduíches (alguns meses atrás eles chegaram a lançar um "Big King", que é idêntico ao Big Mac mas mais barato), mas na França parece que eles ainda estão começando. Aquele em que eu fui era um "Cyber Burger King", com estações para se navegar na Internet enquanto se comia. Desnecessário dizer que eu fiquei o tempo todo o mais longe possível de todas elas... Diferentemente do McDonald's, eles não dão catchup para se colocar nas batatas fritas: eles dão um molho que me pareceu uma mistura de mostarda e maionese, bem gostoso.
Almoço comido, peguei um ônibus e voltei ao hotel para largar as compras. Uma coisa que eu odeio fazer é andar, mesmo que seja dentro de um shopping center, carregando sacolas de compras, então como eu estava perto do hotel decidi me livrar delas o quanto antes... No caminho para a parada parei num parque (hmmm, que frase horrível!) e fiquei olhando vários senhores de idade no sol jogando algo que, até onde consegui ver, era um jogo de bocha igual ao jogado aqui no RS (tem disto em SP ou PR ?); pode ser que houvessem algumas diferenças sutis, mas em geral parecia a mesma coisa.
Notei um detalhe no ônibus que eu não tinha visto antes... eles são climatizados, claro, ao menos no inverno. Por isto, as janelas não abrem, exceto por uma pequenas janelinhas que ficam bem no alto. E, ao lado destas, havia um aviso dizendo que os passageiros podiam abrir aquelas janelas se assim o desejassem, mas que no caso de alguma discussão entre os passageiros quanto ao assunto, a preferência era de quem quisesse mantê-las fechadas. A regra até que é interessante, mas me pareceu que era levar a regulamentação um pouquinho longe demais...
Mas, fui ao hotel e logo em seguida peguei outro ônibus de volta e parei nas proximidades do Louvre, à margem do Sena, e comecei a caminhar seguindo a margem, na direção da Île de la Cité. Nesta caminhada tive a oportunidade de ver com mais cuidado a tal Pont Neuf, a ponte mais antiga da cidade, e de parar para pensar um pouco em porque ela teria justamente este nome... A conclusão a que eu cheguei é que aquela ponte é a mais antiga da cidade porque ela foi a primeira ponte construída lá usando pedras, e não madeira (isto é fato, eu li; a conclusão vem agora); logo, quando ela foi construída, fazia todo o sentido chamar de "Ponte Nova", porque era a única ponte diferente das outras, e portanto moderna ou nova. A outra hipótese é mais prosaica... "neuf" em francês pode tanto querer dizer "novo" quanto "nove", então de repente na verdade ela é a ponte número 9 e tudo não passou de um grande mal-entendido...
Mas eu confiei na durabilidade das construções francesas e cruzei a ponte para chegar à ilha, e na ilha desci até a margem do rio e caminhei um pouquinho pelo que hoje é a "quilha" da ilha, uma ponta artificial dela que foi criada quando foram unidas as ilhazinhas pequenas que existiam ali para formar a ilha grande.
Continuando a caminhada pela margem direita do Sena, passei por muitas daquelas ruazinhas estreitas que parecem tão tipicamente parisienses, e cheguei no Centre George Pompidou. Não foi por acaso, eu estava indo intencionalmente naquela direção, mas a disposição das ruas por lá é tão complicada que eu não tinha certeza se ia conseguir chegar no lugar certo mesmo. Este centro abriga o Museu Nacional de Arte Moderna, e já vi ele definido com um prédio ao avesso. Na verdade ele parece um prédio inacabado, já que todas as tubulações e encanamentos ficam do lado de fora dele (o que deve economizar muito espaço dentro, mas acaba criando um prédio muito estranho). Infelizmente ele está fechado para reformas, e deve continuar assim por um bom tempo de acordo com o que eu li.
E seguindo pelas ruas labirínticas do lugar, consegui chegar ao Museu Picasso, não sem antes errar o caminho algumas vezes e andar um pouco quase em círculos. Infelizmente estas atrasos acabaram fazendo com que eu chegasse lá quando ele já estava fechando, e eu achei que não valia a pena entrar para passar 10 minutos no museu. Assim, o Museu Picasso, como tantas outras coisas, acabou ficando para uma próxima viagem...
Ainda no mesmo trajeto cheguei a Praça da República, que tem uma estátua impressionante da mulher que representa a República Francesa (e que também está em todas as moedas de francos) e a prefeitura de Paris. A prefeitura de Paris me parece ser dividida em várias sub-prefeituras, cada uma responsável por um "distrito" (abreviado "Arr.", não sei como é a palavra completa). Endereços em Paris geralmente vem acompanhados de um número depois do nome da cidade, mesmo em situações em que o CEP não é realmente útil; o que este número indica, descobri depois de alguns dias, é o distrito onde se localiza o endereço; tanto pode ser um número como "75006" como simplesmente "6" ("Paris 6" ou "Paris, 75006"), ambos indicando o 6o. distrito.
O plano era seguir até a Praça da Bastilha, mas ela ficava a várias quadras dali, estava ficando tarde e eu estava cansado, então aproveitei a existência de uma estação de metrô ali e voltei para o hotel... Lá descansei um pouco, e já recuperado saí para dar um passeio noturno e jantar. Também aproveitei para bater algumas fotos noturnas, mas elas acabaram não ficando tão bem como eu gostaria por falta de um tripé...
Jantei em uma outra crepèrie a algumas quadras do hotel, e descobri que o modo de dobrar o crepe varia de lugar para lugar. E, melhor ainda, desta vez consegui não só me fazer entender em francês como até entender as perguntas do garçom! Lógico que em cada pergunta eu só entendia uma, talvez duas, palavras, mas sempre foi o suficiente para entender o que era a pergunta. Por exemplo, quando ele me fez uma pergunta que tinha uma palavra que soava como "boisse", eu lembrei que "boisson" é bebida e imaginei que ele queria saber o que eu ia beber; quando no fim ele me fez uma pergunta que íncluia a palavra "chose", imaginei que fosse "mais alguma coisa ?". A parte chata é que eu levava mais ou menos uns 2 segundos para "processar" o que ele tinha dito, então havia uma certa hesitação antes da resposta...
O Veríssimo, no livro dele, diz que em Paris existe uma marca de sorvete feita ali mesmo que é certamente o melhor sorvete do mundo; se chama "Berthillon". Nesta crepèrie eles tinham o tal sorvete, e como a temperatura externa estava em uns agradáveis 10 graus eu decidi experimentar: pedi uma taça com duas bolas de sorvete, sabores chocolate e "moka", uma mistura de chocolate e café que em inglês seria "mocha". Uns 2 minutos depois que eu pedi o garçom voltou e me explicou, em muito mais palavras do que eu seria capaz de entender, que não tinha mais moka (as únicas palavras que eu peguei foram "non" e "moká"), então troquei por um mero "baunilha". O sorvete é muito bom mesmo, e não sei dizer se não seria o melhor do mundo, mas tem boa chance de ser o mais caro. A taça custou 38 francos, e vieram duas bolinhas minúsculas do sorvete...
E foi só... no caminho de volta para o hotel, vi o meu primeiro acidente de trânsito em Paris (para ser honesto, o meu primeiro acidente de trânsito em muitos anos): em um sinal vermelho uma lambreta parou e o carro de trás não reparou nela, mas foi uma batida bastante leve que não machucou ninguém e eu só cheguei a reparar porque quando aconteceu eu estava pronto para passar em frente à tal lambreta para cruzar a rua; quando vi, a lambreta é que estava na minha frente...
Como comentei, já estou começando a entender um pouco mais das coisas que eu ouço em francês, mesmo que sejam apenas as palavras chaves das frases (para bom entendedor...). E estou reparando um pouco mais na pronúncia, também, e tentando me corrigir no que eu falo. Por exemplo, eu estava pronunciando "bonjour" com um 'j' americano, na verdade ele tem um som de 'j' brasileiro; "merci" não só não é pronunciado como "mercy", como de fato é pronunciado como "merciiii", com quatro 'i' no final; da mesma maneira, "bon soir" é pronunciado com pelo menos três 'a' no final, quatro para ser enfático. Isto deve ser um reflexo da mania francesa de, na dúvida, levar a sílaba tônica para a última. Como o hábito português é de, na dúvida, colocar a sílaba tônica na penúltima, isto cria conflitos inevitáveis de pronúncia ("Cocá Colá" é apenas o exemplo mais gritante).
E eu também comentei sobre o passado militar da França, mas o que eu não cheguei a comentar foi sobre a presença ostensiva da polícia e do exército nas ruas de Paris. Não é difícil encontrar grupos de soldados bem armados (e, reflexo dos tempos, com roupas camufladas) nas estações de metrô ou mesmo ao ar livre, e já vi várias vezes camburões da polícia com muita gente dentro indo com pressa para algum lugar. Policiais também estão em todos os lugares, em geral bem visíveis, e ao se ouvir uma sirene existe uma chance mais ou menos igual de ser polícia ou ambulância (na Bay Area, esta chance é de uns 5 para 1 a favor da ambulância). Um pouco isto ainda pode ser "sobra" dos problemas de terrorismo que eles tiveram ano passado, com bombas e ameaças de bombas em vários lugares.
Falando em policiamento ostensivo, hoje pela primeira vez vi fiscalização sendo feita no metrô. Mas não vi ninguém tentando viajar sem pagar ser pego.
Olímpiadas de inverno: a gente acha que estes jogos são só esqui, hockey e patinação artística, mas na verdade eles tem alguns esportes dos quais eu tenho certeza que nenhum de nós ouviu falar antes... o mais estranho que eu vi foi um que parecia uma versão de bocha para ser jogada no gelo com pedras planas de 10kg. Existe um alvo pintado no gelo, e uma pessoa arremessa uma pedra deslizando pelo gelo com o objetivo de deixar ela o mais perto possível do centro (acho); como existem dois times jogando, as pedras de um podem deslocar as do outro. Mas fica mais complicado: quando a pedra é arremessada, saem patinando do lado dois caras com esfregões que ficam alisando o gelo na frente da pedra para ela deslizar melhor (ou não, se ela estiver indo muito rápido). O nome do esporte é "curling".
E já que falamos sobre inverno, o inverno de Paris é sem folhas, o que provavelmente é um sinal de um outono absolutamente lindo. Estranhamente não existem pinheiros aqui; nesta mesma latitude na América se estaria numa floresta de pinheiros, mas aqui só tem árvores que perdem as folhas nesta época.
Bom, por enquanto é só... na próxima parte o glorioso encerramento da viagem, com mais museus, túmulos e lições científicas!
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