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Paris, parte 5

Domingo, 08.02.1998 - "I want something else..."

Domingo é dia de descansar, seja no Brasil ou na França. Com este espírito, aproveitei para dormir até mais tarde, mas não tarde que eu não fosse pegar o café da manhã no restaurante do hotel (encerra às 10:30). Estava um dia bem frio, aparentemente o mais frio desde que cheguei, mas também estava um belo dia de sol, com poucas nuvens no céu.

O programa do dia era La Villete, "La Cité des Sciences et de l'Industrie", que é um lugar que eu queria visitar desde a época em que eu li uma reportagem a respeito em uma Superinteressante anos atrás. Em poucas palavras, é um grande museu dedicado à ciência e à tecnologia, que fica em Paris, um pouco afastado do centro. Não é o tipo de programa que a maior parte dos visitantes a Paris faz, mas este era um dos *meus* pontos obrigatórios na cidade.

O jeito de chegar lá, como em quase toda a cidade, é de metrô, e envolvia uma conexão em uma estação no meio do caminho. Quase peguei o segundo trem indo na direção errada, mas me corrigi a tempo e consegui chegar no lugar certo. A estação do metrô fica logo ao lado do prédio, é o prédio impressiona: são cinco andares muito grandes (dois são subsolo), num total de mais de 70.000 metros quadrados de área de exposição. Obviamente muito grande para um dia só. Porque é que estes franceses tem que fazer *tudo* tão grande ? :-)

Ainda era meio cedo para um domingo frio, portanto não tinha muita gente lá ainda e não peguei filas. O ingresso para ele é um cartão magnético, que automaticamente te deixa entrar nas áreas para as quais o teu ingresso vale.

Eu decidi seguir mais ou menos o trajeto sugerido no folheto, e comecei por uma área que falava de matemática. Grande parte do lugar tem a intenção de ser educativo, e ao mesmo tempo ser atraente tanto para crianças quanto para adultos; também há várias partes que são especificamente para crianças menores. Na parte sobre matemática se aprendia sobre fractais com a ajuda de modelos por computador, teoria do caos com computadores e uma fonte (chafariz) mostrando comportamento caótico em sistemas com poucas variáveis, teorema de Pitágoras num modelo usando volumes de água para mostrar as igualdades, e sobre algoritmos com um método para dividir polígonos em triângulos (usado em computação gráfica). Tudo bastante interessante e, onde possível, interativo.

Depois havia uma parte sobre sons: havia uma demonstração de refletores e amplificadores naturais de som, propagação de ondas por meios sólidos (usando uma mola como modelo) e líquidos, e diferenças em qualidade de som entre cópias de cópias de cópias etc. feitas de modo analógico e digital (curiosidade: "digital" em francês é "numerique"). Também tinha uma "sala quieta", que tem paredes que absorvem ruídos e uma entrada em curva para eliminar qualquer ruído externo; a sensação de estar lá dentro é estranha, a sala chega a parecer meio opressora, com todo aquele silêncio... Ainda ali existia um teste de memória auditiva: uma maquininha fazia um som em uma determinada freqüência; depois de se ouvir por algum tempo, ela começava a fazer outro som, e se tinha que controlar a freqüência dele até ficar igual ao anterior. Quando se achava que estava igual, se apertava um botão e a máquina dizia de quanto tinha sido o erro. O cara na minha frente errou por uns 4,5% a freqüência; eu errei por 0,014% (1620 para 1640 hz).

A próxima ala era sobre computadores. Tinha uma exposição sobre a história do computador, mas eu admito que eu estava mais interessado em ver que tipo de equipamentos antigos eles teriam. Tinham de interessante só um clone alemão do Altair cujo nome eu realmente não lembro. Na parte sobre personalidades importantes, eles tinham fotos e breves biografias de Shannon, Turing, Von Neumann, Grace Hopper, Bill Gates e Steve Jobs (um pouco para minha vergonha, os únicos que eu identifiquei pela foto foram o Bill, o Steve e a Grace Hopper). E ainda tinha uma boa parte sobre métodos de armazenamento de informação, de pinturas em cavernas até CDs e similares, e um comentário de que toda a informação contida na Biblioteca de Alexandria quando ela queimou caberia com folga em um CD...

A seguir, imagens e visão. Mostrava métodos de funcionamento de máquinas fotográficas, monitores de vídeo e câmeras de filmagem e tinha a tradicional "tela azul" que o pessoal da previsão do tempo usa em todo lugar (ali era na verdade verde, mas a idéia é a mesma). Mas a parte mais interessante era sobre perspectivas e ilusões de ótica baseadas nisto, parecia que se estava dentro de uma pintura do Escher. Eu comecei a andar com um pouco de cuidado quando eu notei que algo que parecia ser um espelho na verdade não era, era só um posicionamento cuidadoso dos objetos... Também tinha sombras de cubos na parede que eram projetadas por objetos que nem sequer pareciam com cubos, modelos tri-dimensionais "quase" idênticos a quadros do próprio Escher (mostrando porque a figura era tridimensionalmente impossível), algumas "projeções cônicas inversas" geniais (uma figura aparentemente sem sentido é pintada numa superfície plana, mas quando ela é projetada sobre um cone ela repentinamente "se encaixa"); idem para cilíndricas. E uma sala inteira que quando olhada por um furo na parede parecia ter um andar, e quando se estava dentro tinha na verdade dois. Ou seja, tudo ali era feito (e muito bem feito) para fazer o teu cérebro pensar que tinha outra coisa no lugar do que realmente existia.

Saindo ileso deste labirinto, cheguei à parte sobre aeronáutica e espaço. Eles dão uma grande ênfase ao foguete Arianne e os aviões Mirage (porque será ? :-) Apesar disto, ainda tinha um modelo mais ou menos na escala certa da Mir e um muito pequeno de um ônibus espacial. Também tinha um "foguete movido a água", que era um foguete plástico se movimentando verticalmente em um trilho, que podia ser enchido de água e "decolava" expulsando com força a água de dentro. Crianças controlavam por computador quanta água ia ser usada, e acompanhavam para ver a que altura ele chegava. Quanto mais água, mais tempo de propulsão, mas também mais peso para ser erguido no início, então o desafio era encontrar o ponto ótimo para chegar o mais alto possível.

Fiz uma pausa para o almoço já no meio da tarde e comi uma típica baguete com queijo e presunto. Estas baguetes são para os franceses o que hambúrguers são para os americanos, me parece: a fast-food default. E é muito bom, aliás.

Depois disto fui visitar um submarino que está em exposição no pátio do prédio (como ele está totalmente no seco, acho que ele está meio que permanentemente estacionado ali). Na entrada se recebe um gravadorzinho que serve de "guia" no trajeto pelo lugar. A primeira coisa que eu fiz ao entrar (por uma porta cortada na lateral dele) foi bater a cabeça no teto. A segunda foi me virar meio rápido e acertar o ombro em um cano. Depois disto eu comecei a me mover com muito, mas muito cuidado ali dentro, porque o lugar era apertado. Submarinos não foram feitos para pessoas muito altas, definitivamente. É interessante ver o lugar, mas não tinha nada digno de muito comentário por ali, a não ser o fato de que era tudo muito pequeno, passava uma impressão de bagunça, mas provavelmente tinha sido cuidadosamente projetado para caber ali. Consegui passar por todo ele sem atingir mais nada com muita força, pelo menos.

Depois voltei para dentro, fiz uma pequena tour pelo gift shop e pela livraria (alguns livros até pareciam interessantes, mas eram todos em francês...) e fui ver o cinema 3D deles. O filme animado, que envolvia um animal aquático meio estranho e várias cenas de perseguição (produção 100% francesa) até que era bom e muito bem feito, mas antes dele havia uma introdução de uns 15 minutos explicando detalhes da produção que eu estava achando monótono porque eu não entendia a maior parte do que eles diziam e as crianças presentes estavam achando monótono porque, bem, era só um bando de caras falando...

E depois disto já era hora de pensar em pegar o metrô de volta na direção do hotel. Desta vez a conexão foi beem mais fácil, e cheguei lá rapidinho. Fiz a tradicional pausa para largar a máquina fotográfica e os folhetos ganhos no dia, e também fiquei um tempinho assistindo as notícias na CNN. Daí decidir sair para comer alguma coisa e, quem sabe, ainda pegar a última sessão em algum cinema próximo.

Decidi comer numa pizzariazinha próxima, para experimentar a pizza francesa. Quase desisti quando notei que tinha fila na entrada do lugar, mas depois vi que, apesar do frio de 2 graus, a fila não era para a pizza: era para o sorvete. A pizza, de fato, estava boa, e tinha uma quantidade quase absurda de queijo (o que eu adoro).

E depois disto fui assistir Titanic na sessão das 10 horas no cinema mais próximo da pizzaria. O cinema não estava tão cheio quanto eu esperava, e tinha muitos estrangeiros (principalmente americanos) lá dentro, pelo que eu notei. Como agora temos tempo, posso comentar que gostei bastante do filme, mal se nota que são mais de três horas de projeção. A qualidade do som no cinema era ótima, o que ajuda muito neste tipo de filme, e apesar de o enredo romântico ser meio previsível (e o afundamento do navio também), o filme prende a atenção da gente. Muito bem feito em virtualmente todos os detalhes. E, a respeito do comentário do personagem do Leonardo Di Caprio sobre Paris ("the good thing about Paris is, there are lots of girls willing to take their clothes off for you"), não confirmo nem nego. Mas muita gente riu no cinema quando ele disse isto.

E na saída do cinema, já mais de 1 da madrugada, estava *muito* frio, mas a caminhada até o hotel era curta, o corpo ainda estava quente de ter ficado horas no cinema, e tinha sido um dia muito agradável, então o frio era na verdade revigorante, gostoso até. Eu teria saído assobiando, se eu soubesse assobiar :-)

Logo que eu cheguei em Paris eu imaginava que as pessoas de lá deviam se irritar com a maneira que os estrageiros pronunciam o nome da cidade deles (eles falam "parrí"; a gente fala "paris", os americanos "péris" etc.). Continuo achando que eles se irritam, mas deixei de me preocupar com isto na primeira vez que eu ouvi alguém na TV falar em "rrio de janeirrô". Mais tarde ouvi algo a respeito do "Rromarriô", também, mas não sei o que estavam dizendo.

E, já que estamos falando nisto... perto do hotel fica uma mistura de restaurante com danceteria (um restaurante dançante, digamos) chamado "Brasil Tropical", decorado com palmeiras de neon do lado de fora, e muito concorrido. Sempre que eu passei ali entre as 6 e as 8 da noite havia fila no lado de fora para entrar. Nunca tentei entrar, então não posso dizer como é do lado de dentro...

Acho que por este domingo é só :-) Nas próximas partes: compras, museus e cemitérios, e o jardim de girassóis humanos. Espero estar mantendo a curiosidade do meu público :-)

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