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Paris, parte 4

Sábado, 07.02.1998 - "I was in London, without fear..."

Sábado era dia de ir visitar Londres! Este era o segundo (e último) dos passeios programados pela agência turística que eu ia fazer, e desta vez tínhamos que acordar bem cedinho para ir para a estação pegar o trem das 9 horas. Antes de chegarmos na estação ainda tínhamos que passar no outro hotel para pegar pessoas do outro grupo que estava em Paris pela mesma agência; eles tinham ido um dia antes que nós e estavam em um outro hotel, mais longe do centro da cidade.

Apesar dos inúmeros avisos dos guias sobre não se poder chegar atrasado no ônibus, porque o trem tem horário etc. etc., alguns dos integrantes do grupo mostraram uma pontualidade tipicamente baiana; isto ia se repetir no correr de todo o dia, a cada vez que parássemos em algum lugar para fotos. Ainda assim, chegamos na estação com tempo e pegamos o trem sem problemas.

O trem que faz a linha até Londres é um dos famosos TGV, "trem de grande velocidade", e o embarque lembra muito um embarque em avião: existe check-in para bagagem, número de portão, assento marcado etc. A título de curiosidade, a passagem Paris-Londres custa 295 francos em cada direção. Eu estava no vagão número 1, num ótimo lugar colocado na janela. Mas a disposição dos bancos era meio estranha, eram de frente uns para os outros, agrupados quatro a quatro, com uma mesinha entre eles. Ao meu redor sentaram três indianos (dois homens, uma mulher), e daí ficou meio desconfortável, até porque eu não tinha muito espaço para colocar as pernas. Como o trem não estava nem um pouco cheio, eu troquei de lugar na primeira oportunidade.

E o trem anda nitidamente muito rápido, mas muito suavemente. Nos trechos em que ele anda ao lado de estradas se nota que ele deixa os carros para trás com uma facilidade incrível, mas se não se olhar para fora não se tem a mínima idéia de que velocidade se está fazendo. Como nós saímos muito cedo do hotel e não consegui tomar café, um pouco depois de sairmos de Paris eu fui até o carro-restaurante tomar um café e comer um "danish" (como é que é o nome disto em português ?), e na volta foi que eu me instalei em um lugar mais confortável.

Nós saímos de Paris em um dia meio cinzento, parecendo que vinha chuva, e realmente no caminho nós pegamos chuva. O trem fez uma parada ainda na França para pegar passageiros abaixo de chuva, mas ainda antes de chegarmos no Canal a chuva tinha desaparecido e estava um lindo dia de sol. A passagem do Canal da Mancha propriamente dita foi meio decepcionante porque, bem, não se vê nada. O condutor avisa que se vai entrar no túnel, se entra no túnel, e 20 minutos depois se está do outro lado, na Inglaterra. A grande diferença é que na Inglaterra o trem anda *muito* mais devagar que na França. Não sei se o problema é legislação ou qualidade dos trilhos (mais provável que seja o último), mas depois de sair da França se vai na velocidade de um trem normal, o que acaba tornando o trajeto mais demorado do que seria possível. Ainda assim, a viagem toda leva só umas três horas, e graças à diferença de fuso ainda se ganha uma hora indo a Londres, então chegamos lá por volta das 11 da manhã, para um dia maravilhoso de sol. Ah, outra diferença depois de passar o Canal: todos os avisos feitos a bordo são feitos em inglês e francês; na França, os avisos são primeiro em francês, depois em inglês; na Inglaterra é o contrário (na volta para a França acontece o mesmo).

Nós recebemos no trem uma fichinha para preencher e apresentar no controle de passaporte na estação na Inglaterra; este pessoal é um pouco mais profissional que os do aeroporto na França, mas também não foi muito difícil de passar. A moça folhou todo o passaporte, me perguntou quanto tempo eu ia ficar na Inglaterra (umas 10 horas, eu disse para ela), carimbou o passaporte me autorizando a ficar seis meses, e mandou passar. Agora, a sensação de estar novamente em um país onde eu consigo me comunicar facilmente com qualquer pessoa é muito agradável; saber que dá para falar inglês em qualquer lugar sem problemas, depois de uns dias na França, é maravilhoso :-) Me senti em casa.

Depois disto, agrupamos todo mundo num saguão da estação, compramos libras (troquei 50 dólares por pouco mais de 28 libras) e fomos para o ônibus. A temperatura externa estava agradabilíssima, uns 10 graus, com sol e sem vento. E ao chegarmos no ônibus tivemos a primeira apresentação de o que é estar na Inglaterra: tentamos, todos, entrar no ônibus pelo lado errado e não achamos a porta. Sim, lógico, o trânsito lá é do outro lado (dirige-se do lado esquerdo da rua), logo a porta do ônibus é do outro lado, o lado que vai ficar encostado na calçada. Óbvio depois que se percebe...

Contornado este problema (e o ônibus), conseguimos sair todos passeando por Londres. O nosso guia era um inglês que falava português com um forte sotaque francês (ele até largava algumas palavras em francês no meio da explicação), mas dava para entender. A primeira parada foi logo depois de sair, à margem do Tâmisa, para bater fotos do Parlamento e do Big Ben. Segundo o nosso guia, o nome do relógio vem do nome do arquiteto que "bolou" ele, um tal de Benjamin. Um tempo depois eu ouvi uma senhora no ônibus perguntando para outra se "Ben" queria dizer "relógio", e se portanto o nome era "grande relógio"... Primeira impressão: o Tâmisa é muito mais limpo do que o Sena, ou ao menos parece ser. É mais azul, ao menos; o Sena é verde.

Batidas as fotos, e passado o ritual da troca de fotos (achei alguém com uma câmera igual a minha para bater a minha foto :-), voltamos ao ônibus. Cruzamos o Tâmisa, passamos ao lado do Big Ben, vimos várias praças com monumentos a ingleses famosos (assim como em Paris, muitos deles eram generais), passamos em frente à Downing Street (onde fica a residência do Primeiro Ministro), vimos os guardas a cavalo cercados de turistas, e passamos por pontos famosos como Trafalgar Square e Picadilly Circus. "Circus", em Londres, é basicamente uma praça redonda (acho que vem de "círculo"), não tem nada a ver com "circo". Cruzamos o rio de novo, passamos pelo Museu de Torturas (passamos na frente, não paramos), cruzamos a Tower Bridge e paramos para fotos na Torre de Londres. A Torre de Londres são três torres medievais (todo lugar tem alguma idiossincrasia de nomenclatura...) que, creio eu, eram parte de uma fortaleza bastante importante na época em que foram construídas (por volta do ano 1000); hoje esta fortaleza abriga um museu. E a Tower Bridge tem este nome não porque ela tem duas torres (que sustentam um trecho levadiço da ponte), mas porque fica ao lado da Torre.

No tempo que paramos ali não dava para fazer muita coisa além de bater algumas fotos e andar ao redor, mas consegui uma boa foto de um típico táxi londrino. Os táxis e ônibus lá são realmente como aparecem nos filmes, não é enrolação. Mas, seguindo viagem, fomos ver o Palácio de Buckingham, residência da Rainha da Inglaterra (antes havíamos passado pela frente de um outro palácio que é a residência da Rainha-Mãe, e outro que é do Príncipe de Gales, o Charles; a família aparentemente vive toda espalhada por Londres). Não tem muito o que falar sobre ele, é até meio sem graça depois de ver os palácios e outras construções de Paris: ele é basicamente um enorme paralelepípedo, geometricamente falando; mas enorme ele é. E a Rainha não estava lá: a bandeira da Inglaterra não estava no alto do palácio. Apesar disto, tinha muitos turistas lá, como eu esperava que tivesse, e tinha aqueles típicos guardas ingleses andando de um lado para o outro na frente do palácio (não na frente dos portões; o público fica a pelo menos uns 50 metros deles e do palácio). Falando nos portões, eles são muito bonitos e ricamente decorados, mais interessantes que a arquitetura do palácio...

Dali voltamos para uma área mais central, onde era o fim da nossa excursão guiada. Fomos "largados" na Oxford Street, que é uma rua bastante comercial próxima ao Hyde Park, com o entendimento de que quem não estivesse ali de volta às 17:45 ia ficar para trás e ia ter que dar um jeito de voltar para a estação de trem sozinho. Que eu saiba, ninguém se atrasou...

O ponto onde paramos ficava próximo a uma versão londrina do Arco do Triunfo, o "Marble Arch" do Hyde Park. Tenho certeza de que aquele arco comemora alguma coisa, mas nem imagino o que seja. Eu segui a sugestão implícita no ponto de parada e comecei a subir a Oxford Street, com o objetivo imediato de parar em algum lugar e comer algo, porque eram quase duas da tarde e a gente ainda estava (de novo) no fuso errado. Pensando bem, estávamos no fuso horário mais "certo" de todos, que é o de Greenwich, mas... Bom, parei numa "steak house" e comi um belo bife bem passado, com fritas e salada. Depois é que eu lembrei de toda aquela bagunça envolvendo as vacas inglesas ano passado (o McDonald's na França até tinha um cartaz certificando que toda a carne ali era francesa), mas acho que não havia grande perigo de problemas... E, muito para minha felicidade, o pão que veio antes do bife veio acompanhado de manteiga! :-)

Depois de devidamente alimentado segui a caminhada pela Oxford St. Um pouco adiante estava acontecendo algo que imagino que seja um evento tradicional chamado "rag week" onde, pelo que eu entendi, os estudantes de medicina da UCH (University of Cambridge Hospital ?) tentam arrecadar fundos para pagar os custos do estudo. Tinha um ônibus parado todo enfeitado, um bando de estudantes vestidos de doutores e de pacientes, e muito barulho. Não pareciam estar sendo muito bem sucedidos, mas posso estar errado.

Na caminhada passei por pontos por onde havíamos passado apressadamente antes: Trafalgar Square, com a Galeria Nacional de Artes em frente (e eu sem tempo de entrar) e um protesto contra o Saddam Hussein (tinha outro protesto, este contra a intervenção inglesa no Iraque, a poucas quadras dali), Picadilly Circus, o prédio da BBC de Londres... No fim era mais divertido me desviar das grandes ruas e andar pelas ruazinhas laterais, apesar do risco de me confundir com a geometria das ruas e me perder por ali. Nas ruas laterais é que se vê como é a vida da cidade, não nos lugares cheios de turistas apressados como eu. E eu, como turista apressado, não vi muita coisa.

Num comentário por cima, Londres tem um jeito de "cidade grande" que Paris não tem. Trazendo para termos brasileiros, Londres seria São Paulo e Paris seria o Rio (ou Ouro Preto, talvez). O trânsito parece mais apressado, as pessoas parecem mais apressadas (e parece ter mais gente nas ruas), e não tem amplos lugares abertos como em Paris. Uma similaridade com Paris é o rio dividindo a cidade em duas e a conseqüente importância dada a pontes e barcos, mas fica por aí; até o Tâmisa parece mais isolado da população do que o Sena é.

Mas o aspecto mais notável de Londres ao andar pela cidade é mesmo o trânsito do lado errado da rua. A cada vez que eu ia atravessar uma rua eu tinha que pensar várias vezes a respeito de qual o lado de onde viriam os carros, e sempre dava a impressão de que eu estava olhando para o lado errado. Isto apesar de em quase todas as esquinas se ter instruções pintadas no chão: "look right" ou "look left", dependendo do caso. Mas sobrevivi sem arranhões ou sustos, apesar de tudo. Eu não tive que pegar ônibus, mas imagino que se precisasse eu ia acabar me confundindo e esperando ele do lado errado da rua... Mesmo agora, que eu estou me lembrando de como era, o meu cérebro insiste em colocar os carros do lado direito da rua, quando eu sei que eles estavam do outro lado. Incrível como certas coisas ficam tão fortemente gravadas dentro da gente, não ? Outra coisa interessante do tráfego: quando uma sinaleira vai passar de vermelho para verde, antes ela passa pelo amarelo. Deve ser para os motoristas já irem se preparando para acelerar quando abrir...

Outro aspecto interessante é a quantidade de cores diferentes de cabelo existentes na cidade. Não estou falando de loiros, morenos, grisalhos etc., mas de cores mais originais como verde-musgo, verde-limão, azul-cobalto, verde e vermelho (juntos) etc. Muita gente tinha cores mais tradicionais, claro, mas ainda assim os coloridos chamavam a atenção.

Também vi um senhor numa vestimenta tradicional escocesa tocando uma gaita de foles na rua para arrecadar alguns trocados. Dá para escutar a gaita de muito longe, mas foi meio difícil descobrir de onde, exatamente, estava vindo o som...

Comentei acima sobre táxis e ônibus... as cabines telefônicas, pelo menos algumas, também são como eu esperava que fossem. E os táxis estão se modernizando: não o modelo dos carros, porque este não mudou, mas muitos deles tem URLs pintadas na lateral :-) Outra coisa que foi como eu esperava foi a quantidade de souvenirs a venda envolvendo de alguma forma a Princesa Diana: qualquer loja tinha inúmeras mercadorias com o rosto dela, todas por preços que seriam amigáveis se fossem em reais, mas que em libras ficavam meio salgados demais...

Pegando o caminho de volta da minha caminhada passei em uma livraria (era uma chance de comprar livros em inglês que eu não ia ter de novo tão cedo, mas acabei não comprando nada), em uma loja de CDs (comprei uma coletânea de 3 CDs dos Pet Shop Boys e um CD do Oasis, baratinhos) e tomei um ótimo café estilo americano em um lugar chamado "Seattle Coffee". Interessante citar que o comércio na Inglaterra não pratica o famoso "sábado inglês" :-). Repetindo um comentário feito acima, é muito bom entender a língua do país onde se está; eu tinha mais confiança de entrar em lojas, falar com atendentes etc. do que na França. E o sotaque inglês tem um certo charme, um som agradável :-) Tinha gente no nosso grupo que não entendia nada de inglês, e nem de francês; estes eu não sei como estavam se virando, honestamente.

E no fim comprei souvenirs (um moleton caríssimo para a minha irmã e uma caneta) e me encaminhei para o ônibus porque estava chegando a hora de voltar para a estação. Chegamos lá com uma antecedência razoável, deu tempo de tomar um suco para tentar gastar as últimas libras que tinham sobrado (acabei ficando ainda com mais de 2 libras) e comprar algo para ler na viagem de volta (como ia ser de noite, a paisagem ia ser bem mais chata do que na ida). Falando com outras pessoas do nosso grupo, os trajetos feitos não foram muito diferentes do meu, até estranhei não ter me encontrado com ninguém; acho que os horários diferentes de almoço separaram todo mundo...

Como sempre acontece quando eu compro algo interessante para ler em uma viagem, eu acabei não lendo nada na viagem (neste caso era uma revista "Wired" com uma reportagem sobre vida no Silicon Valley, que eu acabei conseguindo ler só no vôo de volta de Paris). Desta vez fui sentado no meio de um bando de brasileiros (mais notadamente, brasileirAs; tinha um homem) do outro grupo (os que estavam no outro hotel) e viemos conversando. Uma delas, sentada na minha frente (e portanto de frente para mim, lembre da disposição dos bancos), morava em Brasília e estava fazendo residência de medicina (e eu estou usando parênteses demais neste parágrafo); outra, do outro lado do corredor, era uma médica de Curitiba e estava ali com a filha, de uns 14 anos; e o homem era cearense, morava no Rio e era médico também; a filha dele estava na minha frente, ao lado da brasiliense, e estava a caminho de ser também médica. Eventualmente o assunto descambou para assuntos médicos dos quais eu não entendia *nada*, mas teve momentos mais divertidos. O curioso foi que a menina carioca que quer ser médica em pareceu o tempo todo mais madura (decididamente mais culta) que a residente de medicina de Brasília (a primeira citou filmes como "Remains of the Day" e "Contato", a segunda "George, o Rei da Floresta"), mas aquela primeira, descobri depois, vai fazer 15 anos em julho; parecia ter pelo menos uns 19, fisicamente assim como pela conversa.

Chegamos tarde em Paris, mais ainda porque perdemos uma hora na mudança de fuso horário. Quando chegamos ao hotel já era mais de meia-noite, e o que eu mais queria era dormir... Antes de dormir ainda dei uma olhada rápida no que estava passando na TV (eu precisava mesmo ligar ela para programar para despertar no dia seguinte), e digamos que a programação de tarde da noite da TV francesa é muito, muito mais liberal do que a daqui...

A propósito, o controle de passaportes na volta para a França foi feito no trem mesmo; um cara passou, pediu o passaporte de todo mundo, olhou a foto e devolveu. Simples, simples...

E acho que é só a respeito deste dia fora de Paris. A partir da próxima parte voltamos à nossa programação regular :-)

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