Mais um belo dia com neblina amanhece sobre Paris... a neblina parece mais densa do que na manhã anterior, e o dia parece ligeiramente menos frio, mas no resto tudo é igual. Exceto que desta vez eu dormi até um pouco mais tarde, aproveitando que desta vez não havia nenhum horário rígido para nenhum programa pré-determinado: estava livre na capital da França :-) Mas, para compensar que dormi mais, tomei um café mais curto para sobrar mais tempo para a cidade.
E o programa do dia era o único ponto turístico "obrigatório" do qual eu ainda não havia me aproximado muito: o Museu do Louvre. O Museu, ou Palácio, do Louvre é um lugar enorme, que mesmo sem ser um museu e ter o que tem dentro impressionaria. Ele já foi o Palácio Real da França na época que eles tinham monarquia, e era o maior palácio real da Europa. Como reis não são muito de economizar pompa, isto certamente quer dizer algo... O prédio tem a forma aproximada de um U quadrado, com a praça de entrada (e a famosa pirâmide de vidro) ficando dentro do U. De ponta a ponta, cada "perna" do U tem mais de 500 metros, o que só aí dá mais de 1km de museu com vários andares. Nem todo ele é aberto a visitação, no entanto, o que não quer dizer que a área aberta seja pequena. Muito pelo contrário.
Cheguei nele pouco depois de abrir (às 10:00) e peguei pouca fila para entrar. Na entrada se passa por um detetor de metais, mais ou menos como se se estivesse entrando na área de embarque de um aeroporto. A pirâmide é o ponto de entrada, mas não tem nada dentro dela; é só uma clarabóia meio exagerada. Se entra por ela e se desce ao nível inferior, onde fica o saguão principal, a venda de ingressos, a livraria e "gift shop", cafés etc. A esta hora me pareceu que já tinha bastante gente andando por ali, mas eu estava muito enganado; ficava muito pior.
O folheto que a gente recebe no balcão de informações tem, além de um mapa geral de todos os andares do museu, indicações de onde estão as obras mais procuradas: a Mona Lisa, a Vênus de Milo etc. Isto certamente ajuda muito os turistas mais apressados (ouvi dizer que existe um "Guia do Turista Apressado no Louvre", mas não achei ele). Também tem uma boa explicação sobre as regras internas, especialmente sobre o uso de flashes para fotografar dentro do museu (não é proibido, exceto em certas áreas, mas é fortemente desencorajado). E, obviamente, não se deve tocar as obras em hipótese alguma.
Eu me dirigi direto à ala das pinturas e esculturas italianas dos séculos 13 a 17, que ocupa um andar de uma das tais "pernas" do U (ou seja, é enorme). Não dá muito bem para descrever o lugar, mas o fato é que havia obras muito bonitas, e muito complexas. Em algumas esculturas em que a, digamos, pessoa estava usando roupas, se tinha a perfeita impressão de haver uma escultura nua por baixo de um tecido, e não uma escultura simulando um tecido; o nível de detalhes era incrível.
E algo que chamava a atenção era a quantidade de gente que estava ali estudando: tendo aulas, copiando obras, fazendo anotações etc. O museu inteiro atua como uma sala de aula, campo de pesquisa e biblioteca ao mesmo tempo. Algum tempo depois, em outra ala do museu, eu achei uma pintura feita em 1796 mostrando o próprio Louvre por dentro naquela época, e era inacreditavelmente parecido: pessoas em grupo ao redor de quadros com professores dando explicações, pessoas fazendo anotações, pessoas copiando quadros... Com aulas assim, aposto que eu nunca teria confundido Monet e Manet na minha vida.
Aliás, isto respondeu a uma dúvida que eu tinha: sendo o Louvre um lugar tão concorrido assim, será que os parisienses chegam a visitar o museu ? (cariocas vão ao Corcovado ? não sei) A resposta parece ser sim, ao menos para os estudantes de arte em geral. Como bem uns 50% da população de Paris é artista ou quer ser, imagino que a resposta pode ser um "sim" genérico :-) (uns 50% da população de Los Angeles também é artista ou quer ser, mas estamos falando de tipos diferentes de artistas aqui...)
Andando e olhando os quadros, eu meio que por acaso reparei no teto daquela ala, e ele é um espetáculo a parte. Cada poucos metros do corredor formam uma pequena abóbada, e em cada uma há uma pintura mostrando cenas mitológicas e/ou bíblicas. Só que andar olhando para cima lá é meio perigoso... realmente é um lugar onde é difícil saber para que lado olhar primeiro.
A ala de pinturas italianas, obviamente, é onde fica a Mona Lisa; e, se o Louvre é um ponto turístico obrigatório, a Mona Lisa é um ponto obrigatório dentro dele. Ela fica numa sala fora do corredor principal, mas não numa sala exclusiva; há dezenas de outros quadros lá, mas ninguém parecia estar prestando muita atenção a eles. A sala estava cheia de gente, com uma certa preponderância de orientais com câmeras; e, aliás, a Mona Lisa é o único quadro protegido por um vidro supostamente blindado no museu inteiro, até onde pude ver. Alguém me perguntou "e como é a Mona Lisa de perto ?", e eu fiquei sem saber o que dizer. Puxa, todo mundo já viu o quadro, é algo tão conhecido que chega a ser meio anti-climático finalmente estar ali, na frente dele. Continuo meio sem saber o que dizer...
Tirada do caminho a parada obrigatória, continuei andando pelo museu. Passei por um lugar chamado "Galeria Apollo", que tinha inúmeros quadros de arquitetos e engenheiros e uma decoração inigualável no teto, além de representações dos 12 signos do zodíaco ao redor da sala. Ali era proibido usar flashes, foi o único lugar do museu onde vi esta proibição. Depois cheguei na parte das antigüidades egípcias que, fiquei sabendo depois, havia sido recentemente reaberta. As antigüidades estão dispostas cronologicamente, e eu fiz todo o caminho exatamente na ordem inversa (começando pelas mais novas). Eles tem objetos muito antigos lá dentro, coisas feitas a mais de 5000 anos, e outras de "só" uns 2000 anos com inscrições perfeitamente legíveis em grego (legíveis para quem souber grego, mas uma delas dava para notar que falava de Cleópatra). É estranho olhar para um jarro decorado com hieróglifos e pensar que uns 5000 anos atrás um cara passou uma tarde de sol (afinal, não chove no Egito) fazendo aquilo para a esposa carregar água e escrevendo ao redor algo como "propriedade da família Anedamon, não usar sem permissão", e 5000 anos depois aquilo vai parar no museu mais famoso do planeta. Que eu saiba, eu não fiz nada que vá durar 5000 anos, ou sequer que tenha uma chance de ir parar em um museu... acho que vou pegar todos estes relatórios de viagem, gravar em um CD e enterrar :-)
Dos egípcios fui para os franceses: ala de pinturas e esculturas francesas. Os franceses me parecem, em geral, usar uma temática diferente da dos italianos nos seus quadros: os franceses pintam, nesta ordem, mulheres, batalhas e paisagens (e eles tem alguma fixação inexplicável por seios) (bom, nem tão inexplicável...). Os italianos pintam a Bíblia, mitologia (incluindo batalhas e mulheres míticas), mulheres e paisagens, também mais ou menos nesta ordem. Lógico que isto é uma análise apressada e superficial de alguém que não entende muito de arte depois de passar 4 horas em um museu, mas pode nos dizer algo sobre a psicologia destas duas nações...
A esta altura já era meio-dia, e fui almoçar. Comprei um sanduíche, uma Coca-Cola, sentei no chão de um corredor no meio de um bando de crianças de uns 12 anos, e fiz um belo lanche. Depois dei uma caminhada pelo meio das lojas e cafés que ficam na parte de baixo do museu, vi a "pirâmide invertida" (tem uma pirâmide de vidro invertida em um saguão, com o objetivo de deixar entrar e espalhar a luz natural), e me dirigi para a parte do Louvre medieval.
O Louvre é um pouco mais antigo do que ele parece à primeira vista. Ok, ele é bem mais antigo do que parece a primeira vista. O primeiro palácio construído ali foi feito ao redor do ano 1200, e era bem menor do que o de hoje; além disto, ele era mais no estilo de fortaleza medieval, com torres circulares, fosso, ponte levadiça etc.; a área onde ele ficava hoje fica parcialmente abaixo de parte do Louvre atual (esta frase ficou confusa, mas acho que deu para entender...). E uma parte foi preservada para visitação, no subsolo do palácio. É um lugar sombrio, frio e úmido, onde dá para ver parte da muralha externa do castelo, o fundo do fosso, e entrar em uma das criptas onde, me parece, se guardavam prisioneiros (parece uma prisão, pelo menos; não consigo imaginar alguém morando ali). O termo "medieval" se aplica perfeitamente.
Dali eu fui para algo que era bem o oposto, que era o jardim onde ficam expostas estátuas gregas. É um lugar amplamente iluminado e até meio arborizado para passar a impressão de se estar ao ar livre, muito bonito. Ali é onde fica a Vênus de Milo, que é outra obra que todo mundo já viu, mas é muito menos "concorrida" que a Mona Lisa. E, numa comparação um pouco injusta, dá para dizer que a arte grega parece muito mais "moderna" que a dos egípcios. A comparação é injusta porque eu não sei quanto da arte egípcia realmente tinha o objetivo de ser arte, e também porque as esculturas gregas realmente são mais novas que as egípcias. Mas elas também são mais "realistas": as pessoas parecem mais com pessoas de verdade, há mais detalhes etc. Difícil explicar.
Depois disto só passei rapidamente por uma ala com antigüidades mesopotâmicas e orientais, que tinha objetos ainda mais antigos que os egípcios (tinha esculturas com mais de 6000 anos ali), e me encaminhei para fora do museu. Neste ponto haviam se passado umas 5 horas desde que eu havia entrado, e sinceramente eu não agüentava mais... não vi nem um quarto do museu, e prestei séria atenção a menos de metade disto, mas eu não ia aproveitar muito mais se passasse mais tempo lá. Depois de um certo tempo se atinge um ponto de saturação dentro de um museu, isto tem que ser visto com calma e tempo...
E tinha sol do lado de fora do museu. A neblina e as nuvens tinham ido embora e estava um lindo dia de sol, apesar de continuar frio. Como, conhecendo a minha sorte, podia ser o único dia de sol que eu ia pegar lá, peguei um trem e me dirigi para a Torre Eiffel rapidinho :-)
Chegando lá a fila para a subida não estava muito grande, aparentemente fazia pouco tempo que tinha sol e não tinha dado tempo de chegar muita gente ainda :-) Logo, comprei o ingresso e subi.
A Torre Eiffel foi construída no final do século passado, e na época era a estrutura artificial mais alta do planeta; continuou sendo até a construção do Empire State Building. Ela tem três níveis onde se pode ficar: no primeiro nível, o maior, existe um museu, exposições, alguma coisa sobre a história da Torre e coisas similares (isto eu li, não cheguei a parar neste nível). No segundo, já menor, existe apenas um terraço para observações, uma loja de lembranças e uma pequena lancheria. Até o segundo nível é possível subir de escada, mas são 1060 degraus... No terceiro, no topo, é só um terraço aberto, outro fechado com vidro um pouco abaixo, e uma loja de lembranças. Eu fui direto ao segundo nível, onde passei um tempo olhando a paisagem, que é muito bonita já dali. Previsivelmente, estava mais frio e mais ventoso que no chão... Daí, entrei na (lenta) fila para o elevador para o topo. A capacidade destes elevadores não é muito grande, então a fila andava beeem devagar e os elevadores subiam beeem cheios, mas tudo bem!
A subida para o topo da Torre é deveras assustadora para quem não gosta de alturas: o elevador tem grandes janelas, e dá para ver a cidade ficando lááá para baixo... são mais de 270m acima do chão. Mas uma vez lá em cima a vista é fenomenal: não tem nada por perto na mesma altura, se está acima de toda a cidade, e é uma cidade linda. Parece uma vista de avião, as fotos ficam parecendo mapas. Certamente não se tem nada igual em nenhum outro lugar, porque nenhum outro lugar é como Paris.
Ouvi muitos estrangeiros lá em cima, inclusive grupos grandes de mexicanos, portugueses e argentinos. Muitos americanos, claro, mas não muitos franceses. E apesar do frio e do vento passei um bom tempo lá em cima aproveitando a vista, que realmente merecia. Eu sou meio suspeito porque eu adoro vistas de lugares altos, seja onde for, mas a vista do alto da Torre Eiffel realmente não perde para muitas. Depois disto enfrentei a fila para descer, tomei um chocolate quente e comi uma donut no segundo nível (foi uma donut porque "donut" em francês é igual e eu estava sem muita paciência; eu tentei pedir um crepe, mas o atendente me respondeu com uma longa frase em francês que eu acho que queria dizer "não tem"), enfrentei outra fila para descer mais e cheguei de novo ao chão.
Saindo da torre estava começando a anoitecer, e comecei a ir na direção do hotel... caminhei pelo Champ de Mars na direção da escola militar repetidamente citada nos últimos dias, e até consegui dar informações (em francês!) para duas turistas: elas me pediram de longe se eu falava francês, e eu otimistamente sinalizei que "mais ou menos"; elas queriam saber se o prédio que dava para ver lá ao longe era a Tour Montparnasse, e era. Admito que só entendi as palavras "Tour Montparnasse" e vi para onde elas apontaram, mas imagino que a pergunta fosse esta. E ainda bati uma foto para um casal de turistas japoneses...
A caminhada ao hotel foi basicamente pelo mesmo caminho que eu havia feito no primeiro dia, só que no fim eu resolvi inovar e, ao invés de contornar a gare que fica em frente ao hotel, decidi atravessar ela. Levei mais de 10 minutos andando por ela e ainda acabei saindo do lado errado... Mas cheguei ao hotel são e salvo, fiz uma pausa para largar a máquina fotográfica e me aquecer um pouquinho, e saí para jantar.
A janta foi numa "crepèrie" próxima ao hotel, e obviamente o que eu comi foi um crepe, aliás delicioso. O que eu achei um pouco estranho foi que o crepe era triangular, com o "molho" colocado por cima dele; depois eu vi uma senhora com duas menininhas abrindo o crepe da filha (que era diferente do meu, tinha o "recheio" realmente dentro) e enrolando ele da maneira como eu esperava que um crepe fosse. Mas aí não só não dava mais tempo de fazer isto, como também no meu crepe não ia funcionar...
Na série "comentários sobre o país"... sabe aquelas imagens que se vê na TV e nos filmes de pessoas francesas andando pelas ruas levando baguetes enormes sem embrulho ? Acontece mesmo. Não só isto, muitas delas estão não só levando mas comendo a baguete no meio da rua, na maior tranqüilidade. Vi pessoas pegando ônibus com uma baguete de 1,50m embaixo do braço... Outra coisa tipicamente francesa são as lambretas ("vespas") que se vê em todo canto. Se usa muito patins (normais e em linha) e bicicletas, mas lambretas são o veículo popular mais usado; não é incomum ver senhores de idade usando terno e gravata e "costurando" entre os carros nas ruas mais movimentadas. E uma outra peculiaridade eu notei quando pedi água mineral num restaurante: ela veio numa garrafa de 50 centilitros (50 cl). Sim, eu sei que isto é meio litro, mas eu nunca tinha visto ninguém usar seriamente "centilitro" como uma medida de volume desde a quarta série primária, onde se tinha que fazer todas aquelas conversões de unidades, lembram ? Mas, sei lá, os franceses inventaram estas unidades, eles devem saber o que estão fazendo...
Uma vez eu li que existem quatro níveis de conhecimento de uma linguagem que não seja a nossa língua materna. No primeiro nível se entende a língua escrita, e só. No segundo se passa também a entender a língua falada. No terceiro já se é capaz de se comunicar por escrito nesta língua, e finalmente se é capaz de se comunicar oralmente nesta língua também. Em francês eu diria que eu estou no começo do nível um, mas dia a dia eu noto que o vocabulário vai crescendo aos pouquinhos. Certo, tem muita coisa que dá para entender facilmente porque parece com português ou com inglês, mas é necessário tomar cuidado com palavras que não são o que parecem... Um exemplo é a "séance" de ontem; outros seriam "pain", que é "pão" e não "dor", "pâtisserie", que não vende patês e sim doces, e "magots", que eu não sei o que é mas não é a mesma coisa que "maggots" (tem um restaurante chamado "Les Deux Magots", e eu acho que eles não estão se referindo a escargot). Ainda assim muita coisa dá para pegar pelo contexto, é a única coisa que pode ser em determinadas frases onde se entendeu todo o resto, e infelizmente eu cheguei aqui sem um único exemplo razoável disto...
Bom, depois da janta fui cedinho para a cama, porque no dia seguinte eu precisava acordar muito, muito cedo. Porque ? Não perca a explicação no próximo capítulo!
Fato inusitado do dia: na minha frente numa das filas da Torre Eiffel tinha uma moça que, à primeira vista, parecia estar usando um anel enorme em um dos dedos da mão esquerda. Na verdade, ela estava usando um relógio em um dos dedos da mão esquerda. É, um "relógio de dedo", feito como se fosse um anel. Até que ponto chega a imaginação humana...
< Parte anterior - Próxima parte >