E começa um novo dia em Paris. Acordei cedinho, cedinho, como todo bom turista em viagem de exploração. E fui acordado gentilmente pela televisão, que além de TV e tele-texto ainda acumula as funções de rádio, despertador e terminal de consulta da conta do hotel. Depois de sair meio a contra-gosto daquela cama macia, ocorreu a tradicional batalha com o chuveiro (todo primeiro banho com um chuveiro diferente causa uma nova batalha para descobrir os ajustes perfeitos para a temperatura e pressão perfeitas da água; em casos extremos isto pode durar mais do que o banho, mas não foi o caso).
E depois era hora do café da manhã. Além da hospedagem, nós também ganhamos café da manhã no restaurante do hotel. Restaurante este, aliás, bem "chique", com garçons gentis, bem vestidos e, principalmente, falando inglês. Aliás, muita gente falava inglês lá dentro, alguns com um sotaque nitidamente britânico. Muita gente bem vestida, também, e em mais de um sentido: eu, sabendo que não ia sair do hotel para o café, fui com uma camisa de mangas curtas; muita gente estava encasacada para enfrentar o frio da manhã parisiense, aparentemente esperando um restaurante ao ar livre...
Os franceses chamam o café da manhã de "petit déjeuner", que literalmente quer dizer "pequeno almoço". Mas de pequeno aquele café não tinha nada; inclusive, comi umas três vezes mais do que no jantar da noite anterior. Era um café no estilo americano, diziam eles (o que quer dizer que era na prática um buffet), mas tinha desde itens tipicamente americanos (omelete, bacon, lingüiças, pancakes com maple syrup etc.) até uma seleção ótima de pães, queijos, iogurtes e frutas. E como francês gosta de pão! Mas, também, eles sabem fazer pães gostosos... tinha uns croissants maravilhosos, e um pãozinho com pedaços de chocolate que era divino; comi mais de 20 desses durante a semana que fiquei lá. O café deles também era bastante bom. A parte divertida ficava por conta do açúcar, que era em cubinhos; os cubinhos eram embrulhados individualmente, e cada um tinha na embalagem a foto de um jogador da seleção francesa... [guardei um e trouxe para o Brasil; joguei fora depois da Copa] Ah, também vale a pena citar as geléias e o mel, que eram ótimos (mas quase dava pena de colocar algo naqueles pães...), e as frutas, que eram poucas (geralmente pêssegos, pêras (em calda), bergamotas ou similar e mais alguma fruta cítrica que eu não conhecia).
No decorrer do café deu para notar que nesta época do ano amanhece tarde em Paris. Quando eu acordei ainda era noite escura, e só começou a clarear depois das 8. Por volta das 8:30 já estaria bem claro, se neste dia em particular não tivéssemos uma forte neblina cobrindo a cidade toda.
Mas, neblina ou não, este era o dia do "city tour", também incluído no pacote. Ou seja, todo mundo pega seus casacos, máquinas fotográficas e crachá de "turista", entra num ônibus e vai conhecer Paris em três horas. Claro que tem o seu valor, ao menos para ajudar a gente a se localizar melhor na cidade, e também ouvir um pouco do que os guias tem para contar (não muito, infelizmente). E hoje o dia não estava particularmente frio (pelo menos para mim, tinha turistas mais do norte do Brasil se queixando muito da temperatura); estava fazendo uns 3 graus quando saímos do hotel, às 9:00.
Enfim, fomos. Passamos pelo Blvd. Montparnasse, que é mais ou menos uma das ruas principais do "bairro" onde estávamos (mais sobre a divisão da cidade mais tarde), pelo Dôme dos Invalides, e paramos para fotos da Torre Eiffel próximos à escola militar que fica atrás do Champ de Mars (para quem lembra da parte 1, é a mesma escola militar de ontem, mas pelo outro lado). A vista da Torre é muito boa dali, e até parecia que a neblina estava começando a ir embora aquela hora (não estava).
Depois dos cinco minutos para fotos, volta todo mundo para o ônibus e se segue o trajeto. Passamos pela Place de La Concorde, que era onde, na época da revolução, ficava a guilhotina. Hoje é onde fica um obelisco egípcio de mais de 3000 anos, que foi para lá no início do século de navio (uma versão que eu ouvi é que ele foi um presente dos egípcios a Paris, outra que ele foi roubado por um arqueólogo; as duas me parecem bem plausíveis). Dali passamos pela praça do Louvre e vimos a famosa pirâmide de vidro, seguimos pela margem do Sena e passamos pela Pont Neuf (o nome quer dizer "Ponte Nova"; é a ponte mais antiga da cidade), tentamos passar pela Ile St. Louis mas não pudemos porque ela estava fechada devido a excesso de poluição; acabamos fazendo uma grande volta para evitar a ilha, passamos pela praça da Opera (um prédio muito bonito), cruzamos o rio e paramos para ver Notre Dame.
A Catedral de Notre Dame fica na Île de la Cité, que, segundo a história, é onde começou Paris, com uma tribo de celtas que se chamavam os "parisii" (que eu não sei o que quer dizer, e me parece que ninguém sabe). Em mapas um pouco mais antigos (de antes de 1100, digamos), esta ilha são umas três ou quatro ilhas que depois foram artificialmente juntadas. A Catedral tem uns 600 anos, mais ou menos, e já foi até um depósito de farinha em algum período mais conturbado da história francesa. Hoje ela está passando por um processo de restauração, o que faz com que ela tenha nitidamente duas cores diferentes: as torres e a parte mais alta dela estão bem mais claras do que a parte mais baixa, que ainda tem aquela tonalidade de pedra antiga.
E o prédio impressiona. É uma construção gritantemente gótica, inclusive com todas aquelas gárgulas que todo prédio assombrado de filme tem. Sem falar nos vitrais incríveis, que seriam uma atração com ou sem igreja junto (mas que iam ficar ridículos sem a igreja). É um ponto turístico muito visitado, o que quer dizer que tinha *muita* gente lá. A igreja propriamente dita é aberta a visitação, exceto por certas áreas que são marcadas como "apenas para oração". E, óbvio, ali ainda são rezadas missas todos os dias, o que deve ser estranho com tanta gente entrando, batendo fotos e saindo toda hora.
Em frente à igreja fica o "marco zero" de Paris. Segundo a lenda, quem pisa sobre o marco zero sempre acaba retornando a Paris, então tem-se o espetáculo estranho de dúzias de turistas em fila para pisar sobre uma placa metálica no chão (e eu admito ter participado disto :-) Também ali na frente, um pouco para a minha surpresa, ficam muitos pedintes, disputando os francos dos turistas (acho que a idéia é que, se alguém está visitando uma igreja, este alguém estaria naturalmente inclinado a ser uma pessoa caridosa e ajudar); foi o único lugar da cidade em que vi pessoas pedindo dinheiro. Dica: não adianta alegar que não fala francês, porque daí elas (são na maioria mulheres) começam a pedir dólares.
Bom, depois de circular a igreja e bater várias fotos, voltamos para o ônibus e seguimos o passeio. O próximo ponto visitado foi a Torre Eiffel, mas desta vez de pertinho e vista do outro lado (que eu estou chamando de "frente" porque está de frente para o rio e para uma rua). Para minha surpresa, ela tem um enorme painel luminoso contando o número de dias que faltam para o ano 2000 (695, no caso). Me pareceu uma coisa meio "mundana" demais para uma cidade pretensamente tão intelectual e sofisticada, mas...
E, prosseguindo, fomos passar ao lado do Arco do Triunfo. A respeito do que eu disse ontem sobre tráfego: ao redor do Arco isto fica muito, muito pior. Imagine um cruzamento circular (também conhecido como rotatória; para quem é de Porto Alegre, ali na Nilo Peçanha tem um, e em São Paulo tem uma a cada três quadras). Agora imagine isto com 12 avenidas de mão dupla e muitos ônibus de turistas. Honestamente falando, foi a situação mais confusa que eu já vi na vida.
De um jeito ou de outro, circulamos o Arco e pegamos a Av. dos Champs Elysees (se tentarem acompanhar este trajeto num mapa, vao ver que não faz muito sentido; passamos perto do Louvre várias vezes, por exemplo; foi uma ordem mal escolhida). Vista do ônibus, é uma avenida como qualquer outra, honestamente; os pontos altos estão nas pontas: ela vai do Louvre ao Arco do Triunfo. E dali fomos para o nosso ponto final, que era próximo ao Louvre, em uma perfumaria (que, me parece, estava patrocinando o tour e oferecendo descontos). Não comprei nada, mas guardei o cuponzinho de desconto para voltar ali mais tarde. A esta altura já era quase uma da tarde e, apesar do café reforçado e do fuso horário errado, o meu estômago estava dizendo que era hora do almoço.
E o almoço foi uma ótima (mas pequena) lasanha, tendo como sobremesa um ótimo (e grande) sorvete de chocolate, em um restaurantezinho pequeno próximo à perfumaria. Desta vez eu tentei me fazer entender em francês mesmo com o garçom, e desisti quando não consegui fazer ele entender que eu queria beber água mineral (eau minerale). Curiosidade: assim como ontem, eu paguei a refeição com cartão de crédito. E, assim como ontem, ao invés de eles levarem o cartão para o caixa, eles trouxeram uma leitora sem fio para a mesa e passaram o cartão ali mesmo, na minha frente. Não sei se existe um bom motivo para isto, mas me pareceu mais seguro e rápido, e funciona bem. A propósito, a parte sobre o pão francês puro se repetiu, deve ser um hábito local.
Depois era hora de aproveitar a tarde para explorar a pé e com mais tempo alguns dos pontos por onde passamos rapidamente durante a manhã. Saindo do restaurante eu fui na direção do Louvre, mas não entrei nele (este é um empreendimento que precisa de tempo e preparação). Ao invés disto, fui na direção do Arco do Triunfo, passando primeiro pelo Jardin des Tuilleries (literamente "Jardim das Cerâmicas", mas tem este nome por causa do Palais des Tuilleries, que ficava ali e pegou fogo a muito tempo), que fica atrás (ou na frente ?) do Louvre e tem uma série muito bonita de esculturas do século passado expostas (e também muitos pássaros e muitas crianças parecendo que recém tinham saído da aula). Ali também fica o Musée de l'Orangerie, que foi um dos muitos que eu não consegui nem pensar em visitar...
Os jardins acabam na Place de la Concorde, onde pude olhar mais de perto o tal obelisco e de onde, mesmo com neblina, já dava para ver o Arco. E seguindo adiante se chega de novo aos Champs Elysees. Agora dava para perceber uma divisão nela: existe uma parte mais no estilo de jardins (árvores, chafarizes, espaços abertos) e outra mais comercial (lojas, restaurantes, cinemas, poucas árvores). A divisão é feita por uma rua que passa pela Pont Alexandre III, na minha opinião a mais bonita da cidade, e segue em direção aos Invalides.
Na parte comercial, o que mais impressiona são os preços :-) Eu olhava os valores, achava altos, dividia por 5 para ter o preço em reais, e continuava alto. Se desse para dividir por 5 de novo, começaria a ficar razoável. Ex.: sapato italiano, 4995 francos; relógio Tag Heuer, 19800 francos (não, não estão sobrando zeros); bicicleta Mercedes Benz, 9900 francos; chaveiro Mercedes Benz, 250 francos.
Falando em Mercedes Benz, a loja deles foi a única em que eu cheguei a entrar, e só porque eles tinham uma pequena exposição sobre Fórmula 1, inclusive com o carro do Hakkinen e um capacete do Senna expostos lá. E, além de carros e bicicletas, eles vendiam tudo que é tipo de lembrancinhas (canetas, chaveiros, isqueiros, camisetas) por preços absurdos, e uma série de carrinhos para crianças igualmente caros. Outras lojas da área incluem a Varig, Ralph Lauren, Chanel, Häagen-Dasz, Renault, Ferrari (numa rua lateral), muitas lojas de jóias, roupas e sapatos, e até um Planet Hollywood. E tinha muita gente lá, se não fazendo compras ao menos olhando tudo atentamente.
Chegando ao fim da rua veio a pergunta: como se atravessa este mar de carros para se chegar no Arco ? A resposta, óbvia depois que se sabe, é "por baixo". Tem um túnel ligando o Arco ao outro lado da rua, e por ali se pode cruzar seguramente, e foi o que eu fiz.
Junto ao arco fica a sepultura e o monumento ao soldado desconhecido francês, onde havia várias velas acesas e muitas flores. E, nas paredes do Arco, estão gravados os nomes das batalhas vencidas pela França e "celebradas" por aquele arco, bem como o nome dos generais que conduziram o exército àquelas vitórias. Eu sei que o nome dá a entender isto, mas eu nunca tinha parado para pensar no Arco do Triunfo como sendo um monumento comemorando vitórias militares; como será que se sentem os visitantes de países derrotados em algumas daquelas batalhas ao visitar o lugar ?
Outra coisa que eu não sabia e descobri ali é que dá para subir ao alto do Arco, desde que se tenha paciência para subir (e depois descer) 194 degraus em espiral até o topo (eu contei). Eu tive a paciência, e fui até o alto (para isto se paga uns 35 francos, aliás). A vista de lá é muito boa, porque (como comentei na parte 1) não existe muita coisa mais alta que o Arco nas redondezas dele. Aqueles 194 degraus equivalem a pouco mais de 50 metros, e para um lugar tão alto ele é surpreendentemente pouco protegido (ou seja, seria fácil pular de lá); pode ser que eu é que esteja acostumado à super-proteção dos americanos em lugares altos, claro. Visto lá de cima, aliás, o tráfego lá de baixo parece ainda mais confuso do que antes... Uma vez apreciada cuidadosamente a vista (ainda comprometida pela neblina do dia) e feito o ritual da "troca de fotos" com uma turista francesa (eu bati a foto dela, ela bateu a minha), segui o passeio...
Saindo do Arco, fui em direção a outro dos pontos turísticos obrigatórios da cidade, a Torre Eiffel. Eu relaciono o Arco, a Torre, o Louvre e os Champs Elysees como pontos obrigatórios porque são aqueles lugares que qualquer pessoa, em sua primeira ida a Paris, precisa visitar, no mínimo para apaziguar os amigos na volta. Sendo uma visita curta, inevitavelmente muitos lugares iam ficar de fora, e eu sabia que não importando quais eu deixasse de fora, eu ia ouvir na volta muitos comentários do tipo "mas como tu foi a Paris e não foi em X ?", então eu não estava realmente preocupado em fazer um programa completo. Mas, se algum dos pontos obrigatórios fosse deixado de fora, eu ia ter que ter uma desculpa muito boa ou inventar que tinha ido mesmo, para não ser linchado na volta por amigos mais zelosos...
Em todo caso, como eu ia dizendo, fui caminhando dali até a Torre. Não é difícil achar o caminho, porque se olha por cima dos prédios e se sabe em que direção fica a Torre, em geral; é só seguir mais ou menos para aquele lado. O caminho foi simples, mas incluiu uma profusão de prédios antigos, consulados, ministérios (lá é a capital, afinal de contas) e monumentos a pessoas desconhecidas para mim, em geral generais. Paris é hoje uma cidade muito intelectual e cultural, aparentemente a antítese de qualquer coisa militar, mas a cada poucos metros se é lembrado que a França já foi uma grande potência militar, e levou muito a sério este posto por um bom tempo. Eles ainda são uma potência militar forte, mas este aspecto do país não é tão lembrado e comemorado hoje em dia, me parece.
Cheguei na Torre sem maiores problemas, justamente na hora em que a neblina estava ficando mais forte e ficando mais parecida com uma garoa muito, muito fraca (mas suficiente para molhar as ruas), e começava a ventar. Ou seja, estava *frio*. Não surpreendentemente, havia muito pouca gente comprando ingressos para subir na Torre, até porque lá de cima certamente não dava para ver muita coisa. Assim, só o que eu fiz foi comprar um chocolate quente, sentar embaixo da Torre e apreciar a vista dali mesmo por alguns minutos. Deixei a subida para quando tiver sol ou para o último dia, o que acontecer antes.
Terminado o chocolate fui dar uma caminhada na margem do Rio Sena, indo na direção oposta ao "centro" da cidade (para todos os efeitos práticos, ao menos nesta série de textos, o centro é a Île de la Cité). A esta altura estava fazendo um dia tipicamente londrino, apesar de Londres ficar muitos quilômetros ao norte da gente. Caminhei algumas quadras pela lateral do rio até chegar perto da Maison Radio France, que é um prédio circular num estilo mais moderno, bem interessante (e com várias propagandas da Intel nas redondezas), e decidi fazer o caminho de volta pelo meio do rio. Não peguei um barco, não, nem decidi testar se eu conseguia caminhar sobre as águas: naquele trecho existe uma "mini-ilha" estreita no centro do rio, que se estende quase até a Torre e que o meu guia chama de "Alee des Cygnes", "Alameda (?) dos Cisnes". Não vi nenhum cisne.
Numa das pontas desta ilhazinha fica a cópia francesa da Estátua da Liberdade, que eles ganharam dos americanos e que, teoricamente, está "olhando" de frente para a de Nova York. Não sei de que tamanho ela é mas assumo que seja bem menor que a de NY, porque quando cheguei lá para conhecer e bater fotos só encontrei placas dizendo que a estátua está temporariamente em Tóquio participando de uma exposição... (mas volta em outubro, parece)
Depois disto, cansado e com frio, decidi voltar a uma área central de onde eu sabia que eu conseguiria voltar para o hotel sem caminhar todo o trajeto. Então, fui pegar o trem até o Musée d'Orsay, que fica quase em frente ao Louvre e numa área conhecida. O sistema de trens subterrâneos da Paris na verdade se compõe de dois tipos de trem. Um se chama "Metro" e é um sistema estritamente local, só dentro da cidade; um metrô, exatamente. O outro se chama RER (até hoje não sei o que quer dizer a sigla), e são trens que fazem linhas mais longas e que casualmente passam por dentro de Paris e aliviam um pouco do transporte urbano ao mesmo tempo. Os mesmo tickets valem para ambos, bem como para os ônibus; um ticket custa 8 francos, mas um bloco de 10 custa só 48. Também tem as "Grandes Lignes", que fazem trajetos ainda maiores mas só se pega nas "gares" e não tem nenhuma influência no transporte urbano.
Este trem em particular, até o Museu, era do RER. Comprei o ticket com o moço no balcão (porque, honestamente, não entendi o que fazer com a máquina; a esta altura eu não sabia a parte sobre a divisão entre RER e Metro, e não entendi a maior parte das opções), e fui para a plataforma certa. Uma coisa importante a saber é que o sistema de trens de Paris é na verdade uma armadilha cuidadosamente construída para pegar turistas distraídos sem despertar suspeitas de agressividade contra estrangeiros. Acho que é uma certa vingança contra este bando de estrangeiros falando inglês que aparecem lá todo ano e tentam usar a infraestrutura feita para os franceses.
Em primeiro lugar, quando o trem chega e pára, as portas não abrem: o passageiro que quer subir ou descer precisa apertar um botão ou mover uma alavanca (depende o trem) para liberar a porta. Esta parte, felizmente, eu já sabia, porque a irmã de uma amiga me avisou disto contando que ela ficou esperando a porta abrir até o trem ir embora... eu teria feito a mesma coisa se não fosse o aviso dela. Segundo, as estações não são anunciadas dentro do trem, logo a gente deve saber quantas estações tem até onde se quer descer, e cuidar a passagem delas. E terceiro (só no caso do RER), para se sair da estação (caso se tenha passado pelas armadilhas 1 e 2) é necessário usar o mesmo ticket que se usou na entrada, creio eu que para impedir que alguém compre um ticket urbano e vá parar em Versailles. Lógico que não está escrito isto em lugar nenhum (mas há vários avisos de que se deve ficar com o ticket até o fim da viagem para fins de fiscalização), e como tinha pouca gente não se tinha nem como seguir o exemplo de alguém. Eu e mais dois turistas argentinos ficamos um bom tempo tentando achar uma saída que funcionasse até que um amável francês nos explicou o truque...
Livre dos trens, fui para um lugar onde eu sabia que eu podia pegar um ônibus até o hotel (depois eu descobri que podia ter seguido um pouco mais com o trem e pego outro, com o mesmo ticket, até a gare na frente do hotel...). No caminho passei em um supermercado para algumas comprinhas pequenas, entre elas um pente (esqueci de levar, não tinha no quarto do hotel). Estava cheio (imagino que por causa do horário, fim de tarde). As coisas que eu mais notei é que havia pouca coisa nitidamente importada lá dentro, e que eles tem salgadinhos Doritos sabor bacon :-) E que, como a Suíça é ali do lado, chocolate suíço é bem baratinho: uns 10 francos por barras de 100 gramas daquele chocolate Lindt, que custa uma fortuna em Porto Alegre. E que eles não vendiam pentes.
E fui pegar o ônibus. Eu não tinha bem certeza se podia pagar para o motorista, se precisava ter o dinheiro exato como nos EUA, se precisava comprar ticket antes (e onde) etc., mas uma moça na parada me explicou que custava 8 francos, podia pagar para o motorista, e ele dava troco. Faltou explicar que não se entrega o dinheiro para o motorista, só se coloca ele numa plataforma ao lado dele e ele pega dali, e que ele não larga o ticket até se largar o dinheiro (o que criou um impasse interessante, porque eu fiquei segurando o dinheiro e ele o ticket e ninguém fazia nada...). Surpresa do dia: no ônibus as paradas são anunciadas por uma voz feminina gravada, diferentemente dos trens. Me pareceu ridículo, porque no ônibus a gente vê onde está, no trem que é tudo fechado é que se precisaria disto. Ah, e a história da porta só abrir quando se aperta o botão vale para o ônibus, também.
Cheguei no hotel por volta das 6 da tarde, noite escura já. O dia todo foi bem úmido e com neblina, apesar da guia do city tour insistir que o frio de Paris é sempre um frio seco; este dia deve ter sido uma exceção...
E o que se faz de noite numa cidade estranha quando se está cansado demais para andar muito ou para programas mais agitados ? Se vai ao cinema, apesar do risco de se dormir em um filme mais chato. Foi o que eu fiz, tendo notado antes que havia vários cinemas nas redondezas imediatas do hotel. Um problema imprevisto foi a necessidade de achar um filme que não fosse dublado em francês. Todos os cartazes de filme tem, ao lado do nome dele, um código "V.O." ou "V.F.", querendo dizer "versão original" ou "versão francesa". A divisão entre VOs e VFs e mais ou menos 50/50.
Outra peculiaridade é que, nos cartazes de horários, existem dois horários para cada sessão: o da "séance" e o do filme, o primeiro uns 15 ou 20 minutos antes do segundo. Obviamente "séance" não tem o mesmo significado em francês que em inglês (de "sessão espírita"), mas ainda assim me veio à cabeça a imagem de um bando de espectadores sentados no escuro invocando o espírito dos irmãos Lumière antes do filme... Descobri depois que o primeiro horário indica quando o cinema é aberto e começam a passar trailers e comerciais, e o segundo o início do filme mesmo.
Quando se é turista num lugar muito diferente da nossa casa, se tem a impressão de que se precisa "absorver" o clima do lugar para aproveitar o ambiente como um nativo. Na França isto quer dizer fazer programas extremamente artísticos e culturais, conhecer museus de alto a baixo, passar horas em cafés na calçada de boulevards, explorar lojinhas de livros antigos, e evitar de toda maneira os comportamentos "americanos" (e, no nosso caso, brasileiros) que se tem em todo lugar; em resumo, se tenta ser mais francês do que os franceses. Enquanto isto, os franceses mesmo (fora alguns mais esnobes :-) levam sua vida normalmente ouvindo rock, comendo no McDonald's, vendo filmes americanos, comprando produtos importados e, provavelmente, odiando a Torre Eiffel. Isto faz sentido, claro, porque o turista só tem uns poucos dias para ter toda a "experiência francesa" que os franceses têm durante toda a vida, então se precisa "comprimir" nestes dias tudo que um francês leva anos para fazer. Isto também acontece com turistas vindo ao Brasil, acredito eu, e imagino que em qualquer lugar. Só que um turista muito preocupado em agir como ele acha que os donos da casa agem pode acabar não só agindo de maneira exagerada como ficando desconfortável sem necessidade; ou seja, "when in Rome, do as the Romans do", mas não exagere.
Isto dito... eu decidi por um filme americano que, para meu crédito, foi dirigido pelo Costa Gavras: "Mad City", com o Travolta e o Dustin Hoffman. Mas antes de ir ao cinema eu precisava comer alguma coisa, mas se eu levasse muito tempo eu ia acabar perdendo a sessão que eu queria assistir. Em qualquer lugar do mundo, com a possível exceção de Cuba, onde é que se vai para comer um prato previsível e rápido ? E, claro, havia um MacDonald's convenientemente próximo ao cinema :-) Confirmo desde já que um Big Mac na França tem o mesmo gosto que em qualquer outro país onde já estive, e que, corrigindo levemente o Travolta em Pulp Fiction, o Quarterão com Queijo se chama só "Royal Cheese", e não "with cheese" (nem "avec cheese" nem "avec fromage"). Me saí bem com o francês falando com a atendente (também, de quantas maneiras se pode pronunciar "Big Mac" ? "le big mác" ?) apesar de "Coca" lá ser "Cocá". E o lugar estava completamente lotado com franceses; não ouvi inglês sendo falado lá dentro, o que confirma a tese sobre turistas exposta no parágrafo de cima... (um número 1 custa 36 francos, a propósito; uns 7 reais)
Sobre o cinema... nada muito diferente da maioria dos cinemas, imagino, exceto a disposíção das cadeiras: o cinema é *em subida*, a última fila fica na parte mais baixa, a tela na parte mais alta. Só funciona bem porque a tela fica alta e se olha por cima da pessoa da frente. Mito destruído número 17: nem todo filme francês é, digamos, um filme francês, se é que me entendem. Vi um trailer de um filme francês de ação no melhor estilo do Bruce Willis, mas com o Alain Delon, o Jean-Paul Belmondo e a Vanessa Paradis, aquela que cantava a música "Joe Le Taxi" que deu na "Vou de Táxi" da Angélica; muitas explosões, tiros, perseguições de carro... imagino que este tipo de filme eles não exportem para manter a imagem de intelectuais :-) E, antes de começar o filme, teve um clipzinho com o Mr. Bean (logo quem...) explicando que não se podia fumar, beber bebidas alcoólicas e conversar alto durante a sessão.
O filme até foi bem bom, mas ele não vem muito ao caso aqui, especialmente porque este texto está ficando "meio" longo... as legendas em francês até que não incomodavam muito, até eram interessantes de ver de vez em quando. Uma que outra vez me perdi tentando decifrar a legenda e não entendi nem o que estava escrito nem o que foi falado, mas nada muito grave...
E, devido também ao tamanho do texto, que o meu editor de textos está dizendo que passou de 25k, vou deixar alguns comentários extras sobre a cidade para serem feitos em algum outro relatório que fique mais curto... depois do filme eu só voltei para o hotel, assisti TV um pouco e fui dormir, que tinha sido um dia longo e o próximo ia ser também! E continuamos com o próximo dia na próxima parte; não perca!