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Dia 6 - 12.12.1999 - Tel Aviv

Domingo, dia de trabalho. Não se estranha tanto porque, afinal de contas, acabou-se de sair de um final de semana de dois dias. O problema é que parece uma segunda-feira, então a tendência a pensar que realmente é segunda-feira é muito grande. Assim como a tendência de se referir aos dias anteriores como domingo, sábado, sexta etc.

Acordei bem cedo para sair e devolver o carro antes mesmo do café. O procedimento de devolução foi rápido, e descobri que fiz 208km com o carro no dia anterior; o limite para a diária que eu estava pagando era de 250. Depois, voltei a pé para o hotel para tomar café. A agência de aluguel ficava na mesma rua do hotel, ela no número 99, o hotel no número 145. Apesar da proximidade numérica, a distância entre os dois era de umas cinco quadras; a numeração avança irritantemente devagar.

E depois do café, táxi para a empresa. E o táxi pegou um caminho diferente do do dia anterior. Isso foi algo que se repetiu durante todo o tempo que estive lá, acredito que nunca peguei exatamente o mesmo caminho duas vezes. Isso é bom porque conheci um pouco mais da área, mas se eu quisesse ir para lá por conta própria não era assim que eu ia aprender como...

O dia de trabalho não teve nada que mereça muita menção... o almoço foi um "chicken schnitzel", que é um prato alemão consistindo basicamente de peito de frango empanado. E sem sobremesa, acho que isto é só no dia da pizza. E outro ponto alto do dia foi o pôr-do-sol, que foi bonito a ponto de fazer a empresa inteira se congregar ao redor das janelas com vista para o oeste para observar.

mantenha distância Nas idas e vindas pelas estradas locais, eu reparei que mais ou menos três em cada cinco carros nas ruas tinham um adesivo vermelho no pára-choque traseiro com duas palavras em hebraico, sempre iguais em todos eles. Deduzi que ou era algo obrigatório, ou era uma mensagem política, ou era algo do tipo "use a cabeça, dirija pela vida". Então, decorei os desenhos e depois tentei reproduzir para alguém me explicar o que é que queria dizer aquilo... Queria dizer "mantenha distância", e de fato era obrigatório; não sei porque alguns carros não tinham, nem como se pronuncia as palavras. Também obrigatórias são duas faixas reflexivas listradas de branco e vermelho, uma em cada lado do pára-choque traseiro.

Aproveitando o embalo do texto em hebraico... durante as duas semanas lá, com a exposição contínua ao hebraico, alguma coisa se acaba pegando naturalmente. Para isso, são muito boas as placas que tem a mesma palavra em mais de um alfabeto (como nomes de ruas, ou marcas de produtos), porque dão uma indicação de como se pronuncia as letras. Legenda de filme é boa, também, para pegar alguma coisa, mas não tanto por causa justamente do alfabeto. Um pouco acabei também aprendendo pelo método óbvio de perguntar para alguém...

Então, alguns exemplos... a primeira letra daquele sinal de mantenha distância, que parece um W, se lê como ´sh´ (a primeira letra é a da direita); é a letra do meio em "Jerusalém", por exemplo, que lá se pronuncia mais como "Ierushalain", e também em "kosher". Uma letra que parece um C espelhado se pronuncia como "k", e um pequeno apóstrofo tem som de "i". Algumas palavras tem um som de "h" ou "ch" que vem lá do fundo da garganta, chega a dar pena de crianças falando isso; quando acumulam vários em seqüência, parece que a pessoa vai acabar de falar e largar o pulmão dela no teu colo. Uma coisa interessante é que não existem letras maiúsculas.

Mas uma coisa mais interessante eu descobri quando notei que, na maioria das vezes, palavras em hebraico ficam mais curtas do que no nosso alfabeto, para o mesmo som. Um bom exemplo é "kosher", que se escreve com três letras em hebraico. O motivo é que, na maioria das vezes, as vogais não são escritas; todas as letras são consoantes. Depois me contaram que, oficialmente, as vogais devem ser indicadas abaixo das consoantes por alguns pontinhos, onde o número e a posição dos pontos indicam o som da vogal. Na prática quase nunca se usa isto, o que causa inúmeros problemas para quem está aprendendo a língua. Os únicos lugares em que vi algo escrito com estes pontinhos foi em alguns outdoors. Para quem estiver mais curioso a respeito, um guia muito bom está em http://www.jewfaq.org/alephbet.htm.

Vocabulário básico: "sim" se diz "ken", "não" é "lo"; isso se aprende rápido. Aprendi alguns números: 3 é "sholosh" (vi uma propaganda de um PC com um Pentium III), 5 é "hamesh" e 7 é "shiva" (voei num 757). O nome da companhia aérea, "El Al", quer dizer "para cima" (ou "para as alturas", numa tradução mais poética); e o nome do Congresso, "knesset", quer dizer "se reunir". Belém, que lá se escreve "Beth Lehem", que dizer "casa do pão" (beth = casa). E acho que a única outra palavra que eu decifrei é "radash", que quer dizer "novo". Ah, e não se pode escrever o nome de Deus, algo que notei no jornal (em inglês), onde sempre aparecia "G-d" ao invés de "God". Me disseram que é para evitar que se cometa um pecado ao jogar o jornal fora com o nome de Deus escrito nele, o que seria um ato de desrespeito.

Bom, voltando ao meu dia... à noite saí para uma caminhada nas redondezas do hotel de novo, e achei um shopping center, bem maior que o outro onde ficavam os cinemas. Esse realmente era digno do comentário do Veríssimo de que qualque shopping center é um pedaço dos EUA, seja onde for: tinha Pizza Hut, McDonald's, Levi's, Burger King e até Toys'r'Us. E aquele ambiente de shopping, com clima controlado e música genérica. Algumas diferenças locais: guardas nas portas revistando as sacolas de todo mundo que entrava, e pessoas passeando com cachorros pelos corredores.

Jantei no Burger King (e foi aí que fiz a besteira de pedir queijo no hambúrger kosher), e de sobremesa tomei um sorvete da Haagen-Dasz, delicioso. E foi só, nesse dia!

No próximo episódio: chuva, troca de figurinhas e comida quase italiana.

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