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Ainda dia 5 - 11.12.1999 - Tel Aviv / Jerusalém

Bom, continuando de onde eu parei... eu estava andando por uma área não muito turística da Cidade Antiga em Jerusalém, entre árabes devotos e crianças jogando bolita. Depois de alguma caminhada, eu cheguei ao que parecia ser algumas das ruas principais da Cidade Antiga. Uma era a Via Dolorosa (assim mesmo, com nome em latim parecendo português), que é onde se inicia a via crucis "oficial" e onde fica o local do julgamento de Cristo (hoje tem um museu / escola no lugar), e a outra (que cruza esta primeira) tinha um nome árabe que não lembro mais.

Essa última é uma área mais turística e cheia de lojinhas de todos os tipos. Aliás, a sensação chega a ser estranha, porque se está em uma cidade muito antiga, mas rodeado de placas da Coca-Cola, Kibon (na verdade, o equivalente local, mas o logotipo era o mesmo (o novo)) e até Omo (com este nome!). Vi até um fliperama lá no meio.

Mas as lojas mais comuns eram de antigüidades, produtos religiosos e tapetes. Alguns dos vendedores são bastante "agressivos", fazendo o possível para que turistas ao menos entrem nas lojas, onde presumivelmente fica mais fácil tentar vender algo. Se vocês acham os vendedores de rua aqui do Brasil agressivos, não viram nada...

Essa rua com nome árabe levava ao Muro das Lamentações, que é o local mais sagrado da religião judaica. Ele é uma muralha que existe desde os tempos do Primeiro Templo dos judeus (não sei se ainda é *o mesmo* muro, mas fica no mesmo lugar), e é o ponto mais próximo que eles podem chegar do morro onde ficava o Primeiro Templo (e onde hoje fica uma mesquita muçulmana). O nome do lugar em inglês é "Wailing Wall", que, ao menos para mim, passa uma impressão horrível; acho o nome em português muito mais poético.

Na entrada para aquela área passa-se por um detetor de metais, e todas as sacolas que se esteja levando são revistadas. Sendo um lugar tão sagrado, ele é um bom alvo para atentados, o que explica o cuidado extra. Aliás, um árabe tentando entrar com um megafone foi sumariamente barrado, apesar de uma interminável discussão que ficou bloqueando a fila.

O nome do lugar não é tão justificado assim; os judeus não vão lá apenas para se lamentar. Sendo um lugar sagrado, eles vão lá para orações genéricas, me parece. Muitos se vestem nos trajes típicos judeus; algum tempo depois ouvi uma explicação sobre estes trajes, e vou incluir aqui na cronologia certa :-) A área imediatamente próxima ao muro é cercada, e só se pode entrar com vestimenta "adequada": as mulheres necessariamente com os ombros e as pernas cobertas (além do óbvio, claro), homens idem e ainda com a cabeça coberta. Para quem não tinha, eles davam na entrada um daqueles "mini-bonés" que os judeus usam (eu sei que tem um nome, mas não consigo lembrar). Além disso, as áreas para homens e mulheres são separadas; homens à esquerda, mulheres à direita, e a parte das mulheres é bem menor.

Não cheguei próximo ao muro, apenas fiquei observando da cerca. Notei que várias pessoas, ao terminarem sua oração, se afastavam do muro andando de costas, sem dar as costas ao muro até estarem a uma distância razoável. Alguém me disse que isto era uma forma de mostrar respeito ao lugar. Dentro da área cercada também haviam várias mesas com livros religiosos sobre elas, e cadeiras onde as pessoas podiam se sentar para ficar lendo.

Em frente ao muro fica uma praça, e a maioria dos turistas ficava no lado oposto dela, olhando de longe e batendo fotos dali. Dois motivos: um, ali tinha sombra, e o dia estava bem quente a esta hora; outro, era o meio do sabbath, e usar máquinas fotográficas é proibido neste dia; ali sendo um lugar sagrado, a proibição vale para todo mundo. Fiquei por ali um tempinho, e vi passar um senhor com um chapéu que, honestamente, parecia mais um pneu de automóvel. Era no estilo daqueles chapéus de pele russos, só que baixo e bem largo; se não fosse de pele, provavelmente seria tão agradável no verão quanto um sombrero. Até achei que o cara fosse russo, mas depois me explicaram que aquele chapéu é típico de um ramo do judaísmo mais ortodoxo.

Continuando a caminhada pela cidade, fui subir a Via Dolorosa (na direção oposta à da via crucis), e passei por um bando de japoneses que estava indo para o outro lado; o da frente parecia um padre, e o segundo estava carregando uma cruz nas costas. Quando vi, eles estavam parados para passar a cruz para o seguinte; o carregador anterior daí foi para o fim da fila. Imagino que eles fossem seguir o caminho todo até o local da crucificação.

Que aliás foi o que eu tentei fazer a seguir, mas sem a cruz e por um caminho mais direto. A via crucis é demarcada com os números das estações pelo caminho (às vezes meio escondidos), e termina na Igreja do Santo Sepulcro, que foi construída no lugar em que foi, presumivelmente, a crucificação e o sepultamento de Cristo. No entanto, não consegui chegar na igreja; havia simplesmente *muita* gente no caminho, chegava a ser difícil de caminhar no meio de toda aquela gente, e desisti.

O que fiz foi me dirigir para um dos outros portões da cidade, o Portão dos Leões, que fica de frente para o Monte das Oliveiras. Este é outro lugar que figura bastante na Bíblia, mas não cheguei a ir até lá; apenas olhei de longe. Mais sobre ele na próxima semana.

Depois disso fui circulando a Cidade Antiga por fora da muralha, passando ao lado de um grande cemitério judaico, e cheguei a um dos portões principais da cidade, o Portão de Damasco. Lá tinha *muita* gente, e um pequeno mercado informal ao redor para, imagino, atender ao público que chegava por ali. Muitas bancas vendiam imagens religiosas e outros artefatos (primariamente cristãos), outras vendiam comida. E em frente ficava o ponto de chegada e saída dos "sheruts", que são um tipo de táxi-lotação que vem de vários lugares para Jerusalém e vice-versa; é o único meio de transporte público que funciona no sabbath. Parecem mais com os lotações paulistas do que com os de Porto Alegre (são vans pequenas, e não micro-ônibus). O lugar era um gritaria infernal, com os motoristas anunciando a pleno pulmão o destino das vans, para atrair passageiros.

Aproveitei a pausa para comer algo; comprei em uma banca árabe um sei-lá-o-quê frito, um pouco parecido com um quibe mas com menos (ou talvez nenhuma) carne. Bom, quente e bastante barato, e dava para ver as pessoas fazendo. Ali ao redor vi pela primeira vez mulheres árabes com vestimentas tradicionais (umas quatro ou cinco), e só uma delas com o rosto coberto. Se não me engano, as solteiras devem levar o rosto coberto.

Tudo isso acabou levando um pouco mais de tempo do que parece, porque andar dentro da Cidade Antiga não é muito simples, e andar no meio de multidões é lento. Então, estava chegando o fim da tarde, e decidi voltar para o carro para voltar a Tel Aviv. Achei o estacionamento sem problemas, e o carro realmente continuava lá.

Aproveitei e pedi para as pessoas que estavam lá se elas podiam me indicar como chegar na estrada para Tel Aviv; tinha três pessoas, um que parecia o dono do lugar e mais dois árabes. Eles perguntaram se eu conhecia algumas ruas pelo nome, e eu disse que não; então, depois de uma discussão em árabe entre eles, me disseram que era meio complicado de explicar como chegar na estrada, mas eles podiam me acompanhar parte do caminho, até chegar mais perto, para explicar. Achei *muito* estranho, mas, bom, vamos lá; aceitei. Então, os dois árabes entraram no carro comigo e foram me indicando como ir: dobra aqui, dobra ali etc. etc.. Depois de uns dois quilômetros paramos em um sinal vermelho, me explicaram como seguir dali em diante, desceram do carro e disseram que dali eles voltavam a pé. Fiquei realmente surpreso com o grau de hospitalidade deles; achei que fossem pedir uma gorjeta pela ajuda, ou algo do gênero, mas não pediram nada, achei que podiam se ofender se eu oferecesse, e mesmo que eu quisesse oferecer não teria dado tempo, porque o sinal abriu assim que saíram do carro, e começaram a buzinar atrás.

Bom, a explicação deles de como pegar a estrada incluía "pare para perguntar depois de tal ponto"; realmente não era muito simples. Só que eu acho que eu nem cheguei ao tal ponto onde era para parar; depois de algum tempo no que parecia o caminho certo (tinha placas dizendo "Tel Aviv" com setas de tempos em tempos) eu notei que eu era o único carro em uma estrada de quatro pistas; ninguém à frente nem atrás por um bom trecho, em nenhuma direção.

Por que isto ? Bem... como eu disse anteriormente, apenas um certa parte da população de judeus israelense é realmente religiosa e segue as regras direitinho. Uma parcela pequena destes são os judeus ortodoxos, que seguem as regras com mais convicção e são meio fanáticos em alguns pontos. Eles tendem a morar em bairros próprios, e várias leis locais não valem para eles (eles não vão para o exército, por exemplo). A estrada em que eu estava, além de ir para Tel Aviv, também passava no meio de um bairro ortodoxo. Estávamos no meio do sabbath, e "dirigir automóveis" também é proibido neste dia. O resto dos motoristas aparentemente sabia disto.

O que aconteceu é que eu cheguei a um ponto em que a placa de "Tel Aviv" mandava entrar à direita, e ali tinha uma barricada bloqueando a pista. Em frente também não dava para ir, parecia um calçadão, com muita gente na rua e crianças brincando. Entrei à esquerda, andei um pouco por uma rua sem carros mas com muita gente me olhando das calçadas, dei meia volta e me mandei dali. Nada de mais grave exceto passar vergonha, mas depois me disseram que alguns judeus ortodoxos são meio agressivos com quem passa de carro pelas áreas deles no sabbath; alguns nativos sugeriram que o fato de ser um carro alugado tenha criado uma certa compreensão entre eles, também (carros alugados são marcados com o nome da empresa nas laterais, são facilmente identificáveis).

Em todo caso, continuei seguindo as placas e cheguei na estrada certa. O caminho de volta não teve maiores incidentes, e eu até sabia a saída certa da estrada porque era por ali que eu tinha voltado da empresa na quinta-feira. Demorei um pouco para achar o caminho para o hotel, e inclusive acabei caindo em mais uma rua sem saída no trajeto (mas nessa deu para fazer o retorno por um terreno baldio), mas cheguei lá, já de noite.

Nada de muito interessante no resto do dia... jantei no McDonald´s, e aproveitei para ver, no emaranhado de ruas de mão única das vizinhanças, que caminho eu teria que fazer para devolver o carro na manhã seguinte.

Detalhes avulsos do dia: em Israel também tem Teletubbies, vi propaganda na TV. E ainda tem lambada, era o que estava tocando quando entrei no McDonald´s.

No próximo episódio, que prometo que vai ser mais curto: hebraico para principiantes, um lindo pôr do sol e um pedaço dos EUA em Israel.

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