Sábado com cara de domingo. E fui acordado com a notícia de que chegou a mala! Aparentemente, a El Al conseguiu algum funcionário não-judeu para entregar a mala no hotel no meio do sabbath, e ela chegou no início da manhã. Inteirinha, e nem chegou a ser aberta. Parece que o jeito de evitar revistas detalhadas é fazer a cia. aérea perder a mala...
Em todo caso, aproveitei que acordei cedo para ir fazer um pouco de turismo. Mas, primeiro, café da manhã! Fui novamente ao buffet do hotel, e tomei novamente o bom café e o péssimo suco deles (não sei de que era o suco, mas era ruim), e comi uns doces ótimos. E desta vez não tinha o Mickey, mas sim a Minnie ("Minnie Maus", ouvi uma criança israelense chamando).
E tomei uma atitude corajosa para o turismo do dia (ou temerária): fui alugar um carro. Havia várias locadoras próximas ao hotel, liguei para quase todas até achar uma com um preço bom para um aluguel de um dia de um carro automático ($65, com seguro), e fui para lá. O "carro compacto" que eles tinham disponível era um Renault Clio, mas acabei ganhando um "upgrade" de categoria e a moça me deu um Nissan Almera, que tem mais ou menos o tamanho de um Tempra e vinha com um telefone celular (um Nokia 2160). Ela só não me disse o número do telefone celular, mas eu podia usar para fazer chamadas (que presumivelmente custariam uma pequena fortuna); fui instruído a, se eu deixasse o celular dentro do carro, não deixar à vista.
Fazia tempo que eu não dirigia um carro com câmbio automático, e nos primeiros minutos o meu pé esquerdo queria forçosamente pisar na embreagem de tempos em tempos. Também levei um tempo para me acostumar com o freio, *muito* mais sensível que o do meu Palio, e com a direção mais leve (o que reforçou a minha impressão de que a direção hidráulica dos carros estrangeiros é mais leve que a dos daqui, mas pode ser impressão minha).
Mas o verdadeiro trabalho foi achar a estrada. O objetivo do dia era Jerusalém, e eu sabia que tinha que pegar a estrada número 1 indo para o leste. Infelizmente, a 1 é marcada como "norte" ou "sul", mas não leste nem oeste, o que teria dificultado um pouco se eu tivesse chegado a achar a estrada sem ajuda. A moça da agência me explicou como fazer, mas eu devo ter feito alguma coisa errada e saí na estrada errada. No primeiro posto de gasolina parei, pedi informações, e o rapaz me indicou na direção mais ou menos oposta à que eu esperava; ele estava certo, claro. Ah, e eu devia pegar a estrada marcada como "sul".
E sim, eu tinha mapas.
Uma vez na estrada, foi tudo relativamente tranqüilo, exceto pelo detalhe de que placas que indicavam mudança de curso ("Jerusalém, next right") costumavam vir muito perto da saída indicada; depois de dois sustos, comecei a ficar na pista da direita para garantir. Mas a estrada era muito boa, parecia nova (depois vim a saber que boa parte dela era relativamente nova, mesmo), sempre com no mínimo duas pistas em cada direção e um muro central, na maior parte do trajeto três pistas. Aliás, a paisagem parecia a da Califórnia e, uma vez chegando às montanhas, era quase igual à da Hwy. 17 (San Jose - Santa Cruz), com menos pinheiros. Também digna de nota é a presença da polícia, sempre visível; vi vários carros parados com um carro de polícia estacionado atrás e um guarda falando com o motorista, muitos mais do que eu esperava para uma viagem de uma hora. Ah, e sinalização sempre em hebraico e inglês, às vezes também em árabe.
Geografia... Tel Aviv fica na costa do Mediterrâneo, quase ao nível do mar. Jerusalém fica uns 60km a leste, no meio do país e no alto de um pequeno planalto, uns 400m acima do nível do mar. Assim, um bom trecho da estrada é em subida por trechos sinuosos, e tem paisagens muito bonitas, embora bastante secas. O norte de Israel tem um clima agradável e quantidades aceitáveis de chuva, o sul é um deserto, e o centro acaba ficando num meio-termo, um pouco seco demais; a maior parte da água consumida em Tel Aviv, Jerusalém e arredores vem do mar da Galiléia, no norte do país, por encanamentos enormes às vezes visíveis no meio do deserto. Existem muito poucos rios no país, exceto o Jordão, na fronteira com a Jordânia.
Mas seguindo... achei Jerusalém :-) Felizmente a estrada acabava na cidade, então não tive problemas com isso. Agora, uma vez dentro da cidade... eu tinha um mapa das ruas da cidade, mas aquela não é o tipo de cidade na qual um mapa ajuda rápido; se precisa de tempo para estudar o mapa. As ruas são estreitas, sinuosas e nunca formam ângulos retos, a sinalização muitas vezes não é em inglês, e é impossível estacionar. Eu segui as placas que indicavam "Old City", o que me levou a lugares muito interessantes, como por exemplo ruas de mão dupla em que não cabiam dois carros lado a lado. Cheguei a cair em uma rua sem saída onde eu simplesmente não tinha como fazer um retorno, e tive que voltar de ré por uma quadra. Aprendi muito sobre controle fino e posicionamento do carro nestes 20 minutos de passeio... E, honestamente, ouvir buzinas e ver que o carro de trás é uma camionete da ONU foi uma experiência nova para mim :-)
Depois de algumas voltas acabei notando que eu estava dirigindo em círculos a poucas quadras das muralhas da cidade antiga. Por sorte, nesta altura achei um estacionamento 24 horas, onde se podia deixar o carro pelo dia todo por míseros 10 shekels (US$2,50), então larguei o carro e fui passear a pé. Note que eu achei o estacionamento enquanto dirigindo em círculos, o que quer dizer que eu já tinha passado por ele pelo menos uma vez sem ver...
A primeira parada depois de largar o carro foi em um hotel, onde pedi que o atendente me mostrasse no mapa exatamente onde a gente estava; achei que seria mais prático do que procurar pelos nomes das ruas. Uma vez localizado, me dirigi para os muros da Cidade Antiga, que eu podia ver duas quadras adiante. Levei o celular, por via das dúvidas. Eu já sabia que o "911" deles era "101" :-)
Geografia de novo... como já mencionado, Jerusalém é capital do país; ela é também a maior cidade do país, com uns 600 mil habitantes. O "centro" da cidade é a Cidade Antiga, que é a parte da cidade que ainda fica dentro de uma muralha, como antigamente. Aqueles não são muros originais, com milhares de anos de idade, como eu imaginava; eles foram construídos em 1500 e pouco, por um imperador romano (ou otomano ? um dos dois), mas ainda assim são respeitavelmente antigos, e se situam no lugar onde Jerusalém "sempre" ficou, desde (aí sim) vários milhares de anos atrás. Muitos pontos históricos importantes ficam ali dentro, ao menos supostamente.
E entrei na cidade antiga por um dos portões laterais, o Portão de Herodes. Ele não é um dos mais movimentados, e logo na entrada cai-se em um tipo de "mercado público" árabe, com várias banquinhas vendendo comestíveis e similares. Agora, imagino que aquela era uma área freqüentada mais por nativos; a área turística, que achei depois, era muito mais movimentada e parecia mesmo com aqueles mercados árabes de filme: empurra-empurra, gritos, etc. Ali, onde eu estava, era muito tranqüilo.
E logo ao lado chegava-se a uma área residencial, que fazia parte do bairro árabe. A Cidade Antiga é dividida muito nitidamente nos bairros árabe, cristão e judeu; os primeiros são bastante pobres, o último é muito rico. Mais sobre isto outro dia.
Em todo caso, ali continuava sendo uma área muito tranqüila, parecia uma cidadezinha de interior, com crianças jogando bolitas nas ruas e árabes sentados em círculo ouvindo rádio. Agora, quando eu digo "ruas", pense-se em uma cidade medieval, com corredores estreitos entre os prédios, becos escuros, chão sujo, prédios muito antigos etc. Não era, definitivamente, uma rua no sentido de um lugar onde poderia passar um carro. Em algumas até poderia, e para minha surpresa eu vi carros lá dentro, mas não foi esse o objetivo da construção. Aliás, com os altos e baixos da topografia local, alguns lugares pareciam com o que se vê de favelas do Rio na TV, mas com casas de pedra e não papelão. Não era uma área com muitos turistas (ou com *algum* turista fora eu), mas não parecia de maneira alguma um lugar perigoso; ainda assim, tomei todo o cuidado para não interromper o jogo de bolitas das crianças :-)
Hmm, está ficando longo, então segue em outro dia; Jerusalém é uma cidade que rende muito assunto, mesmo levando em conta que ainda vou falar dela nos relatórios sobre o fim de semana seguinte.
Na próxima parte: roupas tradicionais, comida árabe, e porque não se sai de carro em bairros ortodoxos aos sábados.