Sexta-feira com cara de sábado. Aproveitei o início do fim de semana para tirar o meu sono atrasado durante a semana (nunca durmo muito bem em aviões), e dormi até bem tarde. Acordei com a notícia de que a Iberia achou a minha mala, e ela está em Madrid! Disseram que iria chegar em Tel Aviv no final da tarde, mas ligariam mais tarde para dar mais notícias.
Um pouco mais tranqüilo, tomei banho, tentei fazer a barba com a ridícula lâmina que a Iberia me deu como desculpas pela mala esquecida, e fui passear na beira da praia.
Para quem não viu as fotos... o hotel em que eu estava ficava em um lugar chamado "Promenade", que é onde ficam a maior parte dos hotéis da cidade. Saindo dele e andando uns poucos metros chega-se a um calçadão que acompanha a praia por alguns quilômetros, numa paisagem bastante bonita e não muito movimentada. O dia estava quente e ensolarado, mas não era um sol forte; tinha pouco vento, estava ótimo para andar à beira-mar.
A praia estava ocupada por alguns poucos banhistas (a água era bem fria, mas tinha gente entrando), turistas tomando banho de sol e crianças soltando pipas (papagaios, pandorgas etc.). Nada de surfistas, mar muito calmo. E a areia era curiosamente listrada; alguns dias depois, vi um trator passando pela praia no início da manhã e "arando" a areia, deixando ela com aquele padrão listrado em toda a extensão da orla. Nem imagino o motivo disto.
Aquela área parece ser um "point" principalmente para turistas; andando um pouco, encontrei um conjunto comercial que parecia saído de algum lugar nos EUA, com um Planet Holywood, um MacDonald´s e uma Tower Records. Depois vim a saber que o prédio ao lado, que parecia uma penitenciária, era a embaixada dos EUA, o que pode explicar a presença destas lojas justamente ali. Aliás, aquela embaixada é um ponto de conflito entre Israel e os EUA, já que legalmente a embaixada deveria estar na capital do país, que é Jerusalém. Jerusalém é a capital desde 1967 (quando ela foi retomada da Jordânia), muito contra a vontade dos EUA e da ONU, que queriam que ela fosse uma "cidade internacional" e que a capital fosse em Tel Aviv. Mais sobre o assunto nos próximos dias...
Seguindo a caminhada, cheguei a um mini-parque na beira da água, com uma mesquita, plantas, grama e pescadores. Também tinha um prédio que era o Aquário Municipal de Tel Aviv (não entrei) e um cercado com um brinquedo montado pela Sega (aquela dos videogames) que consistia de uma catapulta que jogava pessoas para cima, e depois funcionava mais ou menos como uma corda de bungee jumping. Vi muito pouca gente se arriscando naquilo, mas tinha muita gente olhando.
No caminho de volta para o hotel, já no final da tarde (lembrando sempre que anoitece cedo), parei para o almoço no MacDonald´s. Fora o menu em hebraico, era um MacDonald´s absolutamente normal à primeira vista. E depois até achei o cardápio em inglês na parede...
Assim como na França, em Israel o quarteirão com queijo se chama Royal; McRoyal, na verdade. Pedi este, e achei estranho quando a moça me pediu se eu queria com queijo ou não. Disse que sim, e ele veio com uma etiqueta vermelha em cima que acho que dizia que tinha queijo.
Hora de uma aula sobre culinária israelense... a religião judaica tem algumas restrições sobre o que pode ou não ser comido, e como devem ser preparados os alimentos que podem ser comidos; estas restrições vem da Bíblia (Antigo Testamento) e de outras tradições orais que se diz vir diretamente de Moisés. A mais conhecida é a regra de não comer carne de porco, seguida também pelos muçulmanos. Além disso, a carne dos animais permitidos deve ser preparada de maneiras bem precisas, cortada da maneira correta, e até o animal deve ser morto de uma certa maneira (que faz com que, teoricamente, o animal não sofra, alguém me disse). A comida preparada segundo todas essas regras é chamada de "kosher" (em hebraico se escreve mais ou menos como CWL, com o L de cabeça para baixo e a palavra toda espelhada), deve ser certificada por um rabino, e fora de Israel custa uma fortuna. Restaurantes que servem comida kosher também devem ser certificados por um rabino, e tipicamente não são certificados se não seguirem também outras regras que não tem nada a ver com comida, como a de não abrir no sabbath. Isso não implica nenhuma benção do rabino à comida, apenas afirma que a comida segue as regras da religião e pode ser usada.
Isso dito... quase toda comida, e lugar que vende comida, tem escrito na frente que é kosher. Até os salgadinhos do dia anterior diziam, por exemplo. O MacDonald´s em que eu estava não dizia, em lugar nenhum. O motivo: as regras kosher proíbem comer carne junto com queijo (ou, de maneira geral, derivados de carne com derivados de leite). Isso obviamente torna cheeseburgers algo pouco comum, e cria inúmeros problemas para pizzas e outros pratos italianos. O que nos leva às pizzas estranhas de ontem: nenhuma delas tinha carne! Todas elas eram molho de tomate, queijo e vegetais de vários tipos, mas nenhum tipo de carne em cima (até porque pizza sem queijo não dá). Lógico que eu só descobri isto vários dias depois, quando fui a um Burger King kosher e pedi um sanduíche com queijo; o olhar indignado da atendente merecia uma foto.
Bom, passado isto, voltei para o hotel (não sem antes passar por um gato na escadaria). Essa sexta-feira era o último dia do Chanukah, uma festa religiosa judaica comemorada mais ou menos na época do Natal mas que não tem nada a ver com ele; a tradição envolve acender um candelabro de oito velas (mais uma especial para acender as outras), uma por dia, enquanto se diz uma oração. Também se dá presentes para crianças e amigos, também um por dia, e no último dia se comemora com algo como uma ceia. Neste dia, o final do Chanukah coincidia com o início do sabbath, que também envolve acender uma vela, e a vela do Chanukah devia obrigatoriamente ser acesa antes da do sabbath; depois de acender a vela do sabbath não se pode acender outras até o final dele.
(para quem estiver curioso, a ocasião celebrada nesta festa envolve judeus sitiados dentro de uma sinagoga e um candelabro a óleo milagrosamente durando oito dias; não sei detalhes da história)
Bom, o sol se pôs e começou o sabbath (ou shabbath). O que isso quer dizer: os judeus religiosos (mais ou menos 25% do total) não podem trabalhar, operar equipamento elétrico e fazer inúmeras outras coisas. Muitos restaurantes fecham (especialmente os kosher), e não existe transporte público. A El Al, companhia aérea estatal, não voa. E um dos elevadores do hotel é designado como "elevador do sabbath": ele deixa de responder aos controles, e fica subindo e descendo o tempo todo, parando em todos os andares. Assim, os judeus podem usar o elevador sem ativar um aparelho elétrico (segundo um motorista de táxi, alguns rabinos dizem que isso não pode, pois ao entrar no elevador se ativa os sensores na porta, e talvez até sensores de peso que ajustam a velocidade dele; é, as regras são confusas mesmo). Talvez por isto várias pessoas prefiram as escadas.
Aproveitei a noite agradável (e quieta) para sair e ir ao cinema. Eu tinha visto um cinema no shopping em que estive no outro dia, sabia que tinha sessões mesmo no sabbath, e fui para lá. No caminho cruzei com soldados na rua; cada um com seu fuzil no ombro; eles nunca largam suas armas, mesmo que estejam de folga, o que sempre chama a atenção de turistas como eu...
E o filme era o novo do 007. Consegui comprar o ingresso pedindo em inglês, e recebi um ticket completamente ilegível para mim. Ele tinha vários números, um dos quais era o da sala (havia quatro). Os outros, descobri depois, eram a fila e a poltrona... sim, lugares numerados no cinema. Felizmente estava quase vazio, e ninguém ligou por eu sentar em qualquer lugar. E consegui comprar até pipoca e um refrigerante antes de entrar!
Outra diferença nos cinemas locais: intervalo no meio do filme. Depois de mais ou menos uma hora o filme parou, as luzes se acenderam, muita gente saiu para comprar pipoca, o pessoal voltou, as luzes se apagaram e o filme seguiu. Muito estranho. Ah, sobre o filme... legendado em hebraico, claro. Até hoje não sei em que cidades o filme se passava, porque o nome delas aparecia só em hebraico. E, para quem viu o filme, o trecho que é falado em uma língua oriental estranha também só tinha legendas em hebraico; se alguém lembrar o que é que eles dizem e quiser me contar, agradeço.
Antes do filme tinha alguns trailers de filmes que ainda não estão passando aqui, e várias propagandas locais: uma da principal empresa de ônibus do país que parecia ótima mas que eu não entendi, outra de um restaurante que dizia servir um bife ótimo (ou algo parecido), e uma de uma cadeia de hambúrgers chamada "Burgeranch". Ah, e uma propaganda ridícula de Coca-Cola, e outra de Mentos (aquelas pastilhas de menta holandesas que tem em todo lugar).
Bom, depois do filme comprei um jornal (em inglês) em uma banca e voltei para o hotel. O jornal, aliás, tinha três datas: a nossa, a hebraica (ano 5760) e a muçulmana (ano 1400 e pouco). Recebi um recado da cia. aérea dizendo que a minha mala tinha chegado mas, por causa do sabbath, eles só iam poder entregar no domingo. E fui dormir.
Próximo episódio: turismo, estradas e ruas estreitas.