Seguindo o episódio de ontem... a manhã na empresa foi usada em uma série de reuniões, em que conheci muita gente com nomes estranhos: Eitan, Yafit, Erran, Aron, Yossi (prêmios para quem acertar quais são homens e quais são mulheres) e, para aliviar, Harry e Jackie. Depois de tudo isto, almoço!
A empresa tem uma área grande o suficiente para ter um refeitório, e encomenda comida pronta de uma empresa para todo mundo. Quinta-feira o pessoal saía um pouco da rotina e era dia de pizza. É claro que pizza é mais ou menos a mesma coisa em todo lugar, mas os sabores das pizzas eram meio estranhos; a que mais me chamou a atenção foi uma de atum com abacaxi. Consegui encontrar umas mais ou menos normais, também. Para beber, Coca-Cola (bastante normal). E de sobremesa, sorvetes da Yopa. O nome era outro, mas o logotipo era o mesmo e os sorvetes também; comi um Cornetto com algum outro nome. Como diria Shakespeare, um sorvete com qualquer outro nome continua tendo gosto bom.
E depois de tudo, café. Aprendi a operar a máquina de expresso deles e a reconhecer o pote de açúcar (estava escrito o que era em cima, mas isto não ajudava muito), e o café ficou muito bom. E depois era hora de escolher o que eu queria comer na semana seguinte. Como eu disse, eles encomendam a comida pronta, e todo mundo escolhe que prato quer antecipadamente, a partir do menu da empresa que fornece; então, alguém traduziu o menu dia a dia para mim e anotou os meus pedidos. Não tinha nenhuma comida muito estranha, mas me chamou a atenção o uso de animais pouco comuns, como pato, ovelha e salmão.
O resto da tarde transcorreu sem maiores novidades. Algo interessante de observar foi a maneira como as pessoas escrevem; hebraico é escrito "ao contrário", da direita para a esquerda, o que por si só já é estranho de ver; mais ainda, quando estão escrevendo em letras latinas (de forma), algumas pessoas fazem algumas letras começando da direita, enquanto escrevendo a palavra da esquerda para a direita. É mais fácil explicar mostrando, mas, por exemplo, a pessoa que vi escrevendo fazia o A e o N começando pela direita.
Nessa época do ano anoitece cedo em Israel; por volta das 16:30 já era noite escura, o que para mim fazia parecer muito mais tarde do que realmente era. Saí da empresa por volta das 18:30, depois de chamar um táxi para me levar de volta para Tel Aviv (na verdade, depois de alguém chamar um táxi para mim). Notei no trajeto de volta que as ruas estavam consideravelmente mais cheias, mas a maior parte do tráfego estava, novamente, indo na direção oposta.
Observação sobre semáforos: eles tem mais estados que os daqui. Partindo do verde, antes do amarelo ele fica "verde piscando". Depois amarelo, depois vermelho, depois vermelho+amarelo, e imediatamente depois verde. O efeito, óbvio, é que os carros começam a acelerar no vermelho+amarelo, mas me parece que a este ponto a transversal já está em vermelho. Mas gostei do verde-piscando, dá mais tempo para parar antes do vermelho.
Depois de chegar ao hotel ainda era relativamente cedo, então fui andar pelas ruas próximas. Uma motivação era tentar achar uma loja razoável de roupas, uma vez que a minha mala ainda não tinha chegado e a El Al ainda não tinha notícias dela. Pedi informações na portaria sobre para que lado ir, ela me indicou algumas ruas importantes próximas, e fui.
A duas quadras do hotel, segundo a moça, havia uma rua com muitas lojas e restaurantes que ainda estariam abertos. A rua se chamava Ben Yehuda (placas com nomes de ruas são em hebraico e inglês), e realmente tinha várias lojas. Também me tranqüilizou quanto à proximidade da civilização: vi propagandas da Gap, lugares vendendo acesso à Internet, Pizza Hut, lojas Levi´s, parecia uma cidade ocidental normal. Exceto pelos cartazes em hebraico, e outros em russo. Os em russo até não eram tão ruins porque eu conheço um pouco o alfabeto e eu ao menos conseguia adivinhar o que eles diziam, mas hebraico para mim era grego...
E aquela era a rua errada. A rua que a moça realmente tinha me indicado se chamava Dizengoff, e ficava mais duas quadras adiante; descobri isso por acaso, porque não achei nenhuma loja interessante naquela primeira e fui procurar mais adiante. A outra realmente tinha várias lojas de roupas, na maioria já fechadas, e até uma loja brasileira que vendia biquínis.
Depois de caminhar algumas quadras (fazia uns 10 graus àquela hora) parei para jantar em uma Pizza Hut. Eu estava com fome, então procurei algo relativamente seguro... depois, com calma, se arrisca em algo mais local. O menu na parede era todo em hebraico, mas eles tinham um menu em inglês impresso.
As pizzas eram meio estranhas, não reconheci nenhum dos sabores que temos por aqui, e acabei escolhendo a que me pareceu mais razoável. Depois descobri porque as pizzas eram estranhas, mas isso é um assunto meio longo que fica para um dia mais tranqüilo. Mas a surpresa mais interessante foi com o refrigerante: veio como aqui, em um copo de plástico com tampa, com um canudinho embrulhado em papel. Abri o papel, coloquei o canudinho no copo, chupei e... nada. Depois de um breve momento tentando entender o que estava acontecendo, tirei o canudinho e descobri que a outra ponta estava fechada, mas bastava uma apertadinha nas bordas para abrir. Não tive coragem de perguntar se era para ser assim ou eu tinha dado azar...
Depois da janta, mais uma caminhada... me chamou a atenção a inexistência de pessoas com roupas estranhas, os israelenses na maioria se vestem exatamente como a gente. Os mais ortodoxos tem aquelas roupas todas pretas, chapéu, barba enroladinha etc., mas neste dia não vi nenhum. E me chamou a atenção o número de gatos nas ruas, algo que eu ia ver repetidamente nos dias seguintes. Ali era uma rua movimentada, algo como a Osvaldo Aranha aqui de Porto Alegre, e vi gatos dormindo em cima de caixas de correio (dois), outro tentando pegar uma mariposa do lado de fora de uma vitrine, e um embaixo de um carro estacionado na calçada. Gatos bonitos, gordos e bem cuidados, alguns com coleiras. Já cachorros eu só vi acompanhados dos donos.
Algumas quadras adiante achei um mini-shopping center com uma loja de roupas aberta, onde consegui comprar camisas, meias e cuecas; o senhor que me atendeu falava inglês com um forte sotaque árabe e, apesar dos preços serem bons, não consegui deixar de ter a impressão de estar sendo logrado... todos os personagens de filme americano com aquele sotaque são malandros :-)
No caminho de volta para o hotel, parei em uma lojinha e comprei alguns salgadinhos: Cheetos e Doritos. Os Cheetos, depois vim a descobrir, eram sabor amendoim. No início é estranho, mas não é ruim.
E no hotel aproveitei para assistir televisão por um tempo antes de dormir... além de alguns canais locais, tinha a CNN, a BBC, a VH1 (inglesa, estilo a MTV na época que a MTV ainda passava música), um canal de esportes europeu, outro que parecia a nossa Superstation (séries e programas americanos), um canal austríaco em alemão e outro russo. Este russo às vezes passava filmes americanos dublados, e a dublagem era feita *por cima* do som original; dava para ouvir os atores falando em inglês por baixo. Orçamento baixo, imagino.
Depois disto, dormir e esperar o fim de semana. Sim, fim de semana: em Israel a semana de trabalho vai de domingo a quinta-feira, na sexta e no sábado descansa-se. O motivo é o "sabbath" judeu, durante o qual os judeus religiosos devem descansar, e que começa ao pôr do sol de sexta-feira. Mesmo quem trabalha em sexta o faz só até o início da tarde, o que eu acredito que tenha dado origem ao nosso sábado inglês.
No próximo episódio: praia, cinema e comida abençoada.