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Dia 17 - 23.12.1999 - Madrid

E depois de vários dias em Tel Aviv, chegamos a um dia diferente na viagem :-) Mas vamos começar do início.

Como descrevi na última parte, a caminho de Madrid o meu vôo parou em Barcelona, e saiu de lá atrasado; mas, claro, um funcionário da Iberia me garantiu que eu não perderia o segundo vôo em Madrid, porque ele atrasaria também (a causa do atraso era neblina em Madrid). Pois bem, pousamos em Madrid, pegamos o conhecido ônibus para ir até o terminal, e fui correndo fazer a mesma coisa da ida, que era passar pela imigração para ir pegar o outro vôo. Desta vez, claro, não precisava passar por ali, e fui dirigido para uma escada lateral que levava à área de embarque. No caminho já encontrei outra brasileira que ia pegar o mesmo vôo.

Corremos, subimos, passamos por uma máquina de raio X controlada por um guarda incrivelmente parecido com o Fidel Castro, e fomos para os painéis com os números de portões. O nosso vôo não estava listado. Achamos um balcão de informações que nos apontou para um portão específico, e ao chegar lá só achamos a equipe da limpeza. Aliás, o aeroporto estava um deserto; era pouco mais de 1 da manhã.

Voltamos e fomos para um outro balcão de informações; mostramos a passagem para o cara, ele consultou em um terminal e disse "hmm, esse vôo saiu faz quase uma hora". Lindo. A esse ponto já tinha mais três pessoas com a gente atrás do mesmo vôo. Fomos direcionados para um balcão da Iberia, no andar de baixo, para ver o que se fazia. Para chegar lá, passamos na contra-mão pelo raio X do Fidel, descemos por onde tínhamos subido, passamos pela imigração, cruzamos a área com as esteiras de bagagem e andamos uns 5 minutos pelo aeroporto até achar "um balcão com uma moça de vermelho", como disse o guarda.

Achamos o balcão, a moça de vermelho e mais um monte de gente na mesma situação. Para encurtar a história: a Iberia pediu desculpas, disse que ia colocar todo mundo no próximo vôo, e enquanto isto ia colocar todo mundo em um hotel. Quando era o próximo vôo ? Bom, era o mesmo vôo no dia seguinte... ou seja, 24 horas depois! Nenhum tipo de reclamação mudou a situação, claro, mas todo mundo conseguiu fazer ligações internacionais ali do balcão mesmo para avisar do atraso. E ficamos todos esperando mais um ônibus, desta vez para ir para o hotel...

O nosso grupo de ilhados era bem eclético. Além de mim, havia três mulheres brasileiras: uma cearense que estava vindo da França (voltando de férias), uma carioca que havia estudado hebraico por um ano em Israel e estava voltando para casa, e uma mato-grossense que estava trabalhando como empregada doméstica para brasileiros em Israel. Também tínhamos vários alemães: um casal de namorados indo para São Paulo trabalhar numa organização de ajuda a crianças de rua, um cara que trabalha na IBM indo a negócios, um estudante indo passar um ano em SP e um cara que haviia sido casado com uma brasileira indo visitar os filhos. Exceto pelos namorados, nenhum deles conhecia os outros até ali. E, para completar, um rabino judeu ortodoxo que mal falava inglês e estava indo visitar parentes em Santos; a comunicação com ele era através de uma das meninas que falavam hebraico (muito para desespero dele, acho, porque a religião dele proíbe "interação social" com mulheres desacompanhadas).

De todo esse pessoal, a situação mais complicada era da moça carioca, que não tinha perdido o mesmo vôo: ela tinha perdido um vôo da Varig, graças ao atraso da Iberia. Nessas situações, a responsabilidade das companhias tende a ficar meio difusa... A Iberia disse que ia ajudar ela a entrar no vôo da Varig no dia seguinte, e ela não foi para o hotel com a gente.

Então, todos ganhamos cartões de embarque novos (com um carimbo do departamento de relações públicas da Iberia, que acho que era algo do tipo "não incomodem mais esses passageiros") e fomos para o hotel. Ainda consegui irritar o motorista do ônibus ao chamar ele de motorista; semanas depois descobri que motorista, em espanhol, é quem anda de moto... ele era o "conductor". Estava uma noite fria, beirando zero grau, e a cidade estava bem vazia. O trajeto para o hotel levou uns 15 minutos, mas não vimos muita coisa da cidade (até porque não sabíamos o que estávamos vendo mesmo). Era um hotel simplezinho mas agradável, chamado "Centro Norte". Chegamos depois das 2 da manhã, então só fizemos o check-in e fomos todos dormir.

Ah, e houve ainda o incidente das lâmpadas que não acendiam. Ao entrar no quarto, depois de abrir a porta com o cartão magnético, tentei acender e luz e não consegui. Nada que eu fizesse fazia alguma lâmpada se acender. Olhei o interruptor melhor, parecia que ele tinha um slot para cartão, tive um momento de inspiração súbita (às 2:30 da manhã isso é raro) e inseri o cartão ali. Voilà! A luz acendeu! Já aproveitei para sair e ir espalhar a novidade entre os outros que estavam no mesmo andar e que, como eu imaginei, estavam tendo o mesmo problema...

Na manhã seguinte acordei curiosamente cedo, por volta das 7:30, e depois de tomar um bom banho fui para o saguão do hotel. Antes disso, descobri que o meu quarto tinha vista para a piscina do hotel (que, claro, estava vazia). Descobri que tínhamos direito a café da manhã por conta da Iberia e fui para o restaurante. Ele era em um prédio separado, e tive a primeira experiência mais direta com o frio matinal de Madrid. Tinha neblina e estava fazendo uns dois graus.

Encontrei lá duas das brasileiras de ontem, tomando café com um argentino que elas tinham encontrado no hotel (e que, pasmem, estava lá porque tinha perdido um vôo da Iberia). O café estava bom, exceto pelo café propriamente dito, que estava intomável; mas os sucos eram bons. Terminamos o café e começamos a fazer planos para o que fazer no resto do dia. A cearense queria ir para a Plaza de España, onde fica o escritório da Vasp, para trocar a passagem dela da Iberia (Madrid - SP - Fortaleza) por uma direta da Vasp Madrid - Fortaleza (sim, fiquei surpreso com a existência disso). Como ninguém mais tinha idéias muito brilhantes, e a tal Plaza parecia bem localizada, decidimos ir para lá.

Mas primeiro fomos esperar se os alemães não iriam junto com a gente. Eles dormiram bem mais, e quando acabamos o café eles estavam chegando para começar o deles. Exceto pelo casal de namorados, que não saiu do quarto de manhã (previsivelmente, dirão alguns).

Acabou acontecendo que o processo de arrumar coisas, fazer check-out, procurar mapas etc. demorou tanto que os alemães acabaram o café e alguns decidiram nos acompanhar. E, ainda por cima, apareceu a moça carioca de ontem, que também acabou indo para o mesmo hotel e ia pegar um vôo da Varig à noite, um pouco antes do nosso vôo com a Iberia, e ela foi com a gente também. O rabino optou por ficar no quarto dele, rezando.

Munidos de mapas da cidade, instruções da moça do hotel, e algum entendimento do sistema de metrôs da cidade, fomos procurar a Plaza de España. Havia um ponto de metrô a duas quadras do hotel, e pegando a linha certa nela havia uma estação chamada "Plaza de España" que era, claro, no lugar certo. Dentro do metrô formávamos um grupo bem animado, conversando e batendo fotos; já que estávamos presos ali mesmo, o melhor era se divertir...

A Plaza de España fica no que pode ser chamado de "centro" da cidade, próxima ao Palácio Real, numa área com bastante movimento de pedestres e de automóveis. Saímos do metrô para um dia, digamos, agradavelmente frio. Àquela hora da manhã (umas 10 horas, acho) fazia uns 12 graus, estava ensolarado e não ventava.

Num ponto curioso, o primeiro cartaz de propaganda que vi ao sair do metrô anunciava um show de alguém e tinha, no canto, uma mensagem de "Patrocínio: Terra", com o logo da Terra ali. Depois disso não vi mais nenhuma propaganda nossa, mas muuuuitas da Telefónica.

Achar o escritório da Vasp foi relativamente fácil (tinha um letreiro enorme na frente), e lá dentro ficamos esperando enquanto a cearense trocava a passagem dela. Ela acabou conseguindo um negócio muito estranho em que ela pagou por uma nova passagem para a Vasp, e depois a Iberia ressarciu este valor para ela (eu vi ela recebendo o dinheiro da Iberia, várias dezenas de milhares de pesetas). Meio confuso, mas parece que funcionou.

Depois dali, paramos para comprar filme e fomos passear e bater fotos. Não estivemos em nenhum lugar muito turístico, mas nos divertimos e batemos muitas fotos. Aliás, incomodamos muitos espanhóis pedindo para eles baterem fotos nossas. Um, em especial, bateu uma foto do grupo com pelo menos quatro câmeras diferentes.

Depois de muito andar, e muitas fotos bater, bateu foi a fome. As moças estavam, curiosamente, *todas* com vontade de comer em um McDonald´s, de forma que, no centro de Madrid, fomos procurar um lugar para comer um Big Mac... Achamos, claro, afinal de contas em todo lugar tem um. E, claro, há a vantagem de ser fácil de fazer o pedido :-)

Não havia nada muito estranho no cardápio, ao menos que eu tenha percebido. Notei que o nosso quarterão com queijo se chama, como na França, "Royal", mas o resto era normal, e eu comi um normal Big Mac. Nota interessante: caixas de isopor para os sanduíches! Esse pessoal não se preocupa com a camada de ozônio, não ? Outro detalhe... as batatas-fritas e os refrigerantes vinham com etiquetas que faziam parte de um jogo estilo Banco Imobiliário, mas algumas delas tinham prêmios. Ganhei dois: umas "papas fritas pequeñas" e um "pastel de manzana", que deduzo ser uma torta de maça. Guardei as etiquetas para trocar no McDonald´s do aeroporto, e depois descobri que não tinha McDonald´s no aeroporto. Ainda tenho elas. Será que valem na Argentina ?

No nosso grupo, acabou sobrando uma quantidade razoável de batatas fritas e refrigerante, e a moça carioca (se chamava Carolina), que é judia, sugeriu que se reunísse tudo e se levasse para uma mulher que estava sentada na calçada, a uns 50 metros dali (tínhamos passado por ela no caminho). Eu, em particular, não tive a impressão que a mulher da calçada estava pedindo dinheiro (ou comida), e as outras pessoas também acharam que ia ficar bastante estranho fazer isso, de forma que as batatas acabaram indo para o lixo.

A Carolina explicou que parte da formação religiosa dela se baseia em não jogar fora algo que possa ser útil a outra pessoa, e por isso ela tinha sugerido aquilo. Um texto que eu tinha lido ainda em Israel também mencionava isto, que um dos "mandamentos" judaicos é o de que se deve ajudar os necessitados, mas sempre de forma a tentar levá-los a não necessitar mais de ajuda (algo como ensinar a pescar ao invés de dar o peixe), o que implica um envolvimento maior da parte de quem ajuda, e uma passividade menor do lado de quem recebe. Me parece uma filosofia muito boa, quando bem aplicada, e acho que está na raiz da ajuda que o estado de Israel dá a imigrantes de todos os lugares que querem trabalhar e viver lá.

Depois disso, andamos mais um pouco pelas redondezas, cansamos e decidimos voltar para o hotel para reencontrar o resto do grupo. Pegamos o metrô de volta (estava consideravelmente mais cheio) e, ao chegar no hotel, descobrimos que a Iberia estava pagando o almoço também! Já eram umas três da tarde, mas, de graça qualquer coisa vai: fomos almoçar de novo.

Aliás, dica para quem visitar Madrid: vá ao hotel Centro Norte por volta das três da tarde, entre direto no restaurante, diga que é da Iberia, e almoce de graça. Foi o que fizemos, não precisamos mostrar nada, nenhum papel. E as chances são boas que sempre tenha alguém lá que é um passageiro ilhado da Iberia :-)

Fomos acompanhados no almoço por todo o grupo de alemães, apenas o rabino ficou no quarto rezando (e ele não podia comer ali mesmo, porque não era kosher). Almoço muito bom, com um bife muito bem feito, e um belo sorvete de sobremesa. Valeu a pena o almoço duplo.

Depois do almoço já estava acabando a tarde, então ficamos todos no saguão do hotel batendo papo até a hora de ir para o aeroporto. Tínhamos decidido sair por volta das 18:30, para dar tempo de discutir com a Iberia o pagamento do táxi (não tinha ônibus para voltarmos ao aeroporto àquela hora, só às 21), jantar, achar o portão e, para alguns de nós, terminar as compras de Natal. Aproveitando o grupo todo reunido, trocamos endereços (postais e de e-mail), e um grupo ajudou o outro com suas respectivas linguagens; os alemães estavam estudando português (alguns já falavam relativamente bem), todos nós tínhamos alguma curiosidade sobre uma que outra palavra de alemão, e as meninas que vieram de Israel tiraram algumas dúvidas minhas sobre hebraico (o que elas me ensinaram está espalhado pelos relatórios da viagem toda).

E às 18:30 chegaram os três táxis, e fomos para o aeroporto. Não sem antes olhar de longe o rabino discutindo com a moça do hotel, que queria cobrar dele as ligações que ele fez do quarto (ele sem falar inglês, ela sem falar hebraico...). Ele acabou pagando.

Chegando no aeroporto, para nossa surpresa a Iberia pagou o táxi sem a mínima reclamação, e ainda deu vouchers para a janta. Aí houve o problema de que o rabino, novamente, não podia comer; ele acabou comendo só uma salada crua e algumas frutas.

O restaurante ficava no andar de cima do aeroporto, e tinha uma lateral toda de vidro por onde se podia ver as pistas do aeroporto. Melhor: por onde se *poderia* ver as pistas, se não houvesse uma forte neblina envolvendo o aeroporto todo. Ali também ficamos sabendo que o aeroporto todo estava fechado para pouso e decolagem, o que acabou com a nossa esperança de sair dali no horário previsto.

Em todo caso... jantamos, batemos papo, e nos separamos para ir passear pelo aeroporto. Fiquei com a Carolina e com a outra moça que veio de Israel (não lembro o nome dela), e fui eu também terminar as minhas compras de Natal... a seleção ali dentro era razoável, mas os preços nem tanto. Ainda assim, consegui não gastar muito, e depois fomos na direção dos portões de embarque. Eram todos os três (da Vasp para a cearense, da Varig para a Carolina e da Iberia para o resto) próximos, e o horário de saída dos vôos era quase o mesmo. A essa altura o aeroporto já tinha reaberto, e todos os vôos tinham um atraso de 60 a 90 minutos, o que deixou bastante tempo para bater papo...

Aliás, depois de algum tempo com aquele bando de alemães, eu já estava começando a entender parte do que eles diziam... muito tempo atrás eu estudei alemão por um semestre (suficiente para aprender os números, saudações e alguns verbos simples), mas a similaridade com inglês ajuda muito. Surpreendi alguns ao traduzir uma longa conversa entre dois deles para uma das meninas (eles estavam discutindo se valia a pena tentar pegar o vôo da Vasp, que ia sair uma meia-hora antes e que ia para SP depois de Fortaleza, decidiram que não) (o bom de frases longas é que elas tem mais redundância implícita, o que ajuda a entender mesmo pegando apenas alguns fragmentos; com frases curtas se tem menos margem para perdas).

E, depois de uma longa espera, finalmente todos embarcaram e o vôo decolou! Uns 90 minutos atrasado, mas decolou! E era um avião enorme, que estava quase vazio. Me apropriei de uma fileira de cinco bancos que, lado a lado, eram exatamente do meu comprimento, deitei e dormi. Nunca tinha dormido tão bem acomodado em um avião. Acordei com o rabino se vestindo para as orações matinais; ele usa um manto que cobre a cabeça e tem "cordinhas" presas nos quatro cantos, e que não é muito fácil de vestir no corredor estreito de um avião... mas a esta altura já era quase de manhã e estávamos quase chegando em SP.

Numa nota final: chegamos uma hora atrasados em SP. O meu vôo para Porto Alegre, pela TAM, já havia saído... depois de achar o escritório da Iberia (escondido atrás do check-in da asa 1 do terminal de Guarulhos), eles me colocaram no primeiro vôo da Varig, uma hora depois, e me deram um voucher para almoçar ali, mas só porque eu pedi. Lógico que não dava tempo de almoçar decentemente, mas àquela altura eu queria era incomodar eles mesmo. Também roubei uma Folha de São Paulo que foi entregue lá enquanto eu esperava o voucher (tive que abrir um pacote, eles entregaram umas 20 amarradas com uma cordinha de nylon).

Almocei às pressas, saí do restaurante com uma lata de Coca-Cola e fui correndo para o terminal. Cheguei lá no finalzinho do embarque, entrei, fecharam a porta e saímos. Comentário rápido: aquela lata de Coca-Cola chegou dentro do avião sem passar por nenhum aparelho de raio X e sem ser inspecionada por ninguém. Tirem suas próprias conclusões :-)

E esse é o fim dessa série! Na próxima parte... não sei; depende de para onde for a próxima viagem...

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