Como deu para adivinhar pela linha acima, o meu vôo para Tel-Aviv era em partes: do Rio de Janeiro até Madrid, depois de lá (em outro vôo) para Tel-Aviv. A primeira parte foi em um DC-10 da Iberia, completamente lotado e desconfortável. Eu nunca deixo de me admirar do fato de que o espaço entre os bancos é sempre maior em vôos domésticos (quase sempre curtos) do que em internacionais (quase sempre longos), mas sei que só quem é mais alto que a média chega a reparar nisto...
Em todo caso, foi um vôo longo, de pouco mais de 9 horas. A Iberia tem duas peculiaridades: as aeromoças parecem com diretoras de escola primária, e a limpeza interna dos aviões deixa um pouco a desejar (ou eu dei azar nos três aviões deles em que estive). No final da viagem, o banheiro do avião parecia um banheiro de praça pública de cidade grande. Lógico que a culpa disso não pode ser só da companhia aérea, mas foi a primeira vez que vi algo assim.
Chegamos em Madrid pela manhã, e não vi nada da cidade do alto porque ela estava coberta por neblina (mas pousamos mais ou menos no horário mesmo assim). E estava frio, perto de zero graus. Os espanhóis não gostam muito da idéia de deixar passageiros desembarcar diretamente dentro do terminal (usando "fingers"), então o avião parou na pista, longe do terminal, e descemos todos para um ônibus que levou ao prédio do aeroporto; isso nos deu oportunidade de experimentar o frio local por alguns minutos...
Eu estava fazendo uma conexão internacional, então imaginei que não passaria pela imigração e iria diretamente para o portão para pegar o novo vôo. Eu estava errado, claro; precisei preencher o formulário de imigração, ganhar um carimbo no passaporte, subir um andar, ganhar outro carimbo no passaporte (de saída do país) e ir para o terminal certo. No intervalo, aproveitei para trocar alguns dólares por dinheiro local, comer algo e comprar algo para ler na segunda parte do trajeto. As pesetas que sobraram acabaram sendo bem úteis mais tarde...
Nota rápida: a capa da Playboy local, em exposição nas bancas, era a Naomi Campbell. E propagandas da Telefonica são visíveis por todos os cantos no aeroporto. O "Movistar Amigo" daqui (celular pré-pago) se chama "Movistar Activa" na Espanha.
Ao chegar ao terminal certo, faltava mais ou menos uma hora para o embarque do meu vôo. Ainda assim, logo depois ouvi o alto-falante pedindo que os passageiros do vôo se apresentassem ao portão o quanto antes, então fui para lá. E sim, havia um bom motivo.
Quem voa mais ou menos freqüentemente conhece o conceito de "code sharing" em vôos, que quer dizer que o mesmo vôo tem dois (ou mais) códigos, de companhias diferentes, e é operado por uma delas. Sempre achei que isto era enganação para com passageiros que esperavam, por exemplo, voar com a United e acabavam num vôo da Vasp, ou algo assim. Neste caso em particular, o meu vôo tinha um código da Iberia e seria operado pela El Al, a companhia aérea oficial (e estatal) isralense.
Mas o motivo para a antecedência grande... ao chegar ao portão apresentei o cartão de embarque, o rapaz me pediu o passaporte, mostrei, e ele disse que ia me fazer algumas perguntas. Eu estava esperando as tradicionais "a bagagem é toda sua", "alguém lhe deu algo para levar a bordo", "a bagagem esteve o tempo todo com você" etc., que geralmente se ouve no check-in. E realmente começou assim, relativamente simples. No entanto, este simples questionário evoluiu para um interrogatório em que ele me perguntou o que eu ia fazer no país, em detalhes; porque lá, em particular; a quanto tempo eu conhecia a empresa para onde eu estava indo (uma semana); quem eu conhecia pessoalmente na empresa (ninguém); com quanta antecedência eu fiquei sabendo da viagem (dois, três dias); se eu conhecia algum israelense; se eu conhecia alguém originário de algum país árabe ("Índia é um país árabe ?" "em parte, mas este não conta" "então não"); se eu podia provar que trabalhava para quem eu dizia que trabalhava (sim, com o crachá da RBS, o que levou a uma longa explicação da estrutura funcional da Nutec/Terra dentro da RBS e da Telefonica); e várias outras no mesmo estilo. Também acabei mostrando todos os e-mails que eu tinha recebido com instruções (e que por sorte eu imprimi), e tive que explicar quem era cada um dos remetentes e destinatários listados.
Em determinado ponto da entrevista havia três pessoas olhando o meu passaporte e outros papéis, mas o ponto alto foi quando ele me perguntou como eu faria para entrar em contato com a empresa em Israel se precisasse, e eu mostrei uma folhinha onde eu tinha o número de telefone anotado (antes ele me perguntou se eu tinha o número no meu Pilot, e eu não tinha, então ele quis saber para que era o Pilot). Na tal folhinha, por um acaso do destino, eu tinha vários outros números de telefone listados, inclusive alguns de Madrid e dois do escritório da Terra em Miami. Lógico, tive que explicar o que era cada um dos números e porque eu precisava deles. Daí ele saiu para falar com alguém (levando passagem, passaporte e folha de telefones) e voltou em uns dois minutos para pedir se podia ligar para Israel para garantir que estivessem me esperando lá. Eu disse que sim, claro que podia; cinco minutos depois ele voltou me dizendo que estava ok, tinha ligado e tinham confirmado tudo que eu tinha dito.
(duas semanas depois fiquei sabendo que a ligação foi atendida em Israel pela última pessoa saindo da empresa, e o telefone tocou quando ela já estava na porta; eles perguntaram, entre outras coisas, o que a empresa fazia, o que eu iria fazer, e se a empresa estava listada nas páginas amarelas (imagino eu que para evitar a possibilidade de ser uma empresa de fachada))
Depois deste interrogatório, que levou uns 40 minutos, eu fui levado ao andar de baixo do aeroporto para identificar a minha mala entre as que iam entrar no avião. Lá estavam vários outros passageiros, suponho que todos os que não tinham passaporte israelense, esperando que as malas chegassem, e uma criança chata que quase levou um tapa de uma das moças da segurança (ela quase entrou na máquina de raio-x...). Uns 10 minutos depois elas apareceram, e cada um foi achando a sua, exceto eu e outros dois passageiros, que não achamos as nossas. Daí nos disseram que, bom, agora não dá mais tempo, mesmo que a Iberia entregue a mala ela não vai entrar mais nesse vôo; procurem o balcão da El Al ao chegar em Tel-Aviv...
Um dado interessante disto tudo é que a gente podia ver as malas das outras pessoas passando pelo raio-x, e a máquina analisando o conteúdo da mala. Ela mostra para o guarda (*a* guarda, no caso) um mapa de densidades, depois agrupa tudo em objetos e tenta montar um mapa 3D do interior da mala, apontando os objetos achados e indicando formas suspeitas ou não identificadas. Realmente impressionava, muito mais útil do que uma simples imagem de raio-x.
Depois disto, foi só embarcar, depois de pegar um ônibus indo até o avião. O detalhe é que se pegava o ônibus em *outro* portão, aquele ali era só para o interrogatório mesmo. Na entrada do avião havia mais guardas nas portas (usando máscaras de esqui, mas pode ser que fosse por causa do frio). Entrei no avião ao som da trilha sonora do "ET" :-)
Tinha pouca gente no vôo, mas várias crianças pequenas que insistiam em ser ouvidas. Também tivemos uma longa espera dentro do avião até a decolagem, causada por mais neblina no aeroporto... é pior que o Salgado Filho no inverno, aqui ao menos a neblina é só na parte da manhã. Ah, e mais um detalhe de segurança na decolagem: o avião foi acompanhado do portão até a cabeceira da pista por um carro de segurança a poucos metros de distância.
Detalhes do vôo... na TV passou "Friends", em inglês mesmo, mas com legendas em hebraico; deveras interessante. Para a janta tínhamos a opção de "chicken or pasta", e eu pedi "chicken". Juro que não consegui encontrar a galinha na comida, mas massa também não era. Havia dois bolinhos de falafel (mais sobre isto depois), vegetais, humus (idem) com "pine nuts" (imagine um pinhão com mais ou menos um quinto do tamanho, sem casca; é isto) e uma sobremesa incrivelmente estranha, com a aparência aproximada de bagaço de cana torrado; não sei o nome, mas vi depois para vender em vários lugares. Achei doce demais, mas bom. Também vinha um copinho de água mineral (marca "Eden") e uma incrível lata de Pepsi de 150ml.
No vôo havia a oportunidade de se fazer câmbio de dólares por shekels, a moeda de Israel, e a cotação (4 shekels por dólar) era a mesma que eu tinha visto mencionada em mais de um site antes de viajar, então decidi aproveitar. As notas de shekel são muito bonitas, bastante coloridas, e com um longo texto escrito em letras miúdas de um dos lados, numa formatação que parece indicar um poema mas na prática pode ser qualquer coisa. Acabei ficando com uma carteira que poderia ser do Banco Mundial, com notas de vários países: Brasil, Espanha, Israel, EUA...
Cinco horas depois, já tarde da noite, pousamos em Israel. E, repetindo o pouso em Madrid, boa parte dos passageiros aplaudiu assim que o avião tocou o chão. Isso se repetiu depois novamente na volta para Madrid, e na volta de Madrid para São Paulo, então cogitei a hipótese de ser alguma mania espanhola, mas não consegui ninguém que me confirmasse já ter visto isto.
O desembarque foi novamente na pista indo para um ônibus, mas a temperatura local estava bem mais agradável. E a fila na imigração foi bastante rápida, mas eu devo ter dado alguma resposta errada, porque a moça que me atendeu saiu do guichê e me levou até uma área separada onde havia um balcão com quatro guardas, deu o meu passaporte para elas e me disse para esperar ali. Já havia um casal esperando, e depois apareceram mais duas mulheres espanholas (e ajudei no "interrogatório" delas; acho que elas tinham o mesmo sobrenome, então a moça perguntou "are you sisters ?" e elas responderam "cunhadas"; depois de três interações disso, traduzi o "cunhadas" delas para "sisters-in-law"; espero que cunhadas em espanhol seja o mesmo que em português...)
No meio da espera, vi chegar um grupo de pessoas com alguém no meio que eu podia jurar que conhecia, apesar do lugar ser meio inusitado para eu encontrar alguém conhecido. Depois de algum tempo, cheguei a conclusão que a pessoa que eu achava que conhecia era algum repórter da Globo, conclusão ajudada pelo fato de um dos integrantes do grupo estar carregando uma câmera no ombro. Quando ouvi eles falarem em português, achei que devia estar certo, e aproveitei para comentar com o repórter que podia ser impressão minha, mas ele parecia muito com um repórter do Fantástico, e ele disse "é, sou eu mesmo, vim para cá para fazer uma reportagem..." e daí a moça interrompeu para fazer umas perguntas, e liberou eles para passarem. Depois da volta me contaram que ele estava fazendo alguma reportagem em Jerusalém com um menino chamado Jesus, e realmente havia uma criança no grupo deles. Também me contaram que o nome do repórter era Zeca Camargo, eu não tinha conseguido lembrar.
Logo depois a moça se aproximou de mim com o meu passaporte, perguntou se eu era jornalista, eu disse que não e ela disse "ok, pode passar". Como eu já sabia que não tinha que pegar as malas, só precisei passar no balcão da El Al para formalizar a reclamação. Ganhei um formulário (em inglês) para preencher, depois me deram um papel com o número de registro e um telefone para ligar para pedir informações, e um "necessaire" da Iberia com "essenciais" para suprir o atraso da bagagem: sabonete, desodorante, pente, uma camiseta, roupas de baixo etc.
Munido disto, segui as placas que diziam "Taxi" e achei uma fila de táxis com um fiscal controlando a ordem de chamada deles. A presença do fiscal foi ótima porque o motorista que me atendeu não falava inglês... expliquei para o fiscal onde eu queria ir, e ele explicou para o motorista.
Não houve nada muito digno de nota no trajeto para o hotel; as ruas estavam vazias (era mais de 1 manhã), e notei que todos os sinais de trânsito que envolviam algum texto eram bi- ou tri-língues (hebraico, inglês e árabe). O hotel, um Holiday Inn, era um hotel tipicamente americano, com pessoal de atendimento falando um inglês perfeito. Àquela hora, só o que fiz foi ligar para o Brasil para avisar que havia chegado inteiro, e ir dormir. Inclusive, na cabeceira da cama havia um "painel de controle" que incluía iluminação, rádio, relógio e alarme. Não consegui entender como regular e ligar o alarme, então acabei usando o Pilot para isto...
No próximo episódio: o Mediterrâneo, pizza, gatos e um final de semana adiantado.