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Dia 12 - 18.12.1999 - Tel Aviv / Jerusalém

Sábado, e dia de acordar cedo de novo, para mais turismo. Esse era o dia do passeio gratuito a Jerusalém, desta vez com um guia para explicar tudo aquilo que eu vi no fim de semana anterior sem saber o que era.

Antes, mais dois dados de background sobre informações dadas antes... eu comentei que "El Al", o nome da companhia aérea, quer dizer "para as alturas". Depois disso, descobri que "El" também é o nome de Deus em uma das linguagens arcaicas que deram origem ao hebraico de hoje em dia, e que eram usadas na época da escrita da Bíblia. E, sobre a parábola do Bom Samaritano, descobri que a Samária, região de origem do samaritano, é a área onde hoje fica o norte de Israel, incluindo a fronteira com o Líbano. Os samaritanos eram considerados pouco religiosos e não confiáveis na época, que é o que dá mais peso à história.

Bom, sobre o passeio do dia. Desta vez eu fazia parte de um grupo maior de turistas, suficiente para encher uma van mais adequadamente (noove pessoas no total, se não me engano). Além de mim, havia americanos, irlandeses e espanhóis no grupo. O roteiro do dia incluía Jerusalém e, se desse tempo, Belém.

Começamos com um pequeno passeio por dentro da própria cidade de Tel Aviv, no caminho para a estrada. O guia ia mostrando alguns pontos de interesse histórico, como a casa de David Ben Gurion (uma figura importante da independência de Israel, e se não me engano um dos primeiros presidentes; hoje dá nome ao aeroporto de Tel Aviv) e o local do assassinato de Ytzhak Rabin, na frente da prefeitura da cidade (o local exato hoje é cercado por uma corda, tem uma placa memorial e muitas flores). No caminho também aprendemos um pouco sobre a origem da cidade de Tel Aviv, que foi fundada a uns 90 anos por um grupo de judeus que saiu da cidade de Yafo (pronuncia-se "Jafa"), que é predominantemente árabe. Hoje as duas cidades cresceram a ponto de se fundirem em uma só, sem uma separação visível entre elas.

Mesmo sendo um sábado, via-se trânsito nas ruas, e algumas lojas estavam abertas, mas muito poucas. Segundo o guia, apenas cerca de 25% dos judeus israelenses são efetivamente religiosos, a ponto de seguirem as regras ao pé da letra, então realmente a observação do Sabbath não é tão universal assim.

Pegamos as mesmas estradas do dia anterior indo para Jerusalém, mas este motorista era um pouco mais falador, então ganhamos mais informações no caminho. Por exemplo, descobri que as fronteiras entre países ali não são marcas muito permanentes, e as fronteiras atuais foram estabelecidas a muito pouco tempo.

O estado de Israel foi criado depois da Segunda Guerra Mundial, ocupando uma área até ali conhecida como Palestina. Há uma, digamos, inimizade natural entre os árabes e os judeus, então a criação do país para os judeus não foi muito bem vista pelos países das redondezas, todos eles árabes, e algo que era para ser uma declaração pacífica da ONU virou uma guerra de independência. Os países árabes (Síria, Jordânia e Egito principalmente) tentaram ocupar a área de Israel, mas no final das contas Israel tinha nas mãos um bom pedaço do Egito, que acabou sendo devolvido mais tarde. A mesma coisa aconteceu em 1967, quando a Síria tentou invadir Israel e acabou perdendo território, ao invés de ganhar.

Até o final da década de 1960, tudo a leste de Jerusalém pertencia à Jordânia, e a própria fronteira passava pelo meio de Jerusalém; ela cortava ao meio a Igreja de Notre Dame (eu sei que Notre Dame é Nossa Senhora, mas todo mundo fala o nome dessa igreja em francês), o que devia deixar a missa interessantíssima mas era muito pouco prático. A idéia da ONU era que Jerusalém funcionasse mais ou menos como o Vaticano, sem pertencer totalmente a nenhum país, por ser uma cidade sagrada para religiões muito diferentes entre si, mas isso não deu muito certo. Encurtando um pouco a história, o exército de Israel expulsou os jordanianos para o outro lado do Mar Morto, reconquistou todo aquele território e a capital do país foi transferida para Jerusalém (muito contra a vontade da ONU, que queria a capital em Tel Aviv).

Essa reconquista de território gerou a "reconquista" de um bom número de árabes, que repentinamente viraram israelenses. Ainda hoje, quase todo esse território é habitado primariamente por árabes, e partes dele estão sob o controle da Autoridade Palestina. Mas, religiosamente falando, esse território é parte da "terra prometida", do ponto de vista dos rabinos, e portanto Israel dificilmente vai deixar de lado o controle dele.

Um sub-enredo da briga por território é a briga por água. Todo o Oriente Médio é primariamente desértico, então rios são recursos naturais importantíssimos e muito raros. Não é como aqui, que qualquer cidade grande tem um rio por perto... lá, Jerusalém e Tel Aviv dependem da água da chuva (quando chove) e da do Rio Jordão e do Mar da Galiléia, que ficam bem longe dali. A água é levada através do deserto por longos aquedutos, relativamente novos. E um dos pontos de discussão sobre as fronteiras é "de quem é a água ?" A Jordânia chegou a ameaçar desviar rios para tirar água de Israel, mas Israel deixou bem claro que não seria uma boa idéia; e, na fronteira com a Síria, parte da divisa passa sobre água e há constantes escaramuças entre barcos de um país e de outro sobre direitos de pesca.

Bom, tem muito assunto sobre as relações de vizinhança entre os países, mas estou me desviando do principal... o ponto onde eu queria chegar falando sobre água é algo que eu notei neste dia. Assim como na Califórnia, os canteiros das ruas tem árvores e outras plantas, e estas são irrigadas para sobreviverem num clima tão seco. Na Califórnia isso quer dizer que tem "sprinklers" no canteiro, jogando água para todos os lados. Em Israel, tem um caninho correndo pelo canteiro e largando gotas d'água diretamente nas raízes das plantas, sem o menor desperdício. Eficientes ao extremo.

Eu ia entrar no assunto da vinda de imigrantes e no movimento sionista, mas se eu falar nisso agora vira aula de história e ninguém vai ler até o fim, então vou encaixar outra hora. Vamos aos eventos do dia.

Chegamos em Jerusalém e fomos direto para o Monte das Oliveiras, voltando para aquele ponto com uma boa vista da cidade. Ali é que ouvi a segunda história sobre o tal portão fechado na muralha de Jerusalém. Aquele era o portão que Jesus usava quando estava vivo, para ir da cidade até o Monte das Oliveiras, onde ele rezava e pregava. Como existe a profecia de que o Messias deve passar por aquele portão, ele foi fechado e foi colocado um cemitério na frente para impedir a passagem dele, porque rabinos (segundo o guia; se alguém puder desmentir isso, agradeço) não podem entrar em cemitérios, e o Messias seria necessariamente um rabino (essa é a profecia judaica, está se falando ainda na primeira vinda do Messias). Tanto esta história quanto a primeira ignoram o fato de que este muro foi erguido por volta de 1500, mas até aí tudo bem, porque eles podem ter mantido a localização dos portões. Só que aquele cemitério realmente é bem concorrido, por ser o mais próximo dos locais mais sagrados dos judeus, então não sei que história vale.

Depois dali passou-se pela igreja do Gethsemane (aquela das oliveiras) e viu-se de longe o local da Assunção de Jesus aos céus, onde diz-se existir a marca de um pé sobre uma rocha; não vimos isto. E, depois de um passeio pela cidade onde vimos, entre outros pontos interessantes, a Universidade Hebréia, a primeira a dar aulas em hebraico, nos dirigimos para os muros da Cidade Antiga (Old City). Ah, um ponto interessante é a prefeitura da cidade, ainda com muitas marcas de tiros na fachada, lembranças de épocas mais movimentadas na vida da cidade.

Entramos na cidade pelo portão mais próximo do Muro das Lamentações, o que fez com que precisássemos passar por detetores de metal e tivéssemos as sacolas revistadas na entrada. Fomos advertidos contra tirar fotos perto do muro, porque estaríamos violando o Sabbath.

As muralhas da Cidade Antiga demarcam o que era toda a cidade de Jerusalém, mas estas muralhas são relativamente novas; antigamente elas cercavam uma área bem maior, que incluía um morro a mais que acabou sendo deixado de fora pelos últimos conquistadores. Depois da reconquista da cidade em 1967, Israel começou várias escavações na cidade para estudar os níveis anteriores da cidade (ela era construída, alguma guerra acontecia e ela era destruída, outra cidade era construída em cima etc. etc., então existem vários níveis de restos abaixo da cidade atual). Essas escavações são complicadas de fazer porque implicam em destruir o que está em cima, e a cidade é habitada, mas em 1967 eles receberam uma cidade "sem dono", então podiam cavar onde quisessem. Isso facilitou muuuito o trabalho dos pesquisadores, que encontraram muitas coisas muito bem preservadas. Hoje pode-se andar por ruas da Jerusalém antiga e ver o traçado de "viadutos" de milhares de anos atrás que hoje estão abaixo do nível da cidade.

O Muro das Lamentações é realmente muito mais antigo que o resto da cidade, e continua abaixo do nível do solo por muitos metros. Quando chegamos lá estava acontecendo algum tipo de culto judaico, então pudemos olhar o rabino e seus ajudantes lendo o texto sagrado (Torah ?) em hebraico de um pergaminho guardado em um baú que parecia coberto de ouro.

E essa parte acaba por aqui, porque este é um bom ponto de quebra para a história, mesmo eu não tendo falado tudo que prometi da última vez :-) Na próxima parte: a Via Crucis, a elite da Cidade Antiga e o primeiro Natal.

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