Quinta-feira, final de semana quase chegando. Tempo bom, e um vento frio não deixando a temperatura subir muito; realmente bem agradável.
Foi um dia incrivelmente parecido com os anteriores, então realmente não sobra muito para falar sobre ele. Era de novo dia de pizza no escritório, com sorvete na sobremesa, e de novo era dia de escolher a comida para a semana seguinte. A janta foi no MacDonald´s, e de resto sobrou me preparar para a tour do dia seguinte. Ou seja, nada muito interessante. Então, vamos logo para o...
Como todo bom dia de turismo, este foi um dia de acordar bem cedo. Tomei um café reforçado no hotel, e fiquei esperando chegar a van para a tour. Existiam dois "modelos" de tours, um em ônibus de turismo, com grupos potencialmente grandes, e outro em vans, com grupos menores, mas um pouco mais caros. Optei pela van, porque a diferença de preço não era muito grande, e grupos menores acabam dando mais flexibilidade em escolha de horários, eventuais mudanças de percurso etc.
Bom, e o grupo era bem pequeno: eu e mais um canadense. Pois é, quase uma tour particular, em uma espaçosa van. Isso nos deu *bastante* flexibilidade na viagem.
O destino era o Mar Morto, que fica no lado leste do país, na fronteira com a Jordânia. Nós estávamos no lado oeste, na beira do Mar Mediterrâneo. Do lado oeste ao lado leste são umas duas horas de carro, o que é uma das vantagens de um país pequeno... O caminho começou parecido com o que eu fiz para Jerusalém na semana anterior, com a diferença que o motorista sabia o que estava fazendo, e inclusive mudamos de estrada um pouco depois para uma menos movimentada (saímos da 1 para a 443, uma estrada mais nova).
No trajeto o motorista ia falando sobre a paisagem e sobre o que se estava vendo; passou-se no meio de um bosque de pinheiros, e ele comentou que aquilo era uma tentativa de reflorestar a área ao redor de Tel Aviv para aumentar a quantidade de chuva e poder diminuir a quantidade de água que tinha que ser trazida de longe, mas até ali não estava funcionando muito bem ainda.
O caminho nos levaria até Jerusalém, que fica no alto das montanhas no meio do país, e depois desceríamos até o Mar Morto, que fica numa depressão bastante profunda. Na estrada passamos por "checkpoints", barreiras na estrada que lembravam vagamente postos de pedágio mas que eram controladas por guardas muito bem armados; elas ficavam nos pontos de "fronteira" entre a área palestina e a área israelense do país. Quase toda a área entre Tel Aviv e Jerusalém é controlada pelos palestinos; é o que se chama de "West Bank".
A área palestina funciona mais ou menos como se fosse um país separado dentro de Israel; tem seu próprio governo (a Autoridade Palestina, chefiada pelo Yasser Arafat), seu próprio exército, sua própria força policial, usa placas diferentes nos automóveis e coleta seus próprios impostos. Segundo o motorista, nós estávamos passando facilmente pelos postos de controle porque a placa do carro indicava que era de turismo; de fato, não fomos parados em nenhum dos vários postos pelos quais passamos.
A estrada era cercada dos dois lados por uma paisagem bem árida, e muito freqüentemente se via vilas dos dois lados; eram lugarejos minúsculos, com poucas casas (quase todas brancas) e ocasionalmente a torre de uma mesquita. Muito raramente apareciam cidades um pouco maiores, com prédios e ruas bem organizadas. Segundo o motorista, tudo que estava do lado esquerdo da estrada era árabe (palestino), e tudo que estava do lado direito era israelense (com judeus). Havia algumas diferenças de estilo nas vilas, realmente, mas o ponto mais visível mesmo era a torre da mesquita nas vilas árabes.
Parece haver algum tipo de "hierarquia" entre essas vilas, também. Algumas o motorista chamava de "settlement" (que seria um "povoado", ou algo parecido), outras de "villages" e outras de "towns". Parece que "settlements" são as mais recentes, recém formadas e mais "instáveis".
Conforme íamos subindo para Jerusalém a estrada ia tomando mais feições de estrada de montanhas, e ficando mais estreita. Os morros ao redor eram quase todos cortados em degraus, com árvores (ou arbustos) plantados nos degraus. Segundo o motorista, alguns daqueles degraus teriam centenas de anos, e é a forma de se plantar nos morros e ao mesmo tempo aproveitar melhor a pouca chuva que cai por ali (os degraus aumentam a área exposta do morro e diminuem a erosão pela água).
Passamos por Jerusalém sem parar na cidade, e seguimos na estrada do outro lado. Era uma estrada muito boa, e bem inclinada; mas agora estávamos descendo. Em menos de uma hora iríamos descer de uns 400m acima do nível do mar a quase 400 abaixo.
Logo que saímos de Jerusalém começamos a ver acampamentos de beduínos na beira da estrada de vez em quando. Beduínos são árabes nômades, que vivem no deserto e param de tempos em tempos em lugares aparentemente ao acaso, geralmente perto de água. Tinha muitos árabes em trajes de deserto, crianças e animais, principalmente cabras e ovelhas. Não vi nenhum cachorro, e não lembro de ter visto cavalos. Eles (os beduínos) são legalmente cidadãos israelenses, e as crianças vão à escola como todas as outras (é obrigatório); ônibus buscam elas nos acampamentos todas as manhãs e levam de volta à tarde. O motorista aproveitou para comentar, com o que parecia ser um certo ressentimento, que é muito melhor ser árabe do que judeu em Israel: os árabes tem todos os direitos, mas poucas das obrigações; por exemplo, eles não precisam ir ao exército. Os homens judeus servem por três anos, e as mulheres por dois.
Logo depois passamos pelo local que o motorista alegou ser a pousada da parábola do bom samaritano. Para quem não se lembra dos detalhes, a parábola fala sobre um viajante indo de Jerusalém a Jericó (mais ou menos uma hora de carro, uma bela caminhada) que teria sido atacado por assaltantes na estrada, e depois teria sido ajudado por um samaritano que o levou a uma pousada. Bom, o local da suposta pousada mostrada pelo motorista fica convenientemente à beira da estrada, e hoje tem um antigo posto do exército turco. O único problema da história toda é que, se não me engano, as parábolas são histórias fictícias... Mas, sei lá, quem sabe era desta pousada que a história falava.
E depois de uma longa descida chegamos ao fundo. De tempos em tempos na estrada passava-se por marcadores de altitude, a cada 100 metros verticais de descida; é muito interessante ver um sinal mostrando o nível do mar e seguir morro abaixo... O Mar Morto fica no fundo do ponto mais baixo da Terra, a quase 400 metros abaixo do nível do mar. O meu relógio, que tem um marcador de altitude, indicou 525 metros negativos, mas agora, aqui em casa, a uns 60m acima do nível do mar, ele está marcando 35 negativos, o que me leva a crer que ele tem um erro de uns 100 metros para menos. Durante a descida a diferença de pressão é bem sensível nos ouvidos, mas depois de chegar não se nota mais.
A estrada passou perto de Jericó, que é tida como a cidade mais antiga do planeta, com mais de 10 mil anos, mas não entramos na cidade. Hoje ela é uma das cidades mais importantes da área palestina de Israel, e tem um cassino que atrái muitos visitantes (porque cassinos são proibidos em Israel). A cidade fica logo ao norte do Mar Morto, e entre ela e o mar existe uma plantação enorme de videiras. Segundo o motorista, o clima ali é muito bom para uvas.
Nós pegamos a estrada que acompanha o Mar Morto pela costa oeste (israelense) e fomos para o sul. Duas coisas chamaram a atenção: as cores da água, variando de azul para verde e passando por vários tons de ambas, e o tamanho do mar, ou a falta de. Em todos os pontos do trajeto se enxerga a costa do outro lado do mar, ele é basicamente um grande lago salgado que eu acredito que só é chamado de mar justamente por causa do sal. Realmente, *muito* menor do que eu esperava.
A nossa primeira parada era numa fábrica de cosméticos que, acredito eu, paga ao motorista por levar turistas ali. Geomorfologia local: o Mar Morto é morto por causa do acúmulo de minerais diversos na água. Esses minerais foram sendo trazidos por rios e enxurradas no correr de milênios, e não tem nenhum lugar para ir, então vão ficando numa concentração cada vez maior conforme a água evapora e mais água (com mais minerais) é trazida. A concentração de minerais diversos na água do Mar Morto é 10 vezes maior que nos outros mares. Um dos efeitos disto é que nada vive no mar: nem peixes, nem moluscos, nem algas, nem nada muito complexo (parece que algumas bactérias sobrevivem); pescar ali é uma perda de tempo. Outro efeito colateral é que o barro do fundo do mar é extremamente rico em sais minerais, o que (dizem) torna ele excelente para o uso em cosméticos.
O que nos traz à tal fábrica. Ela é a única licenciada pelo governo a retirar barro do fundo do mar para usar em cosméticos, e nos mostrou um filmezinho contando o que eles fazem e com que efeitos. Depois do tal filminho tivemos a oportunidade de fazer compras na loja da fábrica, que usamos para comprar refrigerantes. Estava já bem quente, apesar de ser relativamente cedo, e bem seco.
Depois deste intervalo comercial, seguimos na estrada para o sul, costeando o mar. Ali sendo a fronteira, e a Jordânia não sendo exatamente um país amigo, é um lugar muito bem guardado. Na maior parte do trajeto a estrada é ladeada por uma cerca alta, com placas ocasionais proibindo parar; havia uma outra estradinha de chão ao lado, usada pelo jipe do exército que passa de hora em hora verificando a cerca. E, nas áreas sem cerca, havia placas proibindo ficar na beira do mar após o pôr do sol, e avisando que os guardas iriam atirar em quem fizesse isto.
Em alguns pontos se via construções antigas, que o motorista identificou como postos militares jordanianos abandonados. Até 1967 toda a área de Jerusalém até o Mar Morto (incluindo parte de Jerusalém) era da Jordânia, e Israel tomou o território na Guerra dos Seis Dias. Acredito que a Jordânia ainda se ressinta um pouco disto, mas de maneira geral essa fronteira é uma das mais tranqüilas que Israel tem, a Jordânia se ressente mais é de ter ficado no meio do caminho entre o Iraque e Israel na Guerra do Golfo, e portanto se arriscando a levar um míssil sem ter nada a ver com a história.
E do outro lado, deserto e morros altos, ocasionalmente com animais. Vimos um bode selvagem (não sei o nome do bicho, mas era daqueles que tem os chifres em espiral) e um bando de camelos. Fora isto, parece muito com o deserto da Califórnia: uma planície enorme cor de areia, com algumas montanhas ao longe. Passamos por alguns oásis (em hebraico, "ein"), em geral com construções e árvores. Também vimos alguns hotéis, e algumas boas indicações do movimento de recuo do mar; o Mar Morto está diminuindo de tamanho em um ritmo relativamente rápido, a água desce pouco mais de um metro por ano. Um dos hotéis que vimos havia sido construído à beira da água a uns 50 anos e agora ficava a quase um quilômetro dela. Inclusive, hoje o Mar Morto são dois corpos d'água separados, com um braço de terra entre eles, e com níveis diferentes (o menor fica abaixo do maior em quase dois metros); em mapas mais novos e com escala grande o suficiente isto já é indicado, mas a parte menor não ganhou nenhum nome novo.
Um problema inesperado daquela área é a ocorrência de inundações repentinas quando chove. O chão do deserto é quase impermeável, o que quer dizer que toda a água que cai tende a escorrer para o ponto mais baixo, que é o mar. Assim, quando chove nos locais mais altos, por pouco que seja, se forma uma correnteza indo para o mar que acaba atravessando a estrada, e geralmente forçando a interdição dela por algum tempo. Ela também acaba por fazer esculturas muito interessantes no chão do deserto; em um trecho se tinha a perfeita impressão de se estar passando ao lado de uma pequena cidade, quando na verdade o que estava lá era um conjunto de "ruas" escavadas pela água entre pequenos platôs que ficaram parecendo edifícios baixos.
Vou continuar em outro dia, para não ficar muito longo... no próximo episódio: um passeio de teleférico, um banho de mar e algumas árvores milenares.