Primeiro, uma correção sobre um relatório antigo... diferentemente do que eu falei, os canudinhos da Pizza Hut aqui *não* vem embrulhados em papel. E, sobre aqueles nomes de pessoas lá do início, que eu pedi para adivinharem quem era homem ou mulher... ninguém tentou, então, só para deixar registrado: Eitan, Erran, Aron e Yossi são homens, Yafit é mulher.
Amanheceu um dia muito mais bonito que o anterior, sem chuva e, claro, sem surfistas. Aproveitei que acordei cedo para tomar o café da manhã no hotel com toda a calma, incluindo uma bela porção de morangos com creme de leite, muito bons.
O jornal do dia dedicava inúmeras páginas às tais negociações com a Síria (que até agora, meados de fevereiro, ainda não deram em nada). Estes problemas de vizinhança naquela parte do mundo realmente são muito complicados, mas vou aproveitar os relatos do turismo do final de semana para falar um pouco de geografia e história, dentro do contexto dos lugares visitados. Não vai faltar assunto...
O dia de trabalho foi largamente envolvido em traduções de inglês para português para o projeto; obviamente ninguém lá falava português, e a equipe que havia feito as traduções originais tinha feito algumas coisas meio escabrosas que acabei corrigindo. Nada muito complicado, mas meio chatinho de fazer.
Almoço: peru (como se come peru lá!), salada e tabuli, que é um tipo de salada árabe, muito gostoso embora um pouco picante, que eu não faço a menor idéia do que é feito. A sobremesa incluia várias opções, inclusive uns bolinhos de romã ("pomegranate" em inglês, mas mesmo as americanas que estavam comigo não lembravam o nome), que eram umas tortinhas com os grãozinhos da romã por cima. Gosto muito de romã, mas não arrisquei e fiquei com uns bolinhos similares de morango.
No caminho de volta para o hotel, o rádio do táxi estava ligando em uma emissora que estava tocando música; foi a primeira vez que isto aconteceu, geralmente eram só notícias, e nas notícias eu só pegava algumas palavras ao acaso, como "Síria", "CIA", "Microsoft" e coisas do estilo. Aliás, ouvi um programa de rádio em que o locutor, israelense, ligou para um jornal da Síria que tinha publicado um editorial contra as negociações, querendo falar com o editor, mas não conseguiu. Ele falou com o jornal de lá em inglês, e foi só este trecho que peguei, mas o locutor parecia indignadíssimo com a história.
Mas, a música... depois de um tempo começou a tocar uma música que me parecia conhecida, e que logo notei que era "Águas de Março"... só que cantada em hebraico! (ou alguma língua parecida, mas nada que eu remotamente entendesse) A voz feminina parecia incrivelmente com a Elis Regina, mas não creio que fosse, e a métrica dos versos encaixava bem com a música, mas era incompreensível, então não sei se era uma tradução literal. Ainda assim, foi muito estranho... eu já tinha ouvido esta música em inglês, numa tradução razoavelmente próxima, mas nunca em línguas mais distantes.
À noite saí para uma caminhada e para comer, e acabei optando por experimentar um falafel, aquela comida típica que mencionei no outro dia. Existem duas versões básicas do prato, que eu apelidei de versões "handheld" e "desktop". A primeira é feita para se comer de pé, ou ao menos sem o auxílio de ferramentas (garfo, faca, prato etc.), e se vende em bancas e pequenas lancherias para se comer na rua. Consiste de um pão, hmm, árabe ("pita bread" em inglês, é parecido com o nosso pão sírio) preenchido com dois ou três bolinhos de falafel (daí o nome), saladas como alface e tomate, humus e eventuais molhos opcionais. Em alguns lugares dá para se montar o falafel como em um buffet de cachorro-quentes se monta estes. "Bolinhos de falafel" são algo aparentado com quibes, que tem carne, alguns vegetais, e acredito que trigo, além de temperos. Sim, eu sou péssimo para pegar receitas, nunca investigo a fundo do que as coisas são feitas... A versão desktop tem tudo isto espalhado em um prato, em mais ou menos o triplo da quantia, e o trabalho de montagem fica por conta do cliente. Tem a vantagem que o humus vem no formato de um recipiente com azeite de oliva dentro, fica muito bom.
Esta noite parei em uma lancheria que pareceu simpática e experimentei a versão portátil, que já é por si só uma bela refeição. Ele me pediu se eu queria colocar um molho que ele me descreveu como "a little bit spicy", um pouquinho apimentado. A minha regra com comidas desconhecidas é que, se a pessoa que está servindo sente que precisa avisar que é apimentado, é porque é apimentado demais para mim. Ainda assim pedi só um pouco do molho, e não me arrependi, o conjunto ficou muito bom. E por 10 shekels (US$2,50) é uma refeição bem barata para os padrões locais. Pena que deve ser impossível conseguir os ingredientes para um falafel passável aqui.
No volta passeei um pouco por um shopping center (onde notei o guarda na porta revistando as sacolas de quem entra). Israel é um lugar excelente para fazer compras de Natal, pelo simples motivo de que lá não tem Natal... as lojas estavam absolutamente tranqüilas. Lógico que não se entra no clima pela falta de decoração, o que atrapalha um pouco.
No próximo dia: quase nada, então vai se fundir com o seguinte. No próximo relatório: deserto, camelos e a parábola do bom samaritano.